Colunista Amaro Pinto

  • O ERMITÃO DA LADEIRA.

    06/06/2019

    Depois de ver ao longo dos anos o porfiar sucessivo de amigos partindo rumo aos inexoráveis caminhos eternos, sobretudos os fraternais de mesmo ventre, e aqueles escolhidos no desfiar da vida, fui-me dando a ares esquisitos de tempos antanhos, não sei se pela imensa falta dos que se foram, ou, direi – se pela abrupta consciência de que alguns ficantes não se definem e afeiçoam ao conceito atávico e rígido que tenho sobre o que seja de fato e efetivamente amizade, em largo e estreito sentidos – com a necessária venia (bom ressaltar) à meia mão verdadeira que sempre está presente, sob quaisquer circunstâncias e eras que sejam, pois.

    O fato é que, de década para cá, talvez um pouco mais, meus momentos juntos a queridos do peito e mente foram rareando das escrivaninhas profissionais, mesas e rodas de bebericos de café e deleites de Baco, para assomar às nuvens de pensamentos, esses em muito (nem tanto) sóbrios, outros ao mais (nem tanto, também) sob os efeitos de ventos bafejados do perfume e ressoar de saudade e baforadas, em noites adentro de mente solitária e alma cheia dessas ausências indenes. Ouvidos repletos de músicas eternas e lembranças ainda mais.

    E no labor diário forense, o fragor do exercício da advocacia ao lado de outros que eram mais do que muitos, leais companheiros dos quais não se temia a punhalada traiçoeira nas costas, desferida por safardanas soezes e vezeiros no vício da mentira e do engano, pústulas de alma envilecida, anões mentais e intelectuais desprovidos de sabor moral ou qualquer valor humano maior, de pleno dispostos à rasteira servidão e decrépita acolitagem, total servilismo de causar ascos em platelmintos ávidos e vorazes...

    E varei então ao entremeio do cotidiano mercê de Deus ofertado, à saciedade celestina, induvidoso é, entre clientes, petições, recursos, contestações, pesquisas, reuniões, viagens, contatos, sustentações, leituras – todos imersos em estudos profundos e silêncios lautos e (in) cautos, (robustos em destemor, prenhes de altivez fidalga, rascantes contra pérfidos desonestos maquiados em santos oleosos) - que cintilam pontiagudos ainda mais o deslizar dos olhos sobre as letras, ou à escrita flamejante dos dedos cálidos, ciscando álacres sobre teclados mágicos para transformar ideias em concretudes plenas, lançadas ao branco de cibernéticas telas impávidas.

    Nesse palmar, de horas matinais sonantes, à placidez dedicada de cantatas vespertinas, até o embrenhar das reflexivas odes temporais das noites amadas – eis que vendo com olhos fitos no manto que veste a abóbada acima dos olhos, postos nos cumes e ladeiras de (minha) casa; e janelas do (meu) Escritório vistos, dou-me a preferir arejar os estamentos mentais e os rebordos da alma à solitude de versos instantes, ingentes e bem-vindos, que destoar-me (tolo!) em meio à indigência mental de corroídos desafeitos e desavindos da lealdade, sem altura gentia – “vigee” – porque de se fartar sozinho todos nos bastamos, a cair em podridão de vastas e traiçoeiras elucubrações verbalizadas em amplexos putrefatos e prenhes de falsidade e medonha devassidão repulsivas.

    Dessarte, a maturidade traz algumas bondades e “boutades” inexpugnáveis que não podem nem devem de modo algum ser desprezadas, tal como se viver sabendo ser solitário, sem, no entanto incorrer em solidão, ou dar-se ao suave deleite de se deixar desacompanhar de odientas e pérfidas criaturas, paridas como flatos soltos e desavisados, em pulos e grunhidos sobre areias quentes, as quais (as ditas “criaturas”, será que é natural e factível chamá-las assim?) se permitem a capacidade de impor dores a seres de outrora, dando-se a moldar em detergentes da humanidade – essa tão massiva e insana como a vida de gado de que fala o poeta do povo em dolente e inesquecível canção.

