Colunista Amaro Pinto

  • A ERA DA INTOLERÂNCIA.

    07/11/2017

    De dois ou três lustros para cá os ventos no Mundo já não são os mesmos e essa mudança não somente advém dos humores físicos e da Natureza, mas da essência radical que forma o molde da alma humana através das noites abissais e incessantes do Tempo.

    Há uma coloração nova no ar e por lamento – parece traduzir fumos piores do que os de outrora, quando a Humanidade experimentou o ranger de dentes de dores terríveis, a espessura de perseguições implacáveis, o rumor insaciável de imposições brutais, os clamores em forma de gemidos que se faziam silentes, mas nunca surdos; de igual (vezes) ouvidos. O grito que para não nascer sozinho, se fazia companheiro de outros gritos, em solidária afeição feita pela dor, com o sentir nascente de quem já se sabia não estar mais solitário, aos humores da desumana indiferença, ou até sob a chibata do verdugo indomável.

    E aqui não se deitam letras de correntes das ciências sociais, ou opções políticas pessoais e coletivas transbordantes para além de dicotomias vermelhas, brancas ou azuis, por destinos e margens que vão pelo meio, direita e esquerda de tantos caminhos havidos e desavindos.

    Também não se pode em cálido instante cantar as vontades individuais, as ânsias próprias que nascem e fenecem com o humano – sobretudo porque nada há mais afeito ao humano que seus sabores tão iguais instantemente e tão diametral e amalgadamente diferentes: há beleza maior do que isso?

    Por que, afinal, somos tão iguais e diametrais, assim como os ventos matinais, os raios solares das manhãs, as brisas vespertinas de luzes brilhantes e macias, o sopro afetuoso noturno e seu tremeluzir de retinas, em busca do sono e sonhos? Por quê?

    Se somos água e terra una, barro e sopro só, fogo e ar, começo, meio e fim -  todos caminhantes à placidez candente da crepuscular irmã ali adiante que nos espera, ingente, inexorável, infensa e muda aos nossos gritos, clamores, crenças, rezas, orações, preces e apelos – esquálida de espada indiferente, desapegada aos nossos rotundos sentimentos, intolerante (isso sim) se temos em si imantada a ideia estúpida, deleite dos tolos e da ignorância, mãe de vã e impossível de existir (falsa) superioridade.

     Lá, na ponta do sapato, está o começo do futuro, o passo rumo ao bote final, o sepulcral silêncio desafeito a quaisquer emoções...E se depois houver novos caminhos, se assim houver, que já não sejam tão arrogantes e ensimesmados; que não se aferrem nos odores fétidos expelidos ao enxofre dos narizes empinados e tomara que se desapeguem do tilintar das moedas arrebatadas e dos perfumes acres, dos alaridos dissonantes de ternos ímprobos e gravatas polutas; e Oxalá se distanciem dos jalecos maculados pela cupidez e cobiça, se afaste das vozes pútridas, perdidas em seus revoluteios verbais, dos dedos caídos de tanto julgar, apontar, condenar...

    Aos semelhantes que antes e depois e ainda para sempre somos nós mesmos, às aspirações e sofrimentos deles que nos são todos, pelos direitos que nos fazem iguais sem necessidades de poderes humanos para ditá-los, aos nossos humanos atos tão cheios de virtudes e imperfeições – demos por inspirações divinais (mesmo) incréus – o beneplácito da tolerância, o beijo doce da esperança trazida em madrugadas companheiras, em horas abraçadas, por sorrisos feitos nos apegos da bondade, no perdão da fraterna similitude que teima em sorrir.

    Lá nos vamos, portanto, andando adiante ao sabor de laboriosas, celestinas e protegidas jornadas, sob o espargir de estrelas iridescentes, de luzes certas, confiantes na igualdade, crentes na fraternidade, pios na liberdade – eis que ao alfim, quando e se tudo de fato terminar, valerão os afagos ao alcance dos braços, o morar dos gestos a sentir, o calor dos afetos de tempos do sempre e nada mais – porquanto se a indiferença for então viver e dominar a nossa era – então nada, nem a dor, nem o amor, nem a (in)justiça em vida, nem o canto sozinho do vate erguido na esquina de toda existência comum, nem seus versos molhados de tanta alma terão valido a pena...

    Permitamo-nos saber que é na diferença que brota o crescimento, no contraditório que nasce a sabedoria e no respeito é que nos fazemos maiores e mais humanos – como assim já foi e também assim será. Sempre.

    Avante – porque somente DEUS é grande.

  • VIVA O REINADO, SALVE A SINECURA, ABAIXO A PLEBE.

    17/08/2017

    Ao retomar seu prestigiado Portal “A PALAVRA”, legenda viva do jornalismo paraibano, tive a honra de ser novamente agraciado com o convite do multimídia Marcos Marinho para refestelar-me na saudável, talentosa e mui nobre companhia de seu luzidio corpo de Colunistas – fato que para me é motivo de muito orgulho e extremada alegria – ainda mais em púlpito tão visto e acessado nessas nuvens cibernéticas – sobretudo porque neste honroso espaço não há censura opinativa nem sobrevive a subserviência dos conhecidos “chaleiras” de plantão, sempre a postos ao deleite de acariciar com mumunhas de consentimento os seus famigerados chefetes.
     
    E nestes tempos, amigos, dir-se-ia – ao lembrar-me de saudoso e incomparável escriba – nada mais atual que a velha e boa Monarquia que reina neste nosso Brasil desde os pródromos do Descobrimento, devidamente reforçada por ocasião do desembarque da Família Real e respectiva Corte Portuguesa por estas bandas, nos idos de 1808 – batendo carreira (!) de Napoleão, sabem os doutos.
     
    Em recente entrevista, herdeiros do Imperador Pedro II se alternaram em defender a volta da monarquia parlamentarista da época de seus nobilíssimos ancestrais, sob o argumento de que entre dez dos maiores países do mundo com maior taxa de desenvolvimento econômico-social, e veja-se, menor nível de corrupção, sete, isso mesmo, setenta por cento eram monarquias parlamentaristas – à semelhança daquela que oportunizou orgasmos múltiplos de Poder e fausto aos nossos ícones da História.
     
    À parte discussões doutrinárias e preferências gerais – começo a convencer-me que talvez realmente (sem trocadilho) tenhamos chegado à hora de trazermos de volta nossos reis, imperadores, príncipes, condes, duques e toda essa choldra que veio aboletada nas caravelas de Cabral para se “apojar nas tetas do Estado” – também no dizer de velho saudoso amigo e professor e colega de muitas lides forenses...
     
    É que, abstraída a forma e o sistema jurídico-constitucional vigentes, ratificados pelo Plebiscito de 1993 – nunca deixamos de ser uma monarquia, ou reinado, ou o que seja como se defina – desde que se mantenha essa rafameia disfarçada de nobreza, que vive deitada em sinecuras espetaculares e inacreditáveis (e que só existem neste país, como assevera um dos herdeiros reais na tal entrevista), se empanturrando de cargos vitalícios, eletivos, pensões, terças, soldos e montepios (é o novo!), alimentada por auxílios intemporais (absolutamente necessários e indispensáveis) para viver, morar, se vestir, comprar livros (sim, alguns sabem ler! Outros também sabem falar!), tomar banho de uísque azul, cuidar da saúde e (eita!) para praticar atividades físicas, sob a devida orientação de professor especializado em Educação Física.
     
    Enquanto isso...Bem, enquanto isso a plebe “que se exploda”, no bordão imortal de Chico Anysio, aboletada em ônibus lotados, favelas enlameadas e metralhadas, porões miseráveis, hospitais sucateados, sem escola, sem leito e leite, sem pão – desprovida de saúde e segurança, faminta de direitos fundamentais – e (ainda) assim há quem defenda à enérgica heresia, de modo enfático e reiterado (e isso é maior na própria turma do andar de baixo, analfabeta e ignara) – que se estabeleça a pena de morte e tome chumbo na tomada elétrica do povo, abandonado, sofrido, traído, roubado.
     
    Usam-se (mesmo) alguns eufemismos para se definir essa corja de canalhas emperobados: corruptos, ímprobos, apropriadores indébitos, enfim, toda uma saraivada de termos jurídicos empolados para proteger a Casta de oligarcas, coronéis, chefetes de bandidos, importados ou não – cuja maior e perfeita definição, suprema ironia, veio da cunha (?) do mui eminente ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal – que disse sem debique ou galhofa existir cá nestes rincões brasileiros, uma aristocracia insaciável, instalada e aferrada com gosto no Serviço Público – se empanturrando com altíssimos vencimentos e vantagens, e não somente de roubalheira, à custa das inesgotáveis burras populares – ou seja, dos nossos suados e caríssimos impostos, pagos sem um pio, uma panelada, um tremular de bandeira amarela...Uma passeata que seja....
     
    Vivamos e clamemos, pois, que se dê fim à República e toda a podridão que lhe é imanente e gritemos, a pulmões plenos, que tenhamos um Rei, um Imperador, um Príncipe, seja de que gênero for – para que possamos voltar a sonhar, porque de vida não se basta, mas no divagar encontramos o eterno...
     
    Avante – porque somente DEUS é grande.

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