Colunista Valberto Jos

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Serto e trabalhou no Dirio da Borborema e Jornal da Paraba, colaborou na verso impressa d`A PALAVRA.

  • PROSA DE FREGUESIA (VI) - O segredo de seu Horcio

    19/11/2020

    Causou surpresa quando aquele senhor desconhecido desceu do carro, aproximou-se do balcão e pediu a encomenda de dona Candinha, cliente de muitos anos e que optara pela entrega domiciliar depois da confiança adquirida. Até então, na plenitude de sua exigência, preferia provir suas compras. Aliás, conferir a carne, pois seu gosto já sabíamos. Mantinha um balconista preferencial, o meu mano. “É para seu Patrício cortar”, recomendava sempre a quem atendia sua ligação.

    Fazia muitos anos que Dona Candinha nos dava a graça de sua fidelização; assim como admirávamos sua predileção por chã de fora ou coxão duro, ignorando a rigidez da peça. Nunca fora ao estabelecimento com o marido, razão da surpresa. Um dos colaboradores chegou a pensar que ela lidava com uma viuvez prematura ou um divórcio involuntário. Pensamento retorcido, malevolente; aquele senhor que buscou a encomenda era seu esposo.

    Seu Horácio, o marido de Dona Candinha, era o oposto da mulher, a partir do físico e da cor. Mais baixo do que ela, contraste mais visível ainda na sua pele morena em comparação à brancura enodoada da companheira. Um doce de pessoa. Conquistava logo pela voz. Mansa, aveludada, de um timbre diferenciado a traduzir todo carisma pessoal de seu Horácio, que doravante passou a nos agraciar com suas visitas, embora esporádicas.

    Mecânico industrial, viajava o Nordeste na prestação de seu disputado serviço, motivo de nunca ter comparecido antes. O tempo passou, até que a viuvez isolou seu Horácio. Ficou uns tempos sem nos prestigiar, certamente assimilando o golpe, até que certo dia chegou acompanhado da filha. Desde então, passou a frequentar nosso estabelecimento na matinal do domingo. Sempre os dois.

    Hoje, seu Horácio deve estar com 85 anos, mas dois anos atrás, poucos meses antes da loja baixar as portas de forma definitiva, a filha chega sozinha. “Ele foi ao Recife”, responde, após interrogada sobre o paradeiro paterno. Perguntei se ele foi acompanhado, com alguém dirigindo o carro e ela disse ter dúvidas, desconfiando, inclusive, que seu Horácio fora sozinho, enfrentando a intensidade do trânsito da capital pernambucana.

    Uma semana depois seu Horácio aparece sem a filha para fazer sua compras e eu puxo conversa sobre a viagem. Ele confirma ter ido sozinho, que até chamou alguém para acompanhá-lo. “Eu fui enterrar uma companheira de 30 anos. Vivi esse tempo com ela e Candinha nunca descobriu”, confessou, causando espanto. “Mulher que soube viver”, reconhece. Além da viuvez dupla, meses depois perdeu a filha em acidente doméstico.

  • PROSA DE FREGUESIA (V) - Incredulidade sobre duas rodas

    13/11/2020

    Um incentivo desperta para um sonho acordado. “Todo dia a gente tem dinheiro”, disse-me um lojista da panificação na minha primeira compra diária, objetivando prover as necessidades da refeição matinal, quando o meu comércio sequer era um projeto. Tantos anos depois desse alento, loja fechada, recordo suas palavras, acrescentando também ser a atividade comercial fonte de recuperação de semblantes, de sorrisos e de risos, quando perdidos nas preocupações dos compromissos assumidos.

    Não há profissional de venda que não recupere o ânimo e o semblante desanuviado ao avistar um cliente a caminho da loja. E quando ele chega bem-humorado... Artur foi desse tipo, fidelizando-nos a preferência até o fechamento definitivo. Com problemas de saúde, foi aconselhado a deixar de fumar e fazer atividades físicas. “Se caminhada fosse bom, carteiro não morria”, brincou, diante da obrigatoriedade proposta.

    Cícero, aposentado por acidente de trabalho, além do álcool, tinha no fumo um vício de todo minuto. A mulher do caixa ficava sem fôlego quando ele se aproximava para o pagamento da compra, reagindo abanando o rosto com as mãos, implorando certo distanciamento. “Ciço” nem estava aí. “Doutora, bote um ventilador”, aconselhava, na tranquilidade que a nicotina permite.

    - Comprei um terreno no condomínio, avisa Graça, sem que eu atentasse ser uma confissão a traduzir uma das acepções de seu nome. “Coisa boa, em qual deles? indago, divagando entre a surpresa e a satisfação com a conquista anunciada. “No cemitério”, repontou. “Mas não quero ir agora”, advertiu.

    Negociante de móveis usados, Neco queria adquirir um terreno encomendado pelo filho e foi conhecer o de nossa propriedade. “A dona dessa casa é minha cliente”, lembrou ao passarmos em frente de uma casa da rua. “Mas ela mudou de endereço”, disse-lhe. “Agora mora no São Judas Tadeu”, completei. “Em que bairro fica esse conjunto”. “No Cruzeiro”, alertei. “Mas ela está no céu”, balbuciou, franzindo a testa, entendendo ser o cemitério.

    Nascimento foi um consumidor que chegava na sua moto antiga, aos sábados ou domingos, sempre bem-humorado, não obstante sua voz grave e seu ar sério. Costumava citar causos e até confessar sua incredulidade, como na vez que chegou afirmando que” ninguém vai pro céu”. “Moro ao lado do cemitério e nunca vi ninguém subindo. Só vi descendo”, testemunha.

    VOTO BRANCO

    Nunca gostei de votar em branco ou anular o voto. Na eleição proporcional, se não escolher um candidato, opto por uma legenda; na eleição majoritária, se não me definir pelas propostas de um dos pretendentes ao cargo, escolho aquele que imagino ser o menos despreparado. Ou o menos ruim. Mas confesso que, a contragosto, uma vez já fiquei sem escolha. Por falta de opção mesmo. Ainda hoje me penitencio.

    VOTO NUL0

    Com certeza, essa consciência foi adquirida na plenitude de minha adolescência. Candidato à reeleição em 1974, discursando em comício na cidade de Patos, o então senador Rui Carneiro pedia o voto, orientando o eleitor nesse sentido. “Vote no adversário, mas não vote em branco nem anule o seu voto”, disse. Mesmo com esse discurso foi eleito, mas três anos depois veio a falecer.

  • PROSA DE FREGUESIA (IV) - Os clientes e seus candidatos

    05/11/2020

    Política e futebol são assuntos constantemente em pauta na casualidade dos encontros entre clientes em qualquer estabelecimento, de forma mais intensa quando das decisões ou em campanhas eleitorais. Há profissionais com habilidade para o clima, mas o melhor é o comerciário não se envolver e deixar que eles se digladiem nas discussões, brincadeiras e xingamentos.

    Nos meus tempos de comércio, tinha uma saída diplomática para o esporte, usada desde minha atuação como repórter da área. Meu time é Campina Grande, justificava. Na política, costumava alegar não ter candidato ainda, mas nos últimos anos optei por brincar dizendo que “meu candidato é o candidato do cliente”. Claro que os clientes não acreditavam.

    Esse artifício alimentava discussões entre os fregueses e até revelações de brincadeiras como a de Enivaldo, que foi comerciante de farmácia e meu freguês até mudar-se de bairro. Na companhia de um amigo chamado Asfora prestigiava os comícios de Enivaldo Ribeiro e Raymundo Asfora, em 76, para simulando candidatura. Quando o locutor gritava Enivaldo, ele levantava o braço, o mesmo fazendo o colega após o tribuno ser anunciado.

    Gesildo, amigo de muitos anos, costumava ver João Raia como cliente nosso. Certa campanha, em comício na Campos Sales, ele parou para ver Raia discursar. “Ele discursa dando sopapo com a voz”, definiu, diante da maneira do candidato falar, iniciando com a voz baixa, repentinamente subindo, rapidamente descendo, numa alteração certamente agravada pelo nervosismo do momento.

    Afonso Souto, irmão de uma cliente de meus tempos de Zé Pinheiro, é um candidato de muitas eleições, sem nunca lograr êxito. Este ano, mais uma vez, tenta. Em eleição anterior, dois clientes comentavam sobre política, quando um deles citou o xará de meu irmão destacando as sucessivas campanhas disputadas. “Sequer chega a suplente”, lamentou. “É Souto... os votos soltam-se dele”, completou o outro.

    Quando Ronaldo anunciou Cássio candidato para sucedê-lo, na década de 80, a gravação de A vida do Viajante por Gonzagão e Gonzaguinha ainda estava forte na memória do povo pelo sucesso que fez, mesmo sendo lançada sete anos antes. “É de pai pra filho. Feito Luiz Gonzaga”, disse o cliente quando atiçado a comentar.

    Talvez pelo sentido duplo do sobrenome, José Maranhão inspirou muitas tiradas de pessoas durante as compras, sempre de cunho malicioso. “Tem mais homens atrás de minha mulher que na carreata de Maranhão”, disse certo homem, comentando sobre os eventos de campanha.

    Numa conversa a dois, enquanto atendidos, um deles avistou uma amiga e comentou que ela gosta muito de Maranhão, o político. “E ela não tem marido não?” retrucou com certo cinismo no riso. Outro apimentou ainda mais a conversa ao avisar que não gosta de nenhum, ponderando: sou mais um Cunha Lima deitado do que um Maranhão em pé.

    Um cliente chegou em companhia de um homem desconhecido da loja, foi fazendo os pedidos e, mesmo sem ninguém perguntar, apresentou o companheiro. “É Cunhaaaado”, caprichou. “Muito prazer, cunhado”, disse o atendente, com certa surpresa. “Ele não é meu cunhado, ele é Cunha Lima”, explicou, rindo.