    De bom grado, pois, caminhar sereno pelas toadas da vida, nos braços deitados de verdade e luz, sentindo no suave deslizar da brisa sobre o tempo, o brotar das claridades celestinas que não se apagam, nem se esvaem em si mesmas, crente em dar aos rebordos mais profundos e recônditos da alma, o espraiar de redes coloridas armadas nas paredes do coração, feitas em saudade(s) espalhadas, renovadas em atos diários de carne e espírito, eternos pelos condões dos altos céus, na esteira do aprendizado, conduto da certeza da finitude e sobretudo da fragilidade humana – porquanto é tudo o que somos, humanos – o mais é orgulho, arrogância e vaidade, sem falar em solerte estultice - venenos que antes destroem os potes áridos nos quais estão guardados.

    E se assim não for, que me dê à humildade de serena face, nas passadas ditas e ouvidas pelo deslizar das existências tantas, bem assim nas que hão de vir porque o eterno é um fletir de asas abertas em direção ao rumar do infinito e para além...

    Avante – porque somente DEUS é grande.

    Amaro Pinto.

  • "A VERTIGEM DO TEMPO PRESENTE"

    22/03/2019

    O título que encima essas mal-traçadas e (mui) bissextas linhas é um excerto metafórico de um brilhante texto do não menos magnífico professor e sociólogo professor português Boaventura de Sousa Santos – por meio do qual o douto lente analisa, com imanente proficiência, agudeza intelectual e desembaçada percepção da História da Humanidade – o quanto estamos perdidos em meio às nossas abissais diferenças, as quais, por sua vez, em sucedânea e pérfida contradição, produziram o mal maior das indiferenças que nos cercam, em cotidiano cada vez mais acirrado e odiento pelo maior deleite dos tolos: a ignorância.

    Deveras, no momento de hoje volvemos às eras prístinas de obscurantismos e crueldades e desprezo com tudo {o} que é alheio, seja em sentimentos, alma ou matéria, seja, sobretudo, na absoluta falta de respeito aos pensamentos diferentes dos nossos próprios entendimentos, crenças e preferências – ao desimporte total de ideologias, religiões (ou falta delas), opiniões e convicções pessoais – mormente.

    No meu silêncio de eremita, tamborilando dedos aos meus revoluteios mentais, e na condição de mero observador estupefato dessa barafunda em que se encontra o país, ainda mais a nação – saltei da minha rede espraiada no terraço arejado e pus minhas barbas de molho: neutralidade para mim, só combina em sabão e nada mais. Ao combate, pois. Soldado não precisa de generais, ainda mais quando são corruptos, frouxos, covardes, ingratos e desleais. Desnaturados, até – dir-se-á, pois.

    Nasci e cresci na convivência com os diferentes, sou irmão temporão de numerosa prole (metade hoje vivendo na placidez dos campos celestinos, mercê da sempre insondável e sábia vontade de Deus), e no curso dos meus parcos estudos e fecunda e prolífera prática de ininterrupta advocacia há 31 abençoados anos (circundado de tudo o que é por imanência, humano) – aprendi a amar a Dialética e o que ela tem, na minha opinião, de mais salutar: o gosto e amor respeitosos, lhanos e altivos pelo debate, o apego ao contraditório, à diferença de pensamentos e ideias, dia e noite, vida e morte, “raposeiros e galistas”, fonte da qual nasce a sabedoria – porquanto aquele que não se toma de dúvida é tolo e supõe na fátua estupidez de sua “certeza”, é, ainda que o diga de forma mais amena e menos chula, estulto. No mínimo, ao sabor

    de eufêmica habitualidade respeitosa. Metamorfose ambulante, como canta Raulzito, maluco mor de todas as belezas.

    Entretanto é dessa crença abominável e arraigada de que um só é senhor da verdade que adveio a abjeta ignorância que avassala os espíritos humanos em todo mundo e em sede particular, no país. Nunca vi tantos filósofos, cientistas, juristas, pensadores, intelectuais e formadores de opinião, “os cambaus”, como na “vertigem do tempo presente”.

    Estão proliferados em progressão geométrica por toda parte, nos cafés dos tempos ociosos, nos bares de ventos etílicos e também ociosos (esses mais aceitáveis, dado o tremeluzir mental produzido por artes de Baco ou de Dionísio). Por toda e qualquer parte estão, zurrando, e haja dejeções mentais e verbais, sem falar na escrita rude, ofensiva, grosseira, inimiga eterna das maravilhosas e perfumadas lições (elementares) da Gramática: saudade do Português (falado e escrito, educadamente) pelos advogados e professores da Língua de Camões, Eça, Machado e Augusto -, e os de cá da Campina dos tempos do sempre (José Assimário Pinto, Vital do Rêgo (pai), Fernando Porto e Jacques Milfont com os quais convivi, aprendi e trabalhei, eita – en passant), sem desprestígios de igual e sagrada memória a outros tantos de igual naipe e refinada cultura e sabiedade...

    Se toda essa gente de hoje, conviventes desses tempos de aragem seca, herética e odienta, estivesse banhada sob as luzes do conhecimento em sentido lato, também estrito, e sobretudo, respeitoso e cordial advinda dos luminares suso mencionados – teríamos então o paraíso das ideias, o fragor admirável e lenitivo dos entreveros mentais a produzir luzes à existência, própria e comum. Sóis, iluminai!

    Por lamento, não é isso que ocorre, eis que a ignorância, no dizer mui sábio do precitado professor lusitano, conseguiu a proeza de se dividir em, pelo menos numa tríade de solertes e iracundas vertentes (a) aqueles que tudo sabem e todo o mais é desprezível, (b) os que propagam serem os fatos históricos inexistentes, verbi gratia “a ditadura militar no Brasil de 1964 a 1985) e (c) os tais que se dedicam a proliferar extensa ignorância eructante sobre fatos e ideias sabidamente falsos, no terreiro adequado para esses sequazes e biltres da inteligência, as pútridas redes sociais e seu

    maior monstro, as “fake News”. Nada saber e saber que nada sabe é lição Socrática, há tempos imemoriais.

    Peçamos e roguemos, portanto e cada vez mais, por serenidade e respeito no trato de nossas diferenças, eis que são humanas e por isso mesmo falhas, antípodas e compreensíveis. Nenhum de nós jamais será melhor ou maior que o próximo. Não será o grito raivoso de um, ou a indiferença ominosa de outro, ambos de igual jaez que haverão de nos afastar e criar trincheiras instransponíveis.

    Firmemo-nos no respeito ao contraditório, porquanto o horizonte é infinito mas mora aqui e também está logo ali – onde nossos olhos veem e para onde andamos – eis que a eternidade não é um lugar, mas um caminho, destino natural de todos nós, desde e para sempre.

    Arre.

    Viva.

    Avante, porque somente Deus é grande.

    Amaro Pinto.

  • MARCA DA BURRICE

    08/10/2018

    A intolerância é a marca da burrice. Ignaros!

    Aprendi a conviver com a diferença - porque do contraditório é que nasce a sabedoria.

    De igual, conheci o respeito - por notória obviedade

    Mas algumas almas (se) supõem melhores que nós outros, pobres mortais que somos.

    Vão comer capim - porque não dá colesterol.

    Avante porque somente DEUS é grande.

  • A CANTIGA DO TEMPO.

    19/03/2018

    Meu querido Irmão, Assimário.

    Dizem que o maior fascínio da vida é o tempo, pois as suas aragens vão passando e nelas e por elas empreendemos essa admirável e insondável trajetória, que segue incógnita rumo ao infinito. Nascemos, e logo as maneirices da infância se vão tornando responsabilidades em busca do futuro, superando e abrindo caminhos a golpes de coragem e determinação, razão pela qual venho saudar, à refulgente luminosidade dos teus olhos – mercê de Deus – a tua merecida (e em tantos outros aspectos), gloriosa, aposentadoria.

    Consuma-se neste instante a consagração de uma vida de trabalho funcional marcada pelo talento, banhada pelos suaves perfume da honestidade, aos auspícios prazeirosos e exemplificativos da retidão e firmeza de caráter, próprios de quem conhece a grandeza, mãe dedicada e afetuosa de todos os teus dias.

    Firma-se, assim, o ápice desejado pelo compromisso de criar, educar e encaminhar a família, malgrado as intempéries, as tribulações, a dor da saudade eterna marcada pela partida abrupta e intemporal de um dos teus sonhos.

    Entrementes, houve também a alegria, e nesta, teus gritos e alaridos sempre estrugiram como o chamamento da concórdia, da felicidade, de paz.

    Embalde, ao soar da cantiga do tempo de todos os perenes dias, tenhamos sofrido a perda de sonhos comuns, da ascendência provecta, passando pela maturidade fecunda à incipiente juventude – restamos inteiros e assim o seremos até os albores da eternidade. E esta, pelos ingentes momentos vividos, já se houve por dar, tantos sãos os raios dardejantes de vitalidade, lançados ao porvir pela tua depurada moral e verticalidade pessoal, que continua e segue firme, incólume e fecunda na essência dos teus filhos.

    Para muitos, a generosidade nada mais é que a infinita capacidade de perdoar, dos menores e mais vis dramas imanentes e comuns ao cotidiano da humanidade – “Humanos, demasiado humanos, é o que somos, já dizia a filosofia de Nietsczhe”, aos maiores e mais intemperados e lancinantes desconfortos da Alma – como a ingratidão, tantas vezes lançadas a ti por quantos e tantos mais, mormente por mim, porquanto o que provém da humanidade não nos pode surpreender, na lição secular de Terêncio.

    E que não seja confundida esta volitiva crônica com o “pro domo meã” de um errante, a viajar ao sabor dos melhores e piores ventos, porque na “minha alma não há compartimentos estanques para os sonhos, sentimentos e emoções”, como bem diz Álvaro de Campos. Nem de igual a estas linhas se pode emprestar o condão da homenagem. Mais do que isso, é um ato de reconhecimento; seja belo bom filho, pai, irmão ou avô, que agracia a nossa vista, remetendo força às remadas rumo ao Horizonte, seja pelo profissional altivo, a cujo exemplo me dou por seguir.

    Como então suportar os pequenos - e os grandes dramas do cotidiano? De que maneira servir à alma rações diminutas, se a fome é insaciável, de vida, de amor, de conhecimento?

    Os grandes dramas – aqueles cuja dimensão e magnitude alcançam a própria essência do viver, como a injustiça, a desesperança, que é irmã da indiferença, a saudade e sua filha predileta e consectária, a solidão – são mais suportáveis e digeríveis ao Espírito, sobretudo pela inexistência de outro caminho que não seja seu enfrentamento, com a galhardia dos que sabem lutar.

    Mas, em voltando às pequenas agruras: como as podemos sentir sem antes morrermos somente pelo simples fato de existirem? As idiossincrasias, os desentendimentos, os amuos e contrariedades por minúsculas sensações, ah! Essas arrepiam e enraivecem as mais profundas e recônditas dimensões do Ser – embora seja a ira o alimento e o veneno dos tolos...

    Como dar-se importância ao somenos se é o mais que determina tudo, inclusive se vamos continuar ou não a existência. O apego às coisas diminutas é vivente nos nanicos de Alma e dos desprovidos do Pensamento, amantes sôfregos e infatigáveis dos parvos e da ignorância.

    Tudo isso passa ao largo – em distância imensurável – de todos os teus dias. Sabes compreender a natureza das coisas, praticas a moral com a prova de tua vida e honestidade, observas o mundo à luz da lógica e lucidez – na acepção clássica da Filosofia.

    E se alcanças esse momento culminante de um lado, de outro nasce aos palcos judiciários e rebrota com inigualável nitidez, o vigor da inteligência, da sólida cultura humanística – agora a desafiar os novos e bem-vindos dias adiante, nos quais a proficiência do notável advogado sobressai e prevalece contra toda tirania e mediocridade. Avante!

    Demais, “quanto mais claramente a inveja me perseguia tanto mais autoridade ela me proporcionava, de acordo com o dito do poeta: A inveja somente acomete o que é mais alto; os ventos sopram com violência contra os cumes mais altos” (Ovídio, De Remedio Amoris, I).

    Saúdo-te, pois, em vida, Graças a Deus, e que seja esta saudação remetida e extensiva em plenitude àqueles nossos eternos que não pude – ou não soube- saudar, relembrando, de novo, o canto de Ovídio:

    “Se procuras saber o resultado desta luta, eu não fui vencido por ele”(Metamorfose, XIIII, p.89/90).

    Seja feliz, meu Irmão, que a nossa vida começou agora!

    Do irmão.

    Amaro Gonzaga Pinto Filho, em 19 de dezembro de 2002.

  • A ERA DA INTOLERÂNCIA.

    07/11/2017

    De dois ou três lustros para cá os ventos no Mundo já não são os mesmos e essa mudança não somente advém dos humores físicos e da Natureza, mas da essência radical que forma o molde da alma humana através das noites abissais e incessantes do Tempo.

