Colunista Vanderley de Brito

Historiador com especialização em arqueologia, escritor, genealogista, poeta, roteirista para teatro e cinema, articulista e artista plástico. Autor dos livros “A Serra de Bodopitá”, “A Pedra do Ingá”, “Arqueologia na Borborema”, “Missões na Capitania da

  • NEGLIGÊNCIAS À TOPONÍMIA EM CAMPINA GRANDE

    19/03/2018

    Os topônimos são patrimônio, revelam história, linguística, psicossocial, tradição e muito mais. O topônimo Campina Grande, por exemplo, nasceu da espontaneidade, existe desde pelo menos o ano de 1697 e a tentativa de mudá-lo para Vila Nova da Rainha foi um fiasco, porque a tradição sempre fala mais alto, do mesmo modo que nas décadas de 1930 e 1940 tentaram mudar o nome de Queimadas para Tataguaçu, de Lagoa Seca para Ipuarana, de Barra de São Miguel para Potira, de Boqueirão para Carnoió, de Soledade para Ibiapinópolis, de Pocinhos para Joffily e muitos outros municípios que tiveram seus nomes mudados, mas a resistência da tradição não deu asas a essas violações toponímicas.



     

     

     

     

     

     

    Além das localidades, recebem nomes também as referências geográficas como serras, baixadas, lajedos e cursos hídricos, que são nomeados pelo povo e sobrevivem por centenas de anos guardando antigas tradições. Estes nomes também devem ser preservados e respeitados enquanto patrimônio imaterial. Mas, infelizmente, poucos compreendem o valor dos topônimos e, muitas vezes, quando vão sinalizar estes lugares agem com negligência, de modo a comprometer a historicidade local.

    Temos aqui no município de Campina Grande pelo menos dois exemplos de nomes de riachos que foram adulterados em placas e que precisam ser revistos. Um deles é o Riacho Figuri (também conhecido como Amorim e Loango), que nasce no lugar chamado Targino, passa na Fazenda Maria da Luz, dos herdeiros de Artur Freire, segue margeando a BR 230 até o lugar Loango, onde cruza a BR e segue até confluir com o riacho Surrão que vai desaguar no Rio Paraíba. Pois bem, quando este riacho cruza a estrada o Departamento de Estrada e Rodagem colocou uma placa sinalizando que se trataria do Riacho Convento, mas está errado. O Riacho Convento é outro há uns quatro quilômetros adiante, ele nasce no lugar Convento e cruza a BR 230 próximo a cidade de Riachão do Bacamarte. Portanto, a placa que sinaliza Riacho Convento deveria ser colocada no cruzamento deste riacho, próximo à cidade de Riachão.



     

     

     

     

     

     

     

     

    Caso semelhante que observei recentemente ocorre na PB-138, que liga a Alça Sudoeste, em Campina Grande, ao distrito de Catolé de Boa Vista. Nesta estrada, recentemente pavimentada pelo Governo do Estado, colocaram uma placa na ponte do Riacho Logradouro que está referenciando este curso hídrico como “Riacho Pedra Fina”. Sinceramente não sei de onde tiraram este nome, pois aquele, desde tempos muito antigos é o Riacho Logradouro. Portanto urge que o DER faça a substituição desta placa também.

    A maioria dos topônimos da Paraíba remonta a época da colonização. Desconheço os critérios do DER, se há consultoria de geógrafos e historiadores para a elaboração destas placas ou mesmo como aferem seus GPS, mas acredito que estes erros na sinalização de nossos topônimos não são só um desrespeito a tradição e ao patrimônio municipal de Campina Grande, mas também uma violação de documentos históricos.

  • A VALORIZAÇÃO DA MULHER

    13/03/2018

    "Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher", isso parece ser um adágio popular do tempo em que se imaginava que a mulher devia ficar à sombra do homem. Ainda há quem pense dessa forma, tanto homens quanto mulheres, infelizmente. Do ponto de vista médico, há estruturas cerebrais com morfologia e funcionalidade diferentes entre o homem e a mulher, mas no que diz respeito a intelectualidade não há questões específicas ou típicas de um sexo em relação ao outro. Há sim, padrões mutáveis e imprevisíveis devido aos múltiplos papéis envolvidos, todavia, de modo genérico, as capacidades cognitivas do homem e da mulher são as mesmas, por isso este adágio machista não se justifica.



     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    A mulher deve estar ao lado do homem. Não atrás. E para que não paire dúvidas, a história é eivada de exemplos de casais que tiveram destaque juntos e na mesma medida de valores, como foi o caso dos físicos Pierre e Marie Curie, que receberam juntos o Nobel da Física em 1903, e outros inúmeros, como Giuseppe e Anita Garibaldi, Lampião e Maria Bonita, Luís Carlos Prestes e Olga Benário e assim por diante que, independente do sexo, se destacaram em atividades semelhantes sem que nenhum estivesse à sombra do outro.

    Se formos nos reportar à historiografia local, é interessante ressaltar dois casais que, cuja intelectualidade e capacidade de ação cultural, se destacaram igualmente como agentes da história local e também como membros do Instituto Histórico de Campina Grande. O primeiro casal foram José Lopes de Andrade e sua esposa Letícia Camboim, que, componentes da primeira versão do Instituto Histórico de Campina Grande, em 1948, e também da segunda versão deste Instituto em 1970, foram, reconhecidamente, aclamados como grandes intelectuais nos meios acadêmicos da história e da sociologia, sem qualquer distinção. O segundo casal em pauta são os confrades Berilo Ramos Borba e Maria Auxiliadora Bezerra Borba, que foram admitidos nesta nossa quarta versão do IHCG pelos seus reconhecidos valores individuais enquanto memorialistas, sociólogos e escritores de grande expressão local. Nenhum destes ingressou no universo da intelectualidade ou mesmo no quadro de sócios do IHCG por indicação, imposição ou conchaves do conjuge, eles entraram porque tinham serviços relevantes prestados à história da cidade de Campina Grande, bem como à cultura regional.

    Uma vez que estamos ainda sob os reflexos do Dia Internacional da Mulher, poderíamos aqui detalhar as realizações destas duas grandes professoras (Letícia e Auxiliadora), mas seria clichê e pouco producente à valorização da mulher, por isso, ressaltaremos os valores destes dois homens sábios (Lopes e Berilo). E quando falamos em “sábios” não estamos dizendo-o por seus reconhecidos trabalhos intelectuais, mas por terem sido sensíveis e honestos em prestigiar e valorizar suas mulheres frente a si e à sociedade, pois mesmo diante de um mundo culturalmente machista, onde os homens não costumam permitir o ingresso de suas mulheres nos seus campos de atuação, eles venceram sua natureza e se autoeducaram de modo que, além de abrirem a porta do carro para suas damas, tiveram a hombridade de abrirem-lhes as portas também para seus valores e aspirações.

  • A CHOPERIA DOS STEINMÜLLER

    06/03/2018

    No ano de 1953 a Áustria era um país em escombros, dividido e ocupado pelas tropas dos aliados desde o fim da Segunda Guerra Mundial, pois pertencia ao Reich Alemão de Adolf Hitler. A incerteza, o desemprego e a fome compunha o cenário vienense quando o jovem Wilhelm Gustav Steinmüller, já casado a pouco mais de três anos e com três filhos pequenos, decidiu deixar sua terra natal e tentar a sorte no Brasil, que era considerado na época uma terra de oportunidades.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Somente com a cara e a coragem o jovem austríaco desembarcou no Recife. Imaginem o que é estar em terra estranha e sem saber se comunicar. Mas, felizmente, Willy (como ficou conhecido) arranjou emprego num frigorífico e logo que teve a documentação de permanência regularizada, mandou buscar a família para junto de si. Assim, em 01 de novembro de 1953, sua esposa Margareth Straznicky reuniu filhinhos Renate, Helga e Viktor, e embarcou no navio Toscanelli, numa penosa viagem de doze dias rumo ao Brasil.

    Foi um recomeço difícil para o casal austríaco na capital pernambucana, até que Willy ouviu falar de Campina Grande, cidade em desenvolvimento que oferecia oportunidades para negócios, e então, com o pouco dinheiro que ainda lhe restava da venda de sua casa em Viena e a indenização do frigorífico onde trabalhava, resolveu ousar e mudou-se para Campina Grande com a família, chegando em 14 de maio de 1954, no intuito de começar um negócio de conservas e frios na cidade.

    Num prédio de propriedade da senhora Maria Cunha, Willy se fez inquilino e adaptou o imóvel para iniciar sua fabricação de salsicha, linguiça, mortadela, salame e presunto, que produzia por meio quase artesanal, e assim nascia a Salsicharia Vienense.

    Carismático e muito ativo, em pouco tempo Willy fez amizades, conseguiu empréstimo junto ao Banco do Nordeste para adquirir os primeiros maquinários e gerir o empreendimento. Todavia, embora o casal tivesse feito muitos amigos, o negócio não prosperava porque os produtos embutidos causavam estranheza, pois ainda não faziam parte dos hábitos alimentares dos campinenses.

    Mas Willy era perspicaz, não aceitou o fato de ter apostado todas suas economias e esperanças num negócio estéril. Observou o povo, conversou aqui, proseou ali, e percebeu que os campinenses gostavam mesmo era de beber, e, já que Maomé não vinha à montanha, lhe veio à ideia de levar a montanha a Maomé. Foi ao Recife, comprou um barril de chopp, que gelava na época com uma serpentina, reorganizou o ambiente com mesas e cadeiras simples e no dia 12 de novembro de 1955 inaugurava a primeira choperia da cidade, o Chopp do Alemão, como ficou conhecido porque os campinenses não sabiam diferenciar um austríaco de um alemão, afinal eram todos galegos e falavam a mesma língua.

    Sem dúvidas Willy foi genial, pois seu objetivo de transformar a salsicharia em lugar também de encontros alegres para consumo de chopp, tinha a estratagema de habituar os campinenses a comer seus embutidos, que entravam a pretexto de aperitivo. Com chapéu de feltro com uma peninha verde, típico de tirolês, o chopp servido com espuma e em canecas de vidro e numa arquitetura interna semelhante as tabernas, com arcos e tijolinhos à mostra (em branco e vermelho para representarem as cores da Áustria), Willy criou um ambiente da tradicional cultura dos povos germânicos em Campina Grande, uma novidade exótica e atraente que logo cativou os boêmios, poetas, bancários, advogados, jornalistas, radialistas, médicos e estudantes, nomes de destaque como Ramalho Filho, William Tejo, Félix Araújo, Ronaldo Cunha Lima, José Pedrosa, Déa Cruz e, noutros tempos, Chico Maria, Firmino e Virgílio Brasileiro, Arlindo Almeida, Stenio Lopes, Flamarion Leite, Gilson Souto Maior, Bráulio Tavares, Carlos Alberto Azevedo e mais uma infinidade de pessoas que se tornaram frequentadores assíduos desta choperia que entrou para a história da cidade.

    Desse modo, há 64 anos a família Steinmüller se estabeleceu em definitivo na Rainha da Borborema, onde nasceram mais cinco filhos do casal: Ida, Otto, Roberto, Elisabeth e Franz, e até hoje o Chopp do Alemão permanece em funcionamento num prédio em estilo de arquitetura enxaimel no centro da cidade, à Rua Barão do Abiaí, 158, atualmente sob a gerência dos filhos do casal Otto e Roberto Steinmüller, que pretendem criar nos salões do Chopp um memorial fotográfico registrando todos os frequentadores do lugar desde sua fundação até os dias atuais e vindouros.

  • TUDO QUE NÃO SEI SOBRE A PEDRA DO INGÁ

    27/02/2018

    Em janeiro de 2007 eu estava lançando a primeira edição de meu livro “A Pedra do Ingá”. Era o primeiro resultado de seis anos de pesquisa, seis longos anos recolhendo bibliografia, fotografando o monumento da Pedra do Ingá em diversos ângulos, diversas luzes, catalogando e contando de frente para trás e de trás para frente todos os sinais, desenhando tudo que havia ali, fazendo testes de arqueologia experimental, andando o riacho acima, riacho abaixo, prospectando as redondezas e ainda realizando expedições a muitos recantos do Estado para registrar da mesma forma exemplares fac-símiles de petróglifos. Todo este trabalho resultou num livro de apenas 122 páginas.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Não consegui traduzir os registros rupestres do Ingá, nem tampouco datá-los ou mesmo descobrir quem foram seus executores. A única conclusão que me veio foi a máxima socrática de que “só sei que nada sei”. Mas, devo dizer que foi uma obra inovadora sobre a Pedra do Ingá, não só pela honestidade com que conduzi minhas pesquisas, mas também pelo fato de a ter filiado numa cultura abrangente petrográfica e desmistificado todas as crendices e heresias que já foram aventadas sobre este monumento arqueológico.

    Sem ideias mirabolantes ou sensacionalismo, o livro foi feliz e já no ano seguinte (2008) eu lançava sua segunda edição pela JRC Editora. A terceira edição foi publicada em 2009 e a quarta em 2011, sendo estas duas pela editora da UFCG. A quinta e a sexta edições vieram pela Editora da Maxgraf, respectivamente em 2012 e 2014, a sétima edição foi publicada em 2015 e a oitava veio no ano passado, exatos dez anos depois da primeira.

    Todas as edições foram revisadas e ampliadas, e a versão oitava conta com 139 páginas, pois a busca por respostas continuam, nunca deixei de dar continuidade às pesquisas nem ao recolhimento de fontes bibliográficas, e desde 2001 visito a Pedra do Ingá religiosamente a cada dois meses.

    Todavia, como não sou dado a fantasias, continuo sem saber as respostas sobre este monumento com seus intrigantes baixo-relevos e às vezes até questiono o porquê do sucesso do livro. Entre os autores paraibanos, depois da “História da Paraíba: lutas e resistência” de meu amigo Dr. José Octávio de Arruda Mello, meu livro sobre a Pedra do Ingá é o que mais atingiu reedições.

    Outra curiosidade interessante é que, mesmo sem ter descoberto nada sobre os sulcos da Pedra do Ingá, hoje sou considerado a maior autoridade do assunto, sempre sendo convidado para conferências de arqueologia para falar “o que não sei” sobre este intrigante sítio arqueológico, que é um dos mais estudados no mundo.

    É interessante. A única coisa que fiz em meu livro foi desfazer as pseudoverdades que eram aventadas sobre a Pedra do Ingá, libertando-a do estigma sensacionalista e filiando-a num contexto sociocultural para sugerir um modo mais sóbrio e acadêmico de estudo, e, sem verdades absolutas, hoje todos se curvam as dúvidas que oferece este sítio rupestre, cujo teor gráfico (imagino) jamais será definitivamente desvendado.

  • O VELHO OESTE PARAIBANO

    20/02/2018

    Os sertões da Paraíba começaram a ser desbravados em meados do século XVII por sertanistas sesmeiros para a implantação de currais. Todavia, esses sertões eram ocupados pelos temidos índios Tarairiú, nativos rudes de quase dois metros de altura que formavam inúmeras tribos, como os Janduí, Ariú, Canindé, Pega e Sucuru. Além destes tapuais os sertões eram ocupados também por de duas tribos de etnia tupi, os Panati e os Curema, que após a expulsão dos holandeses fugiram para esses longínquos evitando as represálias por terem lutado ao lado dos neerlandeses.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Obviamente houve desacordos, uma vez que os pecuaristas invasores soltavam seus gados nos territórios indígenas, que não compreendiam a noção de propriedade e consideravam esses animais objeto de caça. Resultado: em 1682 foi deflagrada nos sertões a chamada “Guerra dos Bárbaros”, um período sinistro da História da Paraíba onde milhares de nativos foram empalados e mortos pelos exércitos colonizadores comandados pelo capitão-mor Theodósio de Oliveira Ledo e formado, principalmente, por bandeirantes paulistas a serviço do terrível Domingos Jorge Velho, um mercenário desumano que depois também seria o responsável pela destruição do Quilombo de Palmares.

    O enredo histórico da conquista do velho oeste paraibano é fantástico, sem dúvidas, e ciente desta perspectiva, com muita ousadia, o jovem historiador e cineasta Erik Brito resolveu converter o tema em série de cinema, em seis episódios, e os trabalhos desta superprodução cinematográfica já estão em marcha. O filme terá o título “Ybynháraã”, um termo indígena que quer dizer “onde começa o sertão”, vocábulo hoje aportuguesado para Espinharas.

    Com atividades a mil por hora, recentemente a equipe de direção do filme me convidou para compor o quadro de consultores, na qualidade de historiador, etnólogo e filólogo, e na noite da última sexta-feira participei de uma reunião muito dinâmica, onde pude compreender um pouco mais deste projeto. Estavam presentes na reunião o diretor-geral Erik Brito, o assistente de direção Cícero Alves Barros, o diretor de arte e figurino Ângelo Rafael Farias, o diretor de fotografia Edmilson Roberto, o consultor de armamentos antigos Laerte Ferreira e também a bela memorialista Maria Ida Stenmüller na qualidade de consultora de administração.

    A reunião foi muito educativa, esclarecedora e interessante. O lema em pauta da reunião era: “Fala de tua província e serás universal”, evocando a valorização do tema regional, e foram apresentados inúmeros estudos iconográficos sobre vestimentas, indumentárias e tecnologias armamentistas do medievo paraibano, tanto do plano luso-brasileiro quanto do aspecto ameríndio. Além de figurino e embasamentos históricos, tecnológicos e antropológicos, a reunião tratou também das escolhas de cenários naturais, sugestões para elenco, estratégias de divulgação e outras questões relacionadas a vídeo, áudio, produção, direção, fotografia, arte e platô.

    A maior parte da equipe é formada por jovens, o próprio diretor-geral tem apenas 23 anos, mas me impressionou a capacidade destes meninos, bem como a competência e a seriedade com que conduzem o projeto. Sinceramente, me senti privilegiado em fazer parte de mais este momento histórico da Paraíba, onde poderei não apenas ver o resultado de tanto empenho e inteligência, mas também saborear in loco cada aspecto intrínseco da remontagem cênica do que foi um dos períodos mais agitados e definitivos para a conquista e ocupação do velho oeste paraibano.

  • Adornos indígenas de amazonita na Paraíba

    16/02/2018

    Os povos ameríndios sabiam trabalhar rochas com destreza, herança de seus remotos ancestrais da cadeia evolutiva humana, e com os mais diversos minerais oferecidos pela natureza produziam utensílios, adornos, talismãs e ferramentas. Alguns destes artefatos eram rústicos, mas nossos antigos nativos também faziam objetos meticulosamente trabalhados, que ainda hoje intriga todo aquele que desdenha das capacidades artísticas dos povos ditos “primitivos”.

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    Na Paraíba, que possui um dos mais ricos acervos mineralógicos do país, já foram encontrados diversos e interessantes objetos de arte lítica ameríndia, produzidos por meio de lascamento ou polimento, seja em gnaisse, diorito, hematita, calcedônia, quartzitos e muitas outras rochas, com estilos bem definidos de tradições e engenho para uso prático. Todavia, o que mais impressiona na cultura lítica ameríndia são as esculturas, contas e pingentes que sempre se acham confeccionados em pequenas gemas, cuja engenhosidade é tamanha que custa acreditar terem sido feitos sem o uso de furadeiras, esmeris e outros instrumentais da tecnologia moderna. Intriga a simetria destes objetos, a precisão com que eram perfurados e dentre as inúmeras gemas que encontramos com relativa facilidade nas regiões pegmatitas da Paraíba, a amazonita era a que mais agradava aos primitivos artífices de adornos líticos.

    A amazonita é uma variedade do feldspato muito encontrada no Nordeste brasileiro e foi largamente utilizada por populações pré-históricas. Sua coloração variante entre o verde e o azul encanta, como as íris de uma princesa, e é uma rocha também agradável de tocar, pois esse tectossilicato tem textura terna e suave.

    Na Paraíba, em sua forma bruta, a amazonita ocorre vulgarmente em diversas regiões, já a encontrei em expedições nos municípios de Picuí, Pedra Lavrada, Junco do Seridó, Taperoá e ainda tive a oportunidade de visitar uma producente mina deste mineral no município de Prata, no sul do Cariri, onde adquiri um belo exemplar para minha coleção mineralógica (foto). Do mesmo modo, os achados de peças arqueológicas fabricadas a partir dessa gema são profusos em toda a Paraíba:

    Na zona rural do município de Soledade, numa prospecção próxima a encosta do riacho Arruda, encontramos diversas contas-de-colar pré-históricas modeladas em amazonita, que hoje fazem parte do acervo do museu da cidade. No mesmo município de Soledade, no sedimento de um cemitério indígena, em 1957 os amigos pesquisadores Carlos Alberto Azevedo e Inocêncio Nóbrega também encontraram contas semelhantes, no ano seguinte o pesquisador Leon Clerot encontrou também um amuleto de amazonita perfeitamente polido e perfurado em sentido longitudinal no solo de um cemitério indígena na serra da Raposa, município de Pocinhos, e em 1965 o padre Luiz Santiago achou dois tembetás (enfeites de beiço) na região de Alagoa Nova, salientando também que nosso velho amigo Balduíno Lélis possui belos tembetás de amazonita em seu acervo museológico, todos procedentes da Paraíba, e, mais recentemente, o colega o

    Dennis Mota também encontrou um belo pingente neste mineral numa furna na região serrana de Pirauá.

    Estes diversos achados atestam que as sociedades ameríndias que viveram na Paraíba em tempos remotos possuíam engenho para confeccionar pequenos adornos em amazonita e até nutriam certa veneração pela gema, que desde tempos muito recuados era tida como “pedra divina” (como registrou Spix e Martius), ou “pedra da felicidade”. Os indígenas amazônicos chamavam estes objetos de muiraquitã, cuja tradução é: “miçanga de pedra”.

  • Uma breve reflexão sobre a Pedra do Ingá

    05/02/2018

     

    Há milhares de inscrições rupestres nos rochedos do Brasil, entre pinturas e gravuras de baixo-relevo. Dentre tantas, a Pedra do Ingá é, sem dúvidas, a mais profusa, complexa e esmera que se têm notícias. Todavia, ainda não existe um consenso científico sobre a real antiguidade deste monumento rupestre ou quem poderia ter sido seus autores. Uma vez que não se registra nenhum parâmetro cultural entre os indígenas contatados pelos colonizadores lusitanos e os registros pétreos que decoram as paredes do lajedo do riacho Bacamarte.

     

    Na região da Serra da Capivara, no Piauí, a pesquisadora Niéde Guidon descobriu vestígios da presença humana comprovando que o homem vive no nordeste brasileiro desde pelo menos cinqüenta milênios. Por isso, é ingênuo imaginar que os povos encontrados por Cabral em 1.500 eram sempre os mesmos que habitaram o território durante toda a pré-história.

    Quando da chegada dos europeus ao continente, as tribos e nações indígenas estavam em constantes conflitos, principalmente porque os indígenas Tupi se encontravam em expansão territorial. Já dominavam toda a costa brasileira e estavam se estendendo para o interior, enquanto outros grupos reduziam em população e, cada vez mais, perdiam território. Esse foi o cenário encontrado pelos portugueses. Portanto, se a “descoberta” tivesse se dado em outro período, anterior ou posterior aquele registrado, a História teria sido outra. Estaríamos hoje falando de outras populações, outros parâmetros culturais.

    Levando-se em conta a dinâmica de sobreposições de culturas, talvez quinhentos anos antes da chegada dos europeus outros povos teriam seus domínios. Ou se o episódio da conquista tivesse se dado quinhentos anos depois, talvez muitos grupos já tivessem sucumbido ao poderio bélico dos Tupi.

     

    Quantas outras culturas, mais adiantadas ou mais primitivas, teriam vivido nos diversos períodos de nossa milenar pré-história e foram extintas ou aculturadas por novas levas migratórias ou fenômenos diversos?

     

    O tempo não reflete o grau de desenvolvimento das populações. Podemos tomar de exemplo à prestigiosa sociedade egípcia, que viveu um apogeu civilizatório impressionante há cinco mil anos e, com o tempo, ao invés de evoluir, regrediu. Até ao ponto de suas suntuosas construções tornarem-se ruínas sem que nenhum dos habitantes do Egito pudesse esclarecer a origem daquelas construções. Para que se possa ter uma idéia, se não fosse o estudioso Chapollion, que decifrou os hieróglifos egípcios, ainda hoje não saberíamos o que são aquelas construções ou quem foram seus executores. Seria tão ignoto quanto a Pedra do Ingá o é.

     

    A sociedade que burilou as inscrições do Ingá, e outras itacoatiaras de teor fac-símile que existem difundidas a esmo por todo o Nordeste, segundo estas perspectivas teóricas, seria, talvez, alguma das muitas civilizações que, num período remoto, tiveram seu florescimento, apogeu, declínio e extinção num dado período da extensa pré-história, cujos parâmetros culturais perderam-se na bruma dos tempos idos.

     

    Isso explicaria o fato dos indígenas do período colonial, quando questionados, não saberem responder sobre a origem ou significado destas curiosas inscrições em rochedos existentes por quase todo o país.

     

    A Pedra do Ingá talvez seja a mais sofisticada expoente de inscrição incisa em rochas já feita na pré-história ameríndia e não seria absurdo supor que talvez represente o grau mais elevado deste gênero de manifestação parietal.


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