    Num bate-papo entre dois eleitores, um deles falava com ares exacerbados em reverência ao seu candidato. O outro, ferrenho adversário, caprichou no sufixo para denegrir sua imagem. “Aquilo é uma doença venérea”, irritando-o mais ainda.

    Na frente do nosso comércio, para um carro com fotos de quem tentava a reeleição e o motorista, detentor de cargo de confiança. No balcão, em atendimento, animada dupla da mesma preferência eleitoral o reconhece. “Esse come de lá”, comentou um deles, como que compreendendo a situação oposta do conhecido.

  • PROSA DE FREGUESIA (III) - Humor e ousadia no balco

    29/10/2020

    O risco de perda persegue incessantemente o profissional do comércio, pois passa anos buscando a fidelização do cliente sob a ameaça de perdê-lo em segundos. Quem lida comercialmente com o público deve ter o dom da comunicação, mas, paradoxalmente, tem que saber dosar as palavras, falar o necessário e, principalmente, conter-se nas brincadeiras.

    Como foi difícil eu me conter quando aquela mulher, que eu nunca tinha visto, colocou um pé no meio fio, deixou o outro apoiado no calçamento e, sem rodeio, gritou de lá: você tem peru aí? Ela não estava com brincadeiras. Rejeito, o peru desejado por ela, é o osso cujo tendão une o músculo da perna traseira e é parecido com a cabeça do peru, a ave.

    Admiro e gosto do cliente que tira brincadeira, sabe brincar e brinca com classe como aquela pernambucana que passou anos em São Paulo e há anos mora em solo campinense, misturando o sotaque nordestino e paulista. Vai pedindo, pedindo e o colega pergunta o que é mais. “Sem mais”, costuma responder. Certa ocasião ele insistiu, sugerindo outros produtos e o uso do cartão quando ela alegou que o dinheiro acabou. “Não, não. Não mordi minha mãe na passagem”.

    Também com classe falou sério outra que, ao sair com as compras, depara-se, na porta, com a amante do marido, recebendo um atrevido bom dia. “Você vive tomando injeção do meu marido e ainda fala comigo”, disse, na surpresa do encontro indesejado e logo saindo. Ao contrário, a outra olhou pra gente, abriu um sorriso debochado e, sem um mínimo de vergonha, testemunhou: “Ele é gostoso mesmo”

    A descontração era a marca daquela vizinha, já de certa idade, quando chegava à loja. “Eu quero um peito de frango bem grande. Do tamanho dos meus”, dizia, contagiando a todos na espontaneidade de seu riso bem humorado. “Tú pinicas pra mim”, costumava pedir outra da vizinhança para o atendente cortar sua mistura predileta, o frango.

    Antigamente era mais fácil trabalhar com açougue, pois o cliente era menos exigente. Hoje, ele quer tudo pronto, quase no ponto de comer. Mas poucos pedem por favor; o favor fica na sonoridade das palavras, a maioria das vezes pronunciadas com certa dose de humor, um humor grosseiro até, como da vez que um homem pediu, depois de pesado, fracionar o produto adquirido. “Passa a faca nesse frango aí, pois se não partir a mulher passa a semana sem deixar eu dar uma ‘facadinha’ nela”.

    Também tem aquelas pessoas que dizem as coisas sem estar brincando e sem pensar solta o que vem à boca, sem se atentar para o que falou. Foi o caso daquela freguesa de todo sábado, que comprava bem, enchendo duas sacolas de vários itens. Ela queria linguiça toscana, o estoque tinha zerado, mas que chegaria a qualquer momento. Deixando pra vir buscar depois, recebeu as sacolas e, apoiando uma em cada mão, falou: está tudo aqui, né, mas vou ficar pendurado na tua linguiça.

    Outra vez, ela chegou numa hora de pico, com muitos clientes à espera e não vi que um funcionário novato já agilizava suas compras. Ele entendia do ramo, mas conhecia pouco ou não conhecia o gosto do cliente, daí minha preocupação em atendê-la, quando disse: espere um pouco dona Carmita, que lhe atendo. “Não se preocupe, que Júnior já sabe mexer nas minhas carnes”.

    E o que dizer da ousadia daquela morena de ancas largas que, percebendo a vigilância distante, ao receber a mercadoria, não se conteve: não quero a carne, quero o dono da carne? Nada, que não entrei no jogo dela. Afinal, onde se ganha o pão não se come a carne.

  • PROSA DE FREGUESIA (II) - As aposentadorias de seu Romeu

    23/10/2020

    A tendência da rotina diária do comércio de bairros é transformar a relação de compra e venda em amizade. Se o cliente também for do comércio ou trabalhar na prestação de serviços, a reciprocidade dessa convivência tende a ser uma realidade. Foi o que aconteceu entre mim e Edmilson, barbeiro que por décadas pontuou na Rua Campos Sales e que mantinha fidelidade canina à loja do meu tio. Logo passei a ser seu cliente, principalmente pelo trato no meu bigode inesquecível.

    Edmilson foi o freguês mais paciente e calmo que eu conheci. Nem mesmo na contrariedade de suas compras ele se irritava. “Uma pessoa sair todo mês de João Pessoa para cortar o cabelo em Zé Pinheiro, é porque tem um diferencial nesse atendimento, nesse serviço”, exemplificou em curso, Geraldo do Sebrae, referindo-se a ele. Além do bom serviço, sua paciência e sua tranquilidade contribuíam na fidelização de sua freguesia, acredito.

    Saber brincar também era característica de Edmilson, como naquela vez que comprou mais do que o habitual. Ao encerrar o pedido, solicitou a conta, dirigindo-se ao caixa; depois pegou as sacolas, dividiu o peso entre as mãos e gracejou, com uma leve malícia na entonação da voz: rapaz, tu me alisaste. “Eu te alisei, mas te deixei de barriga cheia”, reagiu, no mesmo ton, quem o atendeu.

    Deda, outro cliente, já na nossa loja, começou a namorar a filha de um barbeiro. Já noivo, continuava fazendo as compras da casa paterna e certo dia, contrariando seu costume, ligou pedindo que reservasse suas encomendas. Ao vir buscar, apressou-se em justificar a demora por fazer a barba. “Por que você não foi para o sogro fazer”, indaguei. “E eu sou doido pra dar o meu pescoço a ele”, disse. Está casado há cerca de 20 anos.

    Certa vez, uns quatro consumidores, à espera do atendimento, conversavam animadamente e falavam sobre um comerciante das proximidades, que mantinha com regularidade um padrão de vida tipo classe média. “Não é aquele que nem fica rico nem fica pobre”, definiu Edson, pedreiro que gosta de beber todo dia, trabalhando ou não, depois de perguntado se o conhecia.

    Seu Romeu foi nosso cliente enquanto morou em Campina Grande e um rabo de saia o segurava na cidade, colega que conhecera na empresa aérea em que trabalhavam. Mulherengo incorrigível, percorreu este país a serviço e em todo lugar arranjava um chamego. “Gosto de avião”, dizia com duplo sentido. As dificuldades financeiras traduziam o número de pensões obrigado a pagar.

    Carioca, conservava o jeito malandro de sua naturalidade, com simpatia e de fala mansa. Um boa-vida, mas muito pagador. “Recebi uma carta do INPS e agora estou com duas aposentadorias”, falou, da calçada, interrompendo sua passagem pela rua. “Do umbigo pra cima por tempo de serviço, do umbigo pra baixo por invalidez”, completou, saindo ligeiro para continuar sua caminhada. Justamente um rabo de saia mais novo fez seu Romeu rumar para o Ceará e cortar nossa relação comercial.

    CHANCE

    A diretoria do Campinense agiu certo em efetivar Hélio Cabral como técnico nas disputas da Série D, pois ele vive o dia a dia do clube, além de ter experiência como atleta, preparador físico e treinador. Invicto em quatro jogos quando chamado a exercer a interinidade, dos quais em clássicos contra Botafogo e Treze, faz por merecer a chance. Resta esperar que ele bote o time no rumo certo. O da classificação.

    EMPREGADO

    Givanildo Sales, que dirigiu o rubro-negro até último sábado, não ficou muito tempo desempregado. Na terça-feira, ele assumiu o comando técnico do Freipaulistano, clube sergipano que também disputa a Série D e vive um momento delicado. Givanildo substitui Paulo Foiani, profissional que no passado também esteve na Raposa.

    APOSTA

    O Treze aposta num jovem atacante que tem o DNA promissor no futebol. É Marcelo Júnior, filho de Marcelinho Paraíba e neto de Pedrinho Cangula. Desde os 14 anos que o atleta estava no interior paulista e agora chega ao “PV” e vai trabalhar ao lado do pai, auxiliar técnico do clube. Por que não Marcelo Paraíba?

  • PROSA DE FREGUESIA (I) - Cliente, feito criana, diz cada uma

    15/10/2020

    O comércio é uma via de mão dupla, na qual ninguém conhece ninguém e que as vezes o choque é inevitável. Quem está dentro do balcão não conhece quem está fora, quem compra não sabe quem está atendendo. Quando fui estudar no Estadual da Prata, então com 17 anos, um ainda jovem professor de Educação Física era cliente do açougue familiar em que eu passei a trabalhar, no bairro de José Pinheiro.

    O tempo andou, montei meu próprio negócio e, já estabilizado, busquei aperfeiçoamento no curso de Técnicas Comerciais do Sebrae. Um dos facilitadores foi Geraldo Inácio, aquele professor de Educação Física de meus primeiros passos no Gigantão e que por tantos anos eu atendi na loja do meu tio. “Como esse cara avaliava o meu atendimento?”, cheguei a me perguntar.

    Ainda no meu comércio, um amigo da reserva do Exército e que costumava prosear longamente nas suas compras, comentou sobre um ex-comandante do 31º Batalhão e ficou surpreso quando lhe falei que não o conhecia. “Conhece, pois ele compra aqui e mora ali, no outro quarteirão”. Outros ficavam surpreendidos com a presença de Shaolim, nas suas compras, alguns poucos me perguntando “quem é esse tão parecido...”.