    Há uma coloração nova no ar e por lamento – parece traduzir fumos piores do que os de outrora, quando a Humanidade experimentou o ranger de dentes de dores terríveis, a espessura de perseguições implacáveis, o rumor insaciável de imposições brutais, os clamores em forma de gemidos que se faziam silentes, mas nunca surdos; de igual (vezes) ouvidos. O grito que para não nascer sozinho, se fazia companheiro de outros gritos, em solidária afeição feita pela dor, com o sentir nascente de quem já se sabia não estar mais solitário, aos humores da desumana indiferença, ou até sob a chibata do verdugo indomável.

    E aqui não se deitam letras de correntes das ciências sociais, ou opções políticas pessoais e coletivas transbordantes para além de dicotomias vermelhas, brancas ou azuis, por destinos e margens que vão pelo meio, direita e esquerda de tantos caminhos havidos e desavindos.

    Também não se pode em cálido instante cantar as vontades individuais, as ânsias próprias que nascem e fenecem com o humano – sobretudo porque nada há mais afeito ao humano que seus sabores tão iguais instantemente e tão diametral e amalgadamente diferentes: há beleza maior do que isso?

    Por que, afinal, somos tão iguais e diametrais, assim como os ventos matinais, os raios solares das manhãs, as brisas vespertinas de luzes brilhantes e macias, o sopro afetuoso noturno e seu tremeluzir de retinas, em busca do sono e sonhos? Por quê?

    Se somos água e terra una, barro e sopro só, fogo e ar, começo, meio e fim -  todos caminhantes à placidez candente da crepuscular irmã ali adiante que nos espera, ingente, inexorável, infensa e muda aos nossos gritos, clamores, crenças, rezas, orações, preces e apelos – esquálida de espada indiferente, desapegada aos nossos rotundos sentimentos, intolerante (isso sim) se temos em si imantada a ideia estúpida, deleite dos tolos e da ignorância, mãe de vã e impossível de existir (falsa) superioridade.

     Lá, na ponta do sapato, está o começo do futuro, o passo rumo ao bote final, o sepulcral silêncio desafeito a quaisquer emoções...E se depois houver novos caminhos, se assim houver, que já não sejam tão arrogantes e ensimesmados; que não se aferrem nos odores fétidos expelidos ao enxofre dos narizes empinados e tomara que se desapeguem do tilintar das moedas arrebatadas e dos perfumes acres, dos alaridos dissonantes de ternos ímprobos e gravatas polutas; e Oxalá se distanciem dos jalecos maculados pela cupidez e cobiça, se afaste das vozes pútridas, perdidas em seus revoluteios verbais, dos dedos caídos de tanto julgar, apontar, condenar...

    Aos semelhantes que antes e depois e ainda para sempre somos nós mesmos, às aspirações e sofrimentos deles que nos são todos, pelos direitos que nos fazem iguais sem necessidades de poderes humanos para ditá-los, aos nossos humanos atos tão cheios de virtudes e imperfeições – demos por inspirações divinais (mesmo) incréus – o beneplácito da tolerância, o beijo doce da esperança trazida em madrugadas companheiras, em horas abraçadas, por sorrisos feitos nos apegos da bondade, no perdão da fraterna similitude que teima em sorrir.

    Lá nos vamos, portanto, andando adiante ao sabor de laboriosas, celestinas e protegidas jornadas, sob o espargir de estrelas iridescentes, de luzes certas, confiantes na igualdade, crentes na fraternidade, pios na liberdade – eis que ao alfim, quando e se tudo de fato terminar, valerão os afagos ao alcance dos braços, o morar dos gestos a sentir, o calor dos afetos de tempos do sempre e nada mais – porquanto se a indiferença for então viver e dominar a nossa era – então nada, nem a dor, nem o amor, nem a (in)justiça em vida, nem o canto sozinho do vate erguido na esquina de toda existência comum, nem seus versos molhados de tanta alma terão valido a pena...

    Permitamo-nos saber que é na diferença que brota o crescimento, no contraditório que nasce a sabedoria e no respeito é que nos fazemos maiores e mais humanos – como assim já foi e também assim será. Sempre.

    Avante – porque somente DEUS é grande.

  • VIVA O REINADO, SALVE A SINECURA, ABAIXO A PLEBE.

    17/08/2017

    Ao retomar seu prestigiado Portal “A PALAVRA”, legenda viva do jornalismo paraibano, tive a honra de ser novamente agraciado com o convite do multimídia Marcos Marinho para refestelar-me na saudável, talentosa e mui nobre companhia de seu luzidio corpo de Colunistas – fato que para me é motivo de muito orgulho e extremada alegria – ainda mais em púlpito tão visto e acessado nessas nuvens cibernéticas – sobretudo porque neste honroso espaço não há censura opinativa nem sobrevive a subserviência dos conhecidos “chaleiras” de plantão, sempre a postos ao deleite de acariciar com mumunhas de consentimento os seus famigerados chefetes.
     
    E nestes tempos, amigos, dir-se-ia – ao lembrar-me de saudoso e incomparável escriba – nada mais atual que a velha e boa Monarquia que reina neste nosso Brasil desde os pródromos do Descobrimento, devidamente reforçada por ocasião do desembarque da Família Real e respectiva Corte Portuguesa por estas bandas, nos idos de 1808 – batendo carreira (!) de Napoleão, sabem os doutos.
     
    Em recente entrevista, herdeiros do Imperador Pedro II se alternaram em defender a volta da monarquia parlamentarista da época de seus nobilíssimos ancestrais, sob o argumento de que entre dez dos maiores países do mundo com maior taxa de desenvolvimento econômico-social, e veja-se, menor nível de corrupção, sete, isso mesmo, setenta por cento eram monarquias parlamentaristas – à semelhança daquela que oportunizou orgasmos múltiplos de Poder e fausto aos nossos ícones da História.
     
    À parte discussões doutrinárias e preferências gerais – começo a convencer-me que talvez realmente (sem trocadilho) tenhamos chegado à hora de trazermos de volta nossos reis, imperadores, príncipes, condes, duques e toda essa choldra que veio aboletada nas caravelas de Cabral para se “apojar nas tetas do Estado” – também no dizer de velho saudoso amigo e professor e colega de muitas lides forenses...
     
    É que, abstraída a forma e o sistema jurídico-constitucional vigentes, ratificados pelo Plebiscito de 1993 – nunca deixamos de ser uma monarquia, ou reinado, ou o que seja como se defina – desde que se mantenha essa rafameia disfarçada de nobreza, que vive deitada em sinecuras espetaculares e inacreditáveis (e que só existem neste país, como assevera um dos herdeiros reais na tal entrevista), se empanturrando de cargos vitalícios, eletivos, pensões, terças, soldos e montepios (é o novo!), alimentada por auxílios intemporais (absolutamente necessários e indispensáveis) para viver, morar, se vestir, comprar livros (sim, alguns sabem ler! Outros também sabem falar!), tomar banho de uísque azul, cuidar da saúde e (eita!) para praticar atividades físicas, sob a devida orientação de professor especializado em Educação Física.
     
    Enquanto isso...Bem, enquanto isso a plebe “que se exploda”, no bordão imortal de Chico Anysio, aboletada em ônibus lotados, favelas enlameadas e metralhadas, porões miseráveis, hospitais sucateados, sem escola, sem leito e leite, sem pão – desprovida de saúde e segurança, faminta de direitos fundamentais – e (ainda) assim há quem defenda à enérgica heresia, de modo enfático e reiterado (e isso é maior na própria turma do andar de baixo, analfabeta e ignara) – que se estabeleça a pena de morte e tome chumbo na tomada elétrica do povo, abandonado, sofrido, traído, roubado.
     
    Usam-se (mesmo) alguns eufemismos para se definir essa corja de canalhas emperobados: corruptos, ímprobos, apropriadores indébitos, enfim, toda uma saraivada de termos jurídicos empolados para proteger a Casta de oligarcas, coronéis, chefetes de bandidos, importados ou não – cuja maior e perfeita definição, suprema ironia, veio da cunha (?) do mui eminente ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal – que disse sem debique ou galhofa existir cá nestes rincões brasileiros, uma aristocracia insaciável, instalada e aferrada com gosto no Serviço Público – se empanturrando com altíssimos vencimentos e vantagens, e não somente de roubalheira, à custa das inesgotáveis burras populares – ou seja, dos nossos suados e caríssimos impostos, pagos sem um pio, uma panelada,