    Mas na contramão dessa via acontece o contrário. Adolescente, costumava fazer compras no Mercado Público de Patos e, na entrada, avistava um senhor muito sério (nunca cheguei a conversar com ele), sempre arrumando as peças de sua loja ou atendendo alguém. Fiquei incrédulo ao saber, tempos depois, ser Batista Leitão, apresentador do engraçadíssimo Forró do Pé Rapado, na Rádio Espinharas.

    Certa vez, um conhecido veio me perguntar se aquele cara que ficava numa de loja de plásticos e material para sapateiros, nas proximidades da Feirinha de Frutas, era Paulo Roberto, o narrador esportivo e apresentador de programas televisivos. Quem não se surpreendia em assistir Polion Araújo apresentando o jornalístico da noite da TV Paraíba e no outro dia vê-lo dando expediente no seu caldo de cana?

    Ainda quando trabalhava no “Zepa”, fui vítima da arrogância de um conhecido advogado, mais famoso pela ancestralidade do que pela profissão. Ele, de família política com raízes caririzeiras e cujo significado “é o que se regozija”, “que se alegra” e “alegria interior”. A aspereza da reação, no exemplo a seguir, não corresponde, com certeza, à tradução da palavra que atesta sua familiaridade.

    Um sábado, dia de maior movimento em loja dessa especialidade, grande quantidade de clientes à espera de atendimento, até que chega sua vez. Fui eu o felizardo - talvez até pela estratégia dos colegas, pois a turma fugia dele - a atendê-lo.

    - Bom dia, seu fulano, pode dizer. “Fulano, não. Doutor fulano. Sou advogado, formado há mais de 30 anos.”, reagiu, por certo traído pela surdez que subtraiu o “seu” por mim pronunciado. Prontamente, dentro da máxima “ouvido de mercador” e sem absorver o golpe verbal, disse-lhe: pois não, doutor. Pode dizer o que é que o doutor quer.

    Pudera, o homem vivia cercado de poderes. Um irmão senador, outro deputado federal, sobrinho deputado, além de agregados na política. Ele, por insensibilidade natural, não poderia imaginar que por traz daquele balcão, procurando atendê-lo na melhor forma possível, estava um jornalista. Ainda nos primeiros anos, imaturo, portanto, mas que, embora atuando numa área diferente, se quisesse, colocaria umas notas contra os seus na principal coluna do jornal. Afinal, qual político não temia uma “binoculada”?

    PROMESSA

    Em 2006, minha mulher acompanhou uma irmã que fora fazer uma delicada cirurgia em São Paulo. “O tempo que você passar lá, eu não bebo”, garanti, numa época que eu bebia todo dia, mas não o dia todo. Apenas três doses para o almoço. Promessa cumprida. Foram cerca de 20 dias de Lei Seca, quando essa lei não havia sido implantada.

    DÚVIDA

    Claro que eu tinha que comentar essa indisposição etílica com os clientes, principalmente aqueles que gostam de uma boa cachaça, exemplo do amigo Eronaldo. “Eron, Margarida foi a São Paulo e eu lhe disse que o tempo que ela passar lá eu não bebo”, contei. “E você aguenta?”, duvidou. “Claro. Só bebo quando quero”, frisei. Ele permaneceu calado por alguns instantes, meio incrédulo, e disparou: então, se ela quiser que você deixe de beber, fique em São Paulo.

    MEMÓRIA

    Inicio com a coluna desta semana uma série enfocando o lado engraçado, folclórico e filosófico até de minha convivência comercial e de colegas com os clientes. Foram mais de 40 anos de labuta diária no comércio. Espero que a memória colabore para que eu possa relatar os melhores causos, como diria Boldrin.

  • APELIDOS NO FUTEBOL

    09/10/2020

    A Covid 19, que tanto estrago tem feito na vida humana, também traz surpresas agradáveis, agora beneficiando o futebol, quando sua ação pandêmica obriga o clube afetado a ampliar as chances a todos os jogadores do elenco, até ao nível da base. A ponto de um quarto goleiro, jovem e sem experiência, ser alçado repentinamente à condição de titular e ameaçar a titularidade de um experiente, intocável, e de atuação internacional do quilate de Diego Alves.

    Ao mesmo tempo, a súbita ascensão de Hugo ao gol do Flamengo amplia a discussão em território nacional sobre o uso ou não de apelidos no futebol, hoje em extinção no Brasil pela força do marketing, da profissionalização e até da seriedade, conforme reportagem do Uol. Apelidado Neneca desde criança, o arqueiro chegou à Seleção de base do Brasil com o nome de Hugo e agora, no rubro-negro, acrescentaram o Souza. Ainda bem que parte da mídia insiste em Hugo Neneca.

    Imagine Edson Nascimento, o Rei do Futebol, ou Manoel dos Santos, nosso mais famoso ponta-direita. Rei Pelé, soa melhor; Garrincha, o Anjo da Pernas Tortas, tem uma sonoridade poética. Ninguém conhece Marcos Evangelista e Carlos Verri, mas se falar Cafu e Dunga, todo torcedor liga os nomes à história do futebol. Zico me parece uma exceção, pois boa parte da torcida rubro-negra sabia relacionar Artur Antunes Coimbra ao apelido que por ter quatro letras, feito o de Pelé, acreditava-se dar sorte à Seleção. Pura superstição.

    Na atualidade, além da tentativa de eliminar os apelidos, insistem na utilização de nomes compostos, como no exemplo do goleiro, e aí surgem Roberto Firmino, Mateus Cunha, Tiago Maia, Bruno Henrique, etc. Até Neimar, na transferência para o futebol europeu, passou a ser Neimar Junior. Antes, a duplicidade de nomes no futebol vinha com o apelido que definia a característica do jogador, a exemplo de Roberto Dinamite, grande artilheiro vascaíno.

    Sou a favor da manutenção do apelido do jogador, pois é uma característica do futebol brasileiro; igualmente concordo que certos apelidos com sonoridade desagradável, feia, não devem ser usados. Também acredito que o uso contínuo de alguns apelidos feios pode torná-los agradáveis, isso se o atleta for bom mesmo. Alexandre Pato e Paulo Henrique Ganso, os exemplos. Pegou de tal maneira que se escalar Alexandre e Paulo Henrique, vão indagar se são contratações novas no elenco.

    Ainda bem que há resistência na abolição de apelidos no futebol brasileiro. O jogador Dentinho, ex-Corinthians, por ordem expressa de um técnico da época, passou a usar o composto Bruno Bonfim, mas quando o comandante saiu, logo voltou a usar o apelido. Hoje é Dentinho até na Ucrânia. PV, o nome de Pedro Vitor Gualberto de Assis Barreto, zagueiro do Santo André-SP foi orientado pela diretoria a ser Pedro Gualberto, mas recusou a sugestão e continua PV. E ponto final.

    SEM ALCUNHA

    Lembrei-me de pelo menos dois jogadores paraibanos que não adotaram, na profissionalização do futebol, os apelidos de infância. Os laterais Edvaldo Morais e Agra, atletas do chamado time de Zé Pinheiro do Campinense, na década de 70. O primeiro, era conhecido como Peba; o segundo, Coca. O lateral-direito só tornou o nome composto após a chegada de Edvaldo Araújo anos depois.

    PARA-RAIO

    A Raposa foi lançada por terra por um Guarani e quando enfrentou a Floresta ainda estava tonta. Agora, terá que desbravar os sertões e encarar o Trovão, na esperança de que um raio não parta seus planos de classificação na Série D. Em Cajazeiras, neste domingo, terá que usar um para-raios para neutralizar o pipoco do Trovão.

    TRABALHO

    Muito elegante a atitude do técnico do Treze, Marcio Fernandes, em enaltecer, após os primeiros resultados positivos da equipe na Série C, o trabalho de seu antecessor, Moacir Júnior. Coisa rara. Disse que apenas deu sequência ao que o antigo profissional realizou no ‘PV’. Pelo sim, pelo não, não se deve subestimar um campeão.

  • Campina Grande sem limites

    02/10/2020

    Talvez por coerência ao Grande do seu nome, Campina é uma cidade sem limites. O seu crescimento territorial por décadas impõe-lhe uma delimitação cega que deixa taxista confuso e perdido o maior conhecedor de suas ruas, becos e avenidas. Morador da Rainha da Borborema por 57 dos meus 62 anos – cinco da adolescência vividos no sertão -, confesso encontrar muitos locais da cidade que não sei onde estou. Se ainda é bairro X ou se já bairro Y.

    Aposto que se colocar em concurso ou em prova colegial um quesito perguntando onde fica o bairro Santa Cruz, o nível de reprovação será assustador. A grande maioria não saberá nem que ele existe e os poucos que tomam conhecimento não saberão demarcar suas fronteiras. Esse bairro foi criado ainda na minha infância depois da construção da igreja que lhe inspirou a denominação.

    Sua área territorial abrange parte do Cruzeiro, após a divisão que o criou, e tem início justamente no hoje Colégio Panorama, estendendo-se ao Condomínio Nenzinha Cunha Lima, em terreno que foi do meu avô paterno, até a ponte do riacho Bodocongó, margeando-o no sentido Três Irmães.

    Não obstante conhecer um pouco de sua história, tenho muitas dúvidas ainda sobre o bairro de minhas travessuras infantis. O cemitério conhecido como do Cruzeiro faz parte de qual deles, a porção urbana da Avenida Dinamérica sentido Malvinas já é bairro ou ainda é terra de Santa Cruz?

    Observando-se os demais aglomerados habitacionais campinenses, o problema tende a se generalizar. Imaginava, por exemplo, que o bairro Itararé é separado do Catolé pela Avenida Argemiro de Figueredo. Mas, não. Já me disseram que o Itararé atravessa essa BR urbana e encontra limitações em parte da Vigário Calixto, avistando-se o “Amigão”. Áreas territoriais do Alto Branco e Jardim Tavares (é bairro?) igualmente confundem muita gente. Que local termina o tradicional, onde começa o loteado? Qual a divisa entre Prata e Bela Vista?

    Quando passamos a falar de ruas e avenidas, também deparamos com grandes interrogações. No mês passado, fui convocado a buscar uma encomenda na Rua Fernandes Vieira. Fiquei surpreso e incrédulo quando me disseram ficar no bairro do Mirante, com referência edifício em frente ao Condomínio Alphaville. Desde adolescente tinha conhecimento que essa via começa no término da Paulo de Frontin, atravessa a Campos Sales, segue ao lado do Hospital DR. Edgley e acaba na Pedro da Costa Agra. Por ser mais perto, fui pelo Mirante, mas fiz questão de voltar pela Fernandes e conhecer o trecho que fica no elitizado bairro. Firmei ideia ser esse trecho merecedor de outra denominação.

    A Rua Francisco Ernesto do Rego é outra que faz o cabra endoidar. No princípio é Paulistano, desvia no bairro(?) Rosa Cruz e finaliza no Cruzeiro, na Av. Juscelino Kubitscheck. No Rosa Cruz, esse logradouro esbarra na Rua Augusto Borborema, pula à direita uns 30m e segue sediando o Centro de Madeira, atravessando a Ana Vilar, entre outras, até mais um leve desvio, agora à esquerda, para findar na JK. Acho mais lógico ela terminar na Augusto e na sequência ter outro nome, assim como o trecho, após levemente desviado, para acabar na Juscelino.

    O contrário acontece com uma via que tem base na Av. Assis Chateaubriand e finda na Juscelino, batizada com dois nomes. No começo é Pedro Otávio de Farias e após atravessar a Manoel Leonardo Gomes, homenageia Gasparino Barreto. Como não é tão alongada, poderia ter apena uma nomenclatura; qualquer desses nomes, arrisco sugerir. O outro poderia substituir Ernesto a partir da Augusto Borborema.

    As associações de moradores de bairros ou as tradicionais SAB’s (Sociedade de Amigos de Bairro) poderiam realizar estudos para dissipar essas dúvidas. A do Jardim 40, por exemplo, fez um paciente trabalho junto aos órgãos municipais e transformou um simples loteamento em bairro, com direito a mapa e tudo. Depois de muita luta.

    Acredito que essa abordagem deve servir como tema do próximo período legislativo da Câmara Municipal campinense. Fica a dica. Enquanto isso, bem que Vicente e Lourdinha, amigos e vizinhos de familiares meus, poderiam colocar uma placa despretensiosa na esquina do colégio com os dizeres: Limites dos bairros Cruzeiro e Santa Cruz.

    PENSAMENTOS

    Admiro muito pessoas criativas, inspiradas. O meu amigo pastor Marcos Dias Novo, ex-colega dos tempos de colégio, é dessas. Antes, no nosso grupo, ele postava versos de cordéis com temas sobre o sono e Deus. Deu uma pausa. Agora, ele nos brinda com o quadro “Penso que os poetas pensam assim”. Com pensamentos realistas.

    EXPERIÊNCIA


    Nos últimos, reuniu beleza e realidade. “Penso que os poetas pensam assim: o melhor professor da vida é a experiência. Ela cobra caro, mas explica bem”. Como não sou poeta, em que pese alguns lampejos juvenis, discordo. A experiencia não cobra, ela é dura. “Algumas pessoas são como a cana de açúcar: mesmo sob pressão, mesmo sob tortura, ainda assim fazem o bem, ainda destilam doçura”, pensa. Gosto do destilado...

  • Sobrinha tridimensional

    24/09/2020

    Nossa Senhora foi agraciada com o título de Mãe Três Vezes Admirável quando um grupo de jovens de uma Congregação Mariana cantava uma Litania, na Alemanha do século 17, chamando-a Maria Mãe Admirável e um padre jesuíta pediu que repetisse o refrão em trilogia. Desde então, esses jovens passaram a usar o estribilho na regularidade sugerida.

    Em 1915, outro padre, inspirado pelo verso recorrente do agrupamento juvenil, conferiu a Maria a definição das três dimensões de Ser Admirável. Mãe de Deus, Mãe do Redentor, Mãe dos Remidos, eis a beleza das atribuições.

    Nossa mana D‘Aguia afirma que ao pensar em Aline, uma das várias sobrinhas que temos, enxerga a imagem de Nossa Senhora. Pelo zelo e cuidado que tem pelo próximo, pela fé demonstrada, pela dedicação religiosa, acho. Eu, na minha pequenez terrestre, acrescento mais: ela é três vezes admirável, sem querer compará-la a Maria.

    Essa admiração tridimensional encontra justificativa plausível e nossa família há de concordar. Pois Aline cuida, com zelo exemplar, de três pessoas especiais na sua e na nossa vida; cuidado raro na juventude de hoje, vale lembrar.

    Como vejo essa menina três vezes admirável! Admiro quando a vejo preocupada com a saúde do pai, nos cuidados de sua alimentação, horário de refeição, etc.; admiro quando sei de sua dedicação à minha irmã Aurora, que teve a felicidade de carregá-la no ventre, e principalmente sua preocupação com a larga jornada de trabalho que ela enfrenta sem reclamar.

    Faço questão de conferir a Aline uma terceira dimensão até como forma de gratidão. Sou muito grato pelo tratamento diferenciado que ela dispensa à minha mãe. Como ela cuida bem dessa avó! Cuidadora do pai, cuidadora da mãe e cuidadora da avó, resume-se.

    Sinto-me retribuído quando observo essa sobrinha no cuidado esmerado com minha mãe, uma recompensa que nunca busquei. Justamente pelo que fiz por Mãe Sinhá, a minha avó materna, a bisa de Aline, que nos alegrou com um centenário bem comemorado, bem agradecido.

    Diante do que ela faz por Dona Cleonice, a minha mãe, sinto que fiz tão pouco por Sinhá. Mas me conformo, pois reconheço que a habilidade, o cuidado e o zelo femininos são diferentes. Neles, há sempre algo maternal, angelical, divino...

    Ao observarmos o significado do seu nome, parece uma premonição paterno/maternal quando a batizaram de Aline. Protetora nobre ou reluzente. Quanta nobreza na sua proteção desmedida! E quanta luz nos remete na imensidão de sua fé, na intensidade de sua religiosidade.

    INSENSIBILIDADE

    Li o texto “A humanidade é o mundo todo”, do professor e jurista Francisco Leite, publicado no MaisPB, comentando sua primeira experiência na cidade de São Paulo como visitante, e o enviei para o amigo Jurandy França, também advogado e paraibano que há quase 40 anos mora lá. Ficou tocado. “É impressionante a visão de alguém que não vive no meio. Tudo isso que ele falou eu vejo todo dia, mas o costume de você estar enxergando essas coisas a cada volta pelo meio te deixa um pouco insensível. Insensível no sentido de não perceber o que se passa em seu redor”, reconheceu.

    VISÃO CEGA

    “Tudo que ele fala aí - da riqueza da Paulista, do mercado, na miséria que viu nos becos da Avenida São João com Ipiranga... Ele viu uma pequena parcela, porque se ele estendesse mais a caminhada até proximidades da Estação da Luz, Cracolândia, essa região da Rua Aurora, a boca do lixo mesmo, acho que ele não teria nem coragem de entrar lá. Gostei muito do texto dele e me alertou pra isso: ele ter percebido tanta coisa que eu vejo todos os dias e não consigo enxergar. É impressionante!”, completou

  • Fora Estranha

    18/09/2020

    Não, não consigo esquecer. Tem sido em vão qualquer tentativa de olvidamento. Por mais que eu tente, por mais que eu queira, há sempre uma força estranha a recordar e, ao mesmo tempo, suavizando o impacto daquela fatídica noite de 19 de setembro, no quase limiar da primavera de 2013. Como na canção de Caetano, eu vi a mulher preparando esse menino. Eu vi esse menino brincando como se grande fosse e o vi grande distraindo-se como se menino fosse. Vi grande esse menino despedindo-se, despedindo-se, despedindo-se...

    No desespero da despedida iminente eu me lembrei daquela barriga! Foi recordando aquela barriga que essa força foi crescendo, crescendo e eu deixando que me dominasse, que me encantasse, que me possuísse. Ah! Essa força enviada chegou pela religiosidade de minha irmã Anete, depois da oração a três, e logo equilibrou a mãe do menino. O pai, movido por essa força, cantando, cantando, cantando... aquela música que ainda hoje lhe umidifica os olhos.

    Foi cantarolando insistentemente “Eu Confesso”, como a rogar perdão pelos pecados cometidos, da manhã seguinte da tragédia daquela quinta-feira, até a noite de domingo quando da missa mais importante que eu, o pai do menino, suportei os primeiros três dias dos mais de 30 de sua internação. A mãe do menino, seus irmãos e pessoas próximas já não suportavam a agonia do cantar repetido e desafinado. No Ato Penitencial da celebração, coincidentemente, a canção suplicante foi essa autoria de André Zamur.

    Ao ouvir “Eu Confesso” naquela missa, um sinal de que essa “força estranha” gritando dentro de mim estava agindo e obstando a despedida anunciada me invadiu a alma. “Deus está me ouvindo”, refleti. Então, sem receio, “eu pus os pés no riacho” e imergi pelas “águas mais profundas”. Uma calma inexplicável apossou-se de todo meu ser e nesse mergulho de fé, retornei à superfície com o filho resgatado, são e salvo. E sem sequelas.

    Embora a voz denunciasse minha apreensão com a gravidade da situação, passei a sentir, depois da melodia escutada, uma serenidade divina me conter e uma confiança sem limite na reversão milagrosa. As notícias não animavam. “Mãe, a senhora tem fé”, disse o médico, numa das visitas de Margarida. “Tenho, doutor, o médico dos médicos vai salvar meu filho”, confiou. “Eu aposto na sua fé e na juventude dele”, alentou.

    Eu, na minha covardia paterna, só o visitei com 10 dias de internação, dos 17 passados na UTI. Quis me desanimar um pouco, mas a lembrança daquela barriga me conservou imerso. Deveras, a situação era preocupante. A moto destroçada e o traumatismo craniano a exigir duas cirurgias. De modo que uma consolação me dominou a alma quando informado de que saíra do CTI, justo no dia do aniversário do irmão.

    Devo repetir que não consigo esquecer daquela noite, mas lembro de uma maneira diferente, leve e agradecida pela graça alcançada. Como no dia que fui buscá-lo no hospital, após receber alta. Abri o portão, deixei todos entrarem e, na espontaneidade do momento, percorri de joelho pela casa, da calçada até o quarto, e o reencontrei na nossa cama. Renascido para nós, renascido para a vida.

    LEGADO

    Já que falei no filho, vou recordar o pai. Se vivo estivesse – há 13 anos que partiu, meu pai faria 86 anos no dia 21 deste mês. Além do exemplo de fé que nos deixou, o legado de Zé Patrício tem a base da honestidade, da responsabilidade e do trabalho.

    CONSELHO


    Numa dedicatória em livro que ganhara de uma filha e que depois me repassou ao se julgar não ser digno de possuí-lo, um conselho: De Maria do Socorro para José, de José para Valberto. Assim deve caminhar a humanidade. Se queres continuar andando, faze o mesmo.

  • MULHER AVIO

    11/09/2020

    O rosto meio basto era realçado pelo brilho dos olhos escuros e pela meiguice da fala, que a tornava ainda mais afável. A leveza do estrabismo conferia-lhe uma certa sensualidade e o corpo robusto, embora definido nas maquinas de academia, parecia estar em assimetria com a estatura mediana. “Uma gordinha sex”, diria ex-colega de redação. Tinha uma beleza discreta, mas nada que pudesse ser uma mulher avião. Não obstante, era uma mulher avião.

    Conheci Lídice quando viajei a Porto Velho, há nove anos, junto com um irmão e um sobrinho, na ansiedade de visitar duas manas lá residentes. Vizinha de uma delas, logo no dia da chegada fomos apresentados a ela. A rua em que moram era sem saída – um muro divisor no final impôs a necessidade de entrada e saída únicas - na extensão de um quarteirão de 300 metros e a largura comportava um carro estacionado em cada lado, permitindo um trânsito desafogado até pra carro grande.

    Durante nossa permanência de oito dias na cidade, nós visitantes e os de casa costumávamos ficar no terraço horas antes do almoço e também no início da noite após a caminhada recomendada pela medicina. Na maioria das vezes, nós, marmanjos, aproveitávamos o tempo de espera para um drinque, principalmente no período matinal. Foi nesse meio-tempo que comecei a observar a vizinha chegar no Corsa Sedan, transitar pela rua e colocá-lo na garagem.

    Moradora do lado esquerdo da via, ela vinha na sua mão e nada a impedia, além da presumível falta de segurança, de entrar de primeira no local de guardar o veículo. Lídice optava, todas as vezes, seguir até o final da rua e próximo ao muro limite, fazer a manobra e voltar na contramão. Só, então, direcionava o carro para a garagem. Lembrava uma aeronave taxiando na pista após o pouso.

    - Essa tua vizinha é um avião. Foi o que eu disse ao meu cunhado, que reagiu parecendo me xingar, mudo, com o seu olhar interrogativo. – Não é o que você certamente está pensando. Ele riu, desviando o olhar para a cachaça que levei como presente.

    - É que ela chega dirigindo o carro, vai até o final da rua, manobra e retorna para poder entrar na garagem, feito o avião taxiando na pista quando pousa. Ele riu novamente, abasteceu os copos, quando, então, nós os fizemos decolar da mesa, atingir o “voo de cruzeiro”, aí sentimos o aroma paraibano da bebida, e os pousamos levemente nos lábios e degustamos o líquido derramado na pista da nossa língua. Sem taxiar.

    KARINA ARAUJO

    A Covid 19 tira de nosso convívio mais outro colega que tive a felicidade de uma convivência profissional – o primeiro foi Gomes Silva, companheiro no DB e depois no Jornal da Paraíba. Agora, leva Karina Araújo, com quem trabalhei no JP. Calma e dedicada ao trabalho, tinha no sorriso acolhedor sua marca registrada. Também uma história de vida escondida nesse sorriso.

    SEM NOTICIAS

    Desde que saí do Jornal da Paraíba, em janeiro de 2002, que não via Karina. Até que cerca de dois anos atrás ela chega no nosso comércio e, o me ver, abre o sorriso e diz estar morando perto. Depois que fechamos a loja, não mais a encontrei nem tive notícias. Por isso a surpresa de sua partida “fora do combinado”, no dizer caipira de Rolando Boldrin.

    SEM A DUPLA


    O preço do arroz disparou e faz a maioria da mesa do brasileiro ficar sem a dobradinha feijão com arroz. Nesse arrazoado de justificativas para o aumento, o pobre ainda pode comprar a dobradinha (vísceras bovinas) para o feijão. Enquanto o preço do legume não dobra.

  • VISITA

    03/09/2020

    Esta manhã tive uma visita em minha casa. Chegou sem me avisar, passou pela sala e com a intimidade de gente da família, sentou-se na cadeira televisiva do meu quarto, deixando-me à vontade. Sequer exigiu que me levantasse da cama. Conversou bastante, esquivando-se de sua característica precípua, a timidez. Nem liguei que o encontro se transformasse em monólogo. Foi extremamente satisfatório, pois falou de sua vida e contou coisas que eu nem sabia.

    A visita permaneceu apenas 30 minutos, mas me propiciou um domingo mais feliz, embora nostálgico. Uma nostalgia boa, diria. Como ele rememorou fatos de nossa juventude reservada e de minhas paixões esquecidas porque foram só paixões. Iniciou o monólogo falando de seus Sonhos, continuou relembrando de seu tempo Sozinho e terminou externando toda felicidade de ter encontrado sua Alma Gêmea.

    Antes, porém, com certo ar aliviado, discorreu sobre as consequências de sua reconhecida timidez, aparentemente agora superada. Deixou explícito que ela prejudicou excessivamente sua consagrada carreira. A ponto de, no auge, não conceder entrevista diante de plateia, motivo pelo qual optou mais em produzir. Como produziu! E como sua criação sentimental contribuiu muito para o sucesso de muitos.

    O pouco tempo que passou comigo me embriagou de tal maneira que sequer tomei o costumeiro trago dominical. Foi o bastante para que os meus olhos, no silêncio da minha solidão momentânea e optativa, marejassem. Um marejar diferente, como há muito eles não marejavam. Sem a tristeza de antigamente, sem a angústia de então e sem a ansiedade do passado. Meus olhos marejaram pela emoção do encontro inesperado.

    Sim, ele veio me visitar pela diversidade musical de outro ilustre artista, que todo domingo tem cadeira cativa em minha sala. Hoje, Rolando Boldrin, o Sr. Brasil, trouxe o cantor e compositor Peninha em minha casa. Só que, peço perdão, não o apresentei aos meus filhos e nem à minha Alma Gêmea. Preferi, talvez por Sonhos, Que Pena, ouvi-lo Sozinho.

    COM MUDANÇAS

    Formulei esse texto no dia 10/11/2019, após assistir ao programa SR. Brasil, que teve a presença de Peninha. Alguns amigos meus e familiares que leram, pediram para eu publicar neste espaço. É o que faço, com as necessárias mudanças.

    SEM REPOUSO

    Feito Augusto na desventura do seu Gozo Insatisfeito, passei 43 anos de minha vida “sem um domingo ao menos de repouso”. Certamente mais aliviado, pois, também, sem o desespero de buscar trabalho, sem a ansiedade de saciar um gozo, sem a necessidade de achar conforto. Tudo era bom nessa mocidade vazia... Hoje, tantos anos depois, talvez sinta saudade dessa juventude diferente, embora ainda sofra as consequências de uma clandestinidade laboral.

    SEM RUMO

    De modo que fiquei meio sem rumo nas manhãs dominicais quando fechei o meu comércio e passei a ter esse turno livre. Até que certo dia, abusando do controle de TV, encontrei dois programas bem ao meu gosto musical. Cantos e Cantos, na TV Correio, com Ton Oliveira, e SR. Brasil, na TV Itararé, com Rolando Boldrin. Um, me reencontrando com a tradicional musicalidade nordestina; outro, me fazendo conhecer a diversidade musical brasileira.

    PRA REFLETIR

    “É fácil um leigo querer desistir da igreja porque ficou sabendo de pecados de um padre. Já pensou se os padres desistissem por causa dos pecados que sabem dos leigos?”. Padre Hachid, na missa noturna de domingo passado, via redes sociais. “Pense nisso”, diria aquele professor.

  • HEREDITARIEDADE RELIGI0SA

    27/08/2020

    A vida era difícil. Oito filhos para criar - depois vieram mais três -, o sustento baseado no pequeno comércio ambulante que o forçava a périplos semanais pelo sertão paraibano, estendendo-se ao Ceará e ao Rio Grande do Norte... Talvez as constantes dificuldades da vida explicassem a volubilidade religiosa de meu pai; no contraponto, a firmeza católica de minha mãe a desafiar suas ordens obstativas em sua caminhada litúrgica e a influenciar os rebentos no destino cristão.

    Primogênito da prole e inclinado aos apelos maternos, assimilei seus ensinamentos religiosos aprofundando-os no catecismo conduzido com zelo e dedicação por Dona Lourdes, catequista da nova igreja do Cruzeiro, na parte logo nominada bairro de Santa Cruz em honra ao templo erguido com a ajuda dos fiéis. Em seguida à mudança familiar para Patos, no início de minha adolescência, veio a aderência paterna ao protestantismo.

    Diria que essa conversão provocou uma revolução no seio familiar com impacto contrário até hoje. Todos os 11 filhos seguiram, no silêncio medroso imposto pela ditadura caseira, a orientação materna, mantendo-se na igreja deixada por Cristo. Até papai, quase uma década depois, voltou a catolicismo com uma praticidade exemplar. De modo que minha alegria é imensa ao ver a dedicação religiosa de minha filha e nela também a continuidade dos ensinamentos cristãos repassados por minha mãe.

    O impacto pandêmico atual foi amenizado, estou certo, pelo prestimosidade eclesiástica de Morgana. No período radical da quarentena, esteve sempre presente na meditação do Terço em família e ao assistir da missa online. No retorno presencial reduzido nas igrejas, logo se encarregou em agendar sua presença, o que o faz semanalmente e ainda puxa o namorado. Logo nas primeiras semanas dessa liberação mínima, pediu que a deixasse no Rosário, pois marcara uma confissão.

    No último domingo, insistiu com a mãe para que lhe fizesse companhia na missa matinal, garantindo segurança em função das medidas antipandemia adotadas. “Na igreja, voltei no tempo. Eu me senti minha mãe e Morgana sendo eu, quando ela me chamava para acompanhá-la na missa”, disse Margarida, exultante, quando voltaram. Com a diferença de que, desta vez, a filha foi quem convidou a mãe para o ato litúrgico.

    SOBRIEDADE

    Meu irmão Patrício festejou nova idade, dia 22 último, com a sobriedade ansiada há muito tempo pelos familiares e os amigos de verdade. Aliás, ele tem motivos de sobra para comemorações este ano. Do time de safenados, em dezembro, se a memória não me trai, faz 15 anos da cirurgia que recauchutou o seu coração. Que continue sóbrio.

    MADEIRA

    Açougueiro desde a adolescência, Patricio buscou na marcenaria a fuga da ociosidade imposta pela pandemia, e vem agradando com trabalhos em madeira, provando que nunca é tarde pra nada. Tem gente surpreso com sua habilidade nessa atividade. Não devia. Quem usou tanto a madeira não teria dificuldades em trabalhar com madeiras...

    SONIFÉRO


    Marcos Dias Novo, colega dos tempos colegiais em Patos e hoje pastor Batista em Esperança, costuma nos brindar no grupo do WhatsApp com versos de temática religiosa ou desejando uma noite bem dormida. “Um sono bom e gostoso/Não depende do colchão/É do estado da alma/ E como está teu o coração/Havendo leveza nisso/O sono é restauração”. É O Poeta do Sono, brinquei.

    SEM MÁSCARA

    Nas ruas e até nas caminhadas é preocupante o número de pessoas que insistem em não usar máscara, expondo-se e expondo os outros à contaminação. Ainda tem aqueles que disfarçam o uso, deixando a proteção cair pelo pescoço e a boca e o nariz expostos ao Covid 19. Certamente pensam que o soco do vírus é no queixo.

     
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  • O PRECURSOR DE AMAZAN

    22/08/2020

    Pauta recente de alguns partidos, a participação de artistas na campanha política em formato online(livemício) me levou de volta ao meu passado infanto/juvenil, mesmo achando ser improvável sua liberação este ano. Viajei no tempo em que ia aos comícios interessado apenas nos shows, sem a imposição do voto obrigatório. Elino Julião, com seu “Quem é que vai ganhar ...”, foi inesquecível para mim, mas embarco nesse reencontro sobrevoando a serra de Santa Luzia e aterrissar em Patos.

    A passagem de Pinto do Acordeon me motivou a revisitar sua obra e nesse sentido procurei ouvir seus discos, as entrevistas concedidas, assistir vídeos e ler o que foi publicado sobre sua obra. Nessa pesquisa, redescobri outro sanfoneiro das Espinharas bom na sanfona e no improviso: Agamenon Show. À época morador da rua do Vera Cruz, o colégio da minha adolescência, também era requisitado para animar os comícios e até chegou a ser vereador em Patos.

    Tocador famoso na região, Agamenon tentou, em função de sua veia poética, ser cantador de viola. A opção pela sanfona foi motivo para ele introduzir o improviso no forró, em especial o gênero “beira-mar”, e conforma, em entrevista ao jornalista patoense Luiz Gonzaga Lima de Morais, ser o precursor do repente no ritmo nordestino. “Depois vieram Amazan, Luizinho de Irauçuba e outros de Cajazeiras”.

    Agamenon até fez dupla com o lendário Lourival Batista na Festa de Setembro - festa da padroeira de Patos. Chico Gavião, companheiro escalado na cantoria, tomou umas, embebedou-se e jogou a viola num canto. Doido pra cantar, Louro do Pajeú procurava parceiro até que surgiu Agá, que vinha de comícios nos bairros. Uma voz incitante logo avisou que chegou um poeta. “Não. Quero não”, disse, recusa que animou Louro a desafiá-lo com um “tá com medo”.

    O paraibano tomou uma, recolheu a viola abandonada pela embriaguez e partiu para o desafio, avisando ser amador. Lourival escolheu um mourão voltado ou respondido, gênero que exige a resposta certa e rimada do colega. Os versos ficaram na memória de poeta. “Pra que se quer a viola?/Pra se bater um baião/Como se aprende a lição?/Se frequentar a escola/Pra que sequer rabichola?/Pra se botar no cangão/E se eu pear do pé pra mão?/Pode botar no cercado/Isto é mourão voltado/Isso é que é voltar mourão”.

    Foi num comício em Pombal que Agamenon adaptou o gênero beira-mar ao forró. Abriu a sanfona e começou a improvisar autopromovendo-se, quando um puxão na camisa avisou que lembrasse dos candidatos. Virando-se, enxergou todos e emendou: Beira-mar, beira-mar, beira-mar/MDB está botando pra quebrar/MDB não enguiça/Tem Gaioso na Justiça/Tem Levi pra dizer missa/Rui Gouveia pra falar/Bolinha pra operar/Não falta nada pra nós/E eu tenho a minha voz pra cantar o beira-mar.

    N’outra eleição, Agamenon trabalhou pela oposição e fez uma paródia com a música Mulher Nova, Bonita e Carinhosa faz o homem gemer Sem Sentir Dor, cantada por Amelinha. “Muita gente vivendo a sofrer/Com o preço cruel da gasolina/O feijão, o arroz, a margarina/A pobreza não pode mais comer/Até mesmo nossa água pra beber/Quando vem pra sua casa é um horror/O governo coloca um medidor/Pra roubar na porta da moradia/Gasolina, Cagepa e energia/ Faz o homem gemer sem sentir dor.

    Pressionado, o sanfoneiro da situação, Manoel Valadares, parodiou a mesma música em resposta ao adversário. “Oposição lá só fala em gasolina/Matéria prima que vem lá do exterior/Botam culpa em nosso governador/Dizem que o petróleo sobe todo dia/Mas você sabe que um copo d’água fria/Para nós ele tem grande valor/Quando a luz se apaga eu tenho tanto pavor/Quando ela acende eu fico satisfeito/Doutor Carlos vai ser nosso prefeito/E Olavão é o nosso senador”.

    Em festa no Patos Tênis Clube com a presença de candidatos, Agamenon era atração e sabia que o público pediria o improviso do beira-mar. Na ausência do seu prefeitável, ficou doido para falar o nome e a chance surgiu quando viu outro com o nome parecido. Iniciou numa troca proposital, mas a rima do último verso não caiu bem, embora engraçada. Beira-mar, beira-mar, beira-mar/Baião só presta no quadrão da beira-mar/Doutor Olavo está aqui/ Valha meu Deus esqueci/Deixei ele bem ali/É noutro que vou falar/Que também é popular/Que é Otávio de Lacerda/Pra rimar só achei merda/No quadrão da beira-mar.

    O reencontro 45 anos depois com a turma colegial juvenil, mesmo virtualmente, motivou-me a resgatar um passado de cinco, vivido na tórrida Patos. A pandemia, de tantos impactos negativos, possibilitou-me dar esse mergulho no tempo com maior disponibilidade.

    VALADARES

    A autoria da música de sucesso da campanha a prefeito de Aderbal Martins de 72, em Patos, não é de Pinto, mas de Manoel Valadares, um dos animadores dos comícios do candidato. “O xexéu beliscou a goiaba de Levi”, cutucava o refrão. Deixe Durval no colégio/O padre na Catedral/Em nossa prefeitura vamos botar Aderbal/Passeata de jumento não ganha eleição aqui/E o xexéu beliscou a goiaba de Levi”. Confesso que não me lembrava de Valadares. Era da cor de Pinto.

    INSPIRAÇÃO

    A motivação para compor a letra veio de uma discussão entre três bêbedos sobre os candidatos, cada um salvaguardando o seu. Valadares ia namorar quando parou seu Jeep em frente ao prédio da Rádio Espinharas para guardar a sanfona e viu a briga. Ficou ouvindo e veio a inspiração. O compositor nem foi mais namorar; voltou pra casa e mandou brasa nos versos. Trocou de caneta...

    PARÓDIA

    A música de Pinto do Acordeon na campanha de Aderbal Martins foi uma paródia baseada no sucesso da dupla Dom e Ravel, Você Também é Responsável. “Vem gente de longe, da zona rural/Pra no dia 15 votar em Aderbal/Se aquiete Lelé deixe de zum-zum/Pegue seu xexéu e vá pra Jerimum/Eu sou patoense que honra o lugar/Esqueça a prefeitura e vá pra igreja rezar”. Antes, Padre Levi foi prefeito em São José do Bomfim, entre Patos e Teixeira, chamada também de Jerimum.

  • TERO DOS HOMENS

    13/08/2020

    Na nossa participação no ECC e nas Equipes de Nossa Senhora, o convite amigo, o convite irmão; para o terço dos homens não precisou da convocação humana, do apelo afetivo. O chamado foi divino, tocado que fui pelo inexplicável atiçando minha espontaneidade a sair de casa e, na solidão do meu transporte numa noite de quinta-feira, chegar à Catedral Nossa Senhora da Conceição para engrossar o rosário masculino que roga pela interseção da Mãe de Jesus Cristo.

    Ainda a caminho, na ansiedade da chegada, as lembranças infantis de quando as mãos maternas puxavam o menino que eu era, pelo corredor ladeado de avelóses da hoje Av. Dinamérica, às terças-feiras. O destino: o encontro com Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na sua Novena em Bodocongó. A perpetuação, naquela noite abençoada, dos ensinamentos maternos no adulto com sede de Deus.

    Saí encantado com as vozes masculinas, uníssonas, suplicando a interseção de Maria por suas necessidades; também agradecendo, também oferendando. Doravante, a assiduidade de minha presença foi motivo de adquirir a camisa e igualmente interagir com todos. Até arranjar a disponibilidade que não tinha, em função do trabalho diário, para os encontros. Como foi lindo o Encontro Nacional em Recife! O Ginásio Geraldão repleto de homens rezando, cantando, rezando, ouvindo... atentos às palestras, aos testemunhos.

    Encantadores também os encontros diocesanos. A labuta dominical me privando da oração matinal, mas um grão de fé ajudando a superar o cansaço do esforço concentrado pra tarde de palestras, cânticos, orações e a Missa que não pode faltar.

    Além de seus objetivos, o Terço do Homens traduz, em sua simbologia invisível, a ação de seus participantes. Como naquela vez, na recepção ao Terço de Dois Riachos, em Salgada de São Félix. O sinal de chegada, na entrada do distrito, era uma rajada de fogos. Ao parar do ônibus, perguntaram se algum dos passageiros tinha fósforos ou isqueiro para acender. Ninguém tinha. Cerca de 40 homens dentro do veículo sem fumar. Achei divino.

    Mas, o excesso de afazeres semanais, com a rotina de 12 horas de trabalho, começou a me afetar e o cansaço físico (e até mental) me fez quebrar um pouco a assiduidade de outrora, agravada ainda pela prolixidade dos animadores na condução da cerimônia (até de 2h de duração). Resolvi mudar de igreja para uma mais próxima. Até que dei um tempo, sem pausar as reuniões da Equipe de Nossa Senhora e mantendo a assiduidade missal. Hoje quero voltar e a pandemia não deixa.

    PARQUE

    Tenho uma afetividade gritante dentro de mim com a Avenida Dinamérica, pois ela ladeia, entre a Almirante Barroso e o conjunto Nenzinha Cunha Lima, as terras que foram dos meus avós paternos. As terras da minha infância, portanto. Nelas, eu brinquei, plantei, limpei roçado (muito pouco), carreguei água e tomei banho de açude e fui feliz. E sabia que era feliz.

    ANDORINHA

    Fui até andorinha nos meus tempos de Diário da Borborema ou ainda Gazeta do Sertão, não lembro bem, quando alertei do desperdiço de terreno daquela avenida, principalmente na sua largura sem sentido, e da necessidade de adaptá-la às práticas esportivas com a construção de equipamentos apropriados em toda sua extensão. Finalmente essa esperança renasce em mim e nos moradores dos bairros que a contornam. E até de toda cidade.

    CRÉDITO

    Mas foi com um misto de alegria e apreensão que recebi a notícia de que nessa avenida vai ser construído ainda este ano um parque linear. A suntuosidade da obra me impressionou. Alegria pela esperança de ver utilidade num espaço desperdiçado há tanto tempo e temor da obra não ser entregue no tempo prometido ou até não ser concluída. Em função da burocracia que costumar emperrar o serviço público. Vamos acreditar.

  • UM BOMIO RESPNSAVEL

    06/08/2020

    Traçar o perfil dos colegas cronistas esportivos da época foi um sonho que eu acalantei trabalhando no Diário da Borborema, no qual fiquei até 1992, mas a inviabilidade de destacar os profissionais concorrentes inibia qualquer pretensão minha de realização desse projeto. A possibilidade veio através do convite de Marcos Marinho para inserir a página de esportes na edição semanal do jornal A Palavra, logicamente com a adoção de um pseudônimo – Valmar Lomeida. Consolidada a nova editoria, iniciei a série com Humberto de Campos, o “Mais Discutido” comentarista, cujo data de aniversário é 8 de agosto.

    Bom-copo, mas extremamente cumpridor de suas obrigações profissionais, Humberto me inspirou um quadro na página que citava os bares frequentados pelos perfilados. Pelo menos três estabelecimentos mereciam a assiduidade praticamente diária de Campos. Funcionário da Celb, ele costumava sair da empresa por volta de 10h, entregava a coluna no DB e iniciava sua visita, tendo na agenda Caldo do Peixe, Miúra e Manoel da Carne de Sol.

    Escrevi sobre a frequência de Humberto nessas casas e preparei o seguinte título: Itinerário etílico de um boêmio responsável. Diagramada a página, a matéria ficou num quadro e sem comportar o título esboçado; tive que reduzir a “Itinerário etílico”. Daí, a motivação de manter o boxe nas edições seguintes, igualmente realçando a disposição alcoólica dos enfocados nos demais perfis. “Só não gostei muito disso aqui”, apontou, queixando-se depois a Marcos, mesmo entendendo o sentido da “brincadeira”.

    Uma das marcas de Humberto de Campos era, realmente, a responsabilidade. Sempre nos encontrávamos a caminho a redação e, mesmo deduzindo que eu ia pra lá, nunca me pediu para levar o papel datilografado com o conteúdo da coluna a sair na edição do dia seguinte. Somente depois de alguns anos, após me conhecer melhor, é que fui merecedor de sua confiança nesse sentido, o que me surpreendeu na primeira oportunidade.

    Professor do Curso de Comunicação, certa aula, no final do semestre, exemplificou seus alunos com uma de suas características: a verdade. Expondo como era o ambiente nos veículos de comunicação, fez algumas citações, quando de repente parou sua explanação, olhou para um lado e para o outro, aí visivelmente subiu um “nó incontrolável” na garganta e emendou: é vou falar. “Os Associados estão recepcionando autoridades, patrocinadores e outros com banquetes e jantares de confraternização, mas até esta data não pagou a gente ainda”.

    Eu gostava bastante de ouvir seus comentários no rádio e, principalmente, ler sua coluna no DB. Muitos amigos diziam ser ele mais crítico do que comentarista. Particularmente, achava que Humberto agradava mais o torcedor quando o time estava jogando mal ou perdendo. Sabia como poucos transformar em palavras a insatisfação dos apaixonados por qualquer das cores com a atuação desagradável durante o jogo ou o resultado adverso. Foi de quem mais me lembrei no pífio desempenho do Campinense diante do Sousa, terça-feira.

    A caminho de um retiro das Equipes de Nossa Senhora em Lagoa Seca, em 2006, foi que tomei conhecimento do passamento de Humberto de Campos e por isso não tive a oportunidade de vê-lo, inerte, na sua despedida terrestre. Esse tempo sem ele vai se traduzindo num esquecimento injusto de uma das principais vozes do meio esportivo e até do cinema em Campina Grande. Se em vida Humberto foi o mais discutido, desconfio ser ele hoje o mais esquecido.

    FUTEBOL

    Já que recordei Humberto de Campos, devo começar a inserir o futebol na coluna. Justo na semana da data natalícia do saudoso cronista, Campina Grande ganha o presente de recuperar o título paraibano de futebol quatro anos depois. Ainda mais com a disputa entre Treze e Campinense, o que não acontecia desde 2008, quando a Raposa foi campeã. Pena que a pandemia não deixa o ”Amigão” tremer. Como antigamente.

    FAVORITISMO


    O Galo da Borborema vai tentar quebrar um jejum de oito anos sem ganhar o título. O último foi em 2011, quando beliscou o bicampeonato. Se atuar com a disposição de quinta-feira... A Raposa comemorou a última conquista em 2016 também com o bi. Vai ter que jogar bem diferente da segunda partida com o Dinossauro se quiser ficar com a taça. Mas clássico, concordo, não tem favorito.

  • Equipes de Nossa Senhora

    30/07/2020

    O impacto da perda de um posto de trabalho nos primeiros dias de 2002 foi amenizado pelo convite, meses depois, de um casal amigo para que participássemos do ECC da Catedral de Campina Grande. Ficamos no movimento por três anos. Embora gostássemos, a labuta diária no nosso comércio, com pico de movimentação no sábado e domingo, praticamente inviabilizava uma dedicação condizente e a opção, a contragosto, foi a saída. Um novo convite, em 2004, desta vez da mana Anete, nos coloca em outro movimento de casais, as Equipes de Nossa Senhora, no qual estamos até hoje.

    Movimento de espiritualidade conjugal católico, leigo, é formado por casais que buscam no sacramento do matrimônio um ideal de vivência cristã e querem ser um testemunho do casamento cristão. “As Equipes de Nossa Senhora têm por objetivo essencial ajudar os casais a caminhar para a santidade. Nem mais, nem menos”, resume o padre Henri Caffarel, fundador do movimento, com a criação da primeira equipe no último ano da década de 30, na França.

    Este ano, as ENS comemoram 70 anos de Brasil, cuja expansão alcança todas as regiões do país. Na Paraíba, uma tentativa de implantação fracassou, em 1954, mas em 1989 foi lançada a primeira equipe em João Pessoa. Em Campina Grande, apesar da ação nos anos 1950, o movimento só chegou em 1998, mas seu crescimento na cidade fez com que, recentemente, o setor fosse dividido em dois. No Compartimento da Borborema estende-se às cidades de Queimadas, Puxinanã, Esperança e Pocinhos.

    O nome no plural justifica pela sua formação ser constituída de equipes, as chamadas equipes de base, composta de no mínimo, cinco casais e no máximo, sete. Cada uma delas é acompanhada por um Conselheiro Espiritual, que pode ser um seminarista ou um sacerdote. Cada equipe pertence a um setor(cidade), o setor forma uma Região (Estado), pertencente a uma Província, que engloba algumas ou várias regiões (Nordeste 1 e Nordeste 2, no exemplo nosso). A Super-Região acomoda as regiões de um país e até regiões de países vizinhos. Mundialmente, a responsabilidade geral do movimento é da ERI, Equipe Responsável Internacional. Desde a equipe de base até a direção universal, cada agrupamento desses tem um casal responsável, que é acompanhado por um Conselheiro Espiritual.

    Com o objetivo de ajudar os casais integrantes, as Equipes de Nossa Senhora nada lhes impõem; apenas propõem que os cônjuges vivam uma trilogia no caminho traçado por Cristo: Orientações de Vida, Pontos Concretos de Esforço e Vida de Equipe. Para a vivência desses meios, levam-se em conta três linhas mestras: a gradualidade, a personalização e o esforço.

    Da trilogia proposta, Orientações de Vida visam ao crescimento no amor de Deus; Os Pontos Concretos de Esforço(PCE’s) supõem tomar um itinerário lógico na direção do crescimento espiritual e humano; Vida de Equipe sugere a vivência com intensidade das propostas do movimento, a exemplo das reuniões da equipe de base e de encontros do setor, viver tempos fortes de oração, participar dos retiros, etc.

    Eu e Margarida gostamos muito das Equipes de Nossa Senhora, principalmente por trabalhar a espiritualidade conjugal e nesse sentido os Pontos Concretos de Esforço são fundamentais. Seguindo a orientação deles, lemos a Liturgia Diária(Escuta de Palavra) e a meditamos (Meditação), oramos juntos(Oração Conjugal – é maravilhoso, divino o casal, juntinhos e de mãos dadas, orando) e individualmente; temos a chance de discutir sem ira a nossa relação, num saudável diálogo conjugal(Dever de Sentar); a Regra de Vida é um convite ao esforço dedeixar de praticar algo que prejudique o lado familiar, conjugal e até pessoal; temos ainda a chance de uma gratificante participação anual de um retiro espiritual(Retiro).

    Desde a equipe de base até a direção universal, cada agrupamento das Equipes de Nossa Senhora fica sob a responsabilidade de um casal, que é acompanhado por um Conselheiro Espiritual. Sim, a nossa equipe, composta por seis casais, é denominada de Nossa Senhora da Guia e tem a dádiva divina de ser aconselhada pelo padre Hachid.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Na redação do Jornal da Paraiba, Vanuza Ramos recepcionando os aniversariantes do mês

    Vanuza Ramos

    Confesso que senti o impacto da notícia de falecimento, no sábado, 25 de julho, da jornalista Vanuza Ramos, nos Estados Unidos, país onde se encontrava há cerca de 15 anos. Ela foi nossa colega no Jornal da Paraíba e seus familiares residem no Jardim 40, e, além de vizinhos de quadra, foram nossos clientes até o fechamento da loja, um ano e meio atrás. Vanuza descobriu o câncer em fevereiro do ano passado e por isso não tomei conhecimento da situação. Daí o impacto

    Última visita

    Vanuza Ramos chegou à redação do JP devagarinho, como quem não quer nada, e aos poucos foi conquistando os colegas e seu espaço. Não lembro se quando saí, em 2002, ela ainda estava lá; recordo da surpresa que tive quando um parente seu me confirmou sua ida para o Estados Unidos. Na vez (acredito ser a única e faz tempo) que veio ao Brasil, me fez uma agradável visita.

    Sonho realizado

    De acordo com o colega carioca Carlos Wesley, do AcheiUSA, jornal para a comunidade brasileira naquele país, mesmo debilitada, Vanuza realizou um sonho, em junho último. Durante 12 dias, de carro e com a ajuda de um andador e cadeira de roda, conheceu várias cidades americanas, principalmente as ricas em cultura, para visitar a irmã Verônica, que também mora lá. “Foi o nosso São João”, disse à Mônica, outra irmã que vinha cuidando dela, confirma o jornalista.

    Ativista cultura

    A jornalista campinense mantinha uma empresa, a Zueira Productions, responsável por certo tempo pelas Terças Culturais, evento aberto aos talentos da comunidade brasileira local. Ela lançou ainda, com uma amiga, o Carnazueira, autentica festa de carnaval, no sul da Flórida.

    Homenagem

    O jornalista garante, em texto, que os amigos mais próximos tentam, até como homenagem, realizar outro dos vários sonhos de Vanuza, que é a criação de uma fundação de fomento à cultura brasileira na Flórida. Se concretizado o plano, a instituição receberá o nome da brasileira.

     
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  • PINTO DO ACORDEON

    23/07/2020

    A minha chegada em Patos, aos 12 anos de idade, me proporcionou a feliz oportunidade de acompanhar, mesmo na minha adolescência distraída, o andamento inicial da carreira de Pinto do Acordeon, que já despontava com prestígio nas Espinharas. A ponto de ser contratado para animar comícios na campanha à prefeitura local de 1972, que tinha como candidatos o industrial Aderbal Martins, o professor Durval Fernandes e o padre Levi Rodrigues, vindo de uma experiencia administrativa na pequenina e vizinha São Jose do Bom Fim.

    Não recordo quem animava musicalmente as aglomerações políticas do padre – mesmo porque o maior animador, o marqueteiro como se diz hoje, de sua campanha era ele mesmo; nos comícios de Durval quem cantava era o moreno Zé Matias, que, parece, não prosseguiu na carreira de forrozeiro. Pinto, com sua sanfona e sua irreverência a serviço de Aderbal, fez a disputa eleitoral ficar mais animada e mais disputada.

    Pinto foi o contraponto à criatividade do religioso, tido como favorito na peleja eleitoral. Levi sabia como ninguém atrair a população com seu carisma e sua batina, sua oratória fácil e abusando de ideias criativas no chamamento para seus comícios e suas passeatas. Ah, as passeatas do padre! De burro, de bicicleta, a pé... teve de todo tipo. No rádio e nos comícios, ele incitava o eleitor a receber dinheiro, tijolos, telhas, cimento, ou qualquer coisa de seus concorrentes, principalmente o industrial. Contanto que votasse nele. “Ferre o boi e vote no padre”, dizia, acusando os adversários de compra de voto.

    Após as explanações na sua oratória, Padre Levi encerrava os comícios ou programa de rádio procurando demonstrar confiança na sua eleição. “...tchau Aderbal, xexeu Durval”, concluía. Foi aí que a irreverencia de Pinto apelou na letra de uma das músicas de campanha e de uma forma bem ao estilo da maliciosidade musical nordestina da época. Não recordo a letra toda do forró, mas o refrão ficou na memória do povo. “E o xexeu beliscou a goiaba de Levi”, eis o revide de Pinto, arrancando gargalhadas.

    Certo domingo, saí da missa da Catedral Nossa Senhora da Guia e, ao atravessar a rua e me aproximar da Lanchonete Pedregulho, ouvi um som de sanfona e aquela voz de “Matuto Teimoso” foi penetrando em meus ouvidos. Não é que era Pinto, sentado numa mesa com um grupo de pessoas, tocando e cantando, tocando e cantando. Na minha curiosidade adolescente, parei e fiquei um bom tempo ouvindo o seu tocar, o seu cantar; em um dos números, cantava e recitava uma letra que falava em frango, bem ao estilo duplo sentido de então.

    Outra vez, em 1975, caminhava eu pela calçada da Ciretran de Patos, na época à Rua Horácio Nóbrega, e vinha um ônibus da Viação Brasília, que saíra da Rodoviária local com destino a São Paulo, e para bem próximo. Uma das janelas se abre e o sotaque sertanejo de Pinto eclode, chamando alguém; dois homens à minha frente se voltam à esquadria do veículo e um diálogo rápido é iniciado. No ano seguinte, estudando em Campina Grande, na felicidade do meu retorno ansiado, Pinto do Acordoem lança o seu primeiro disco.

    A alegria, o humor e a receptividade de Pinto são características citadas por quem conviveu com ele ou dele teve o privilégio de se aproximar. Os causos vividos e contados pelo sanfoneiro são maravilhosos, entre quais sua participação num comício em Pombal, pelo partido do governo. “Ninguém é doido não, ninguém é louco não/ Para morrer de fome votando na oposição”, o refrão.

    Quando Pinto desceu do palanque um emissário oposicionista já o esperava em baixo. Para contratá-lo, ganhando mais, e ele contradizer o que entoou no palanque adversário. “Olhe o preço do arroz, olhe o preço do feijão/ pra acabar isso tudo vote na oposição”, aconselhou.

    No episódio completo d´O Milagre de Santa Luzia, no qual é protagonista, e numa entrevista a Jô Soares a gente tem uma ideia de como era realmente Pinto do Acordeon. Mais do que o cantor que Pinto foi. Sem precisar ser galo.

    Crença e descrença

    Enfocando a religiosidade, a edição de quarentena do programa SR.Brasil de domingo passado foi divino. “Há a crença e a descrença”, justificou Rolando Boldrin sobre o tema, confirmando que conviveu com as duas realidades, pois a mãe era católica praticante e o pai, ateu. Além de interpretar poemas e textos sobre a temática religiosa, mesclou a programação com cantores interpretando musicas em programas apresentados em variadas épocas nos seus 15 anos na TV Cultura.

    Romaria de lágrimas

    Antes de concluir o programa, Boldrin interpretou, com todo talento que lhe é peculiar, um texto baseado na obra de Guimarães Rosa e, ao terminar o recital, Fafá de Belém, com sua voz inconfundível, continuou na temática religiosa cantando Romaria, de Renato Teixeira. Confesso que os olhos do terceirão marejaram. Feito os olhinhos do menino de Luiz Vieira.

     
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  • O Bom Vizinho

    16/07/2020

    Há aquela máxima de que “vizinho bom é ele na sua casa e eu na minha”, ou seja, cada um no seu território cercado. Meu conceito de vizinho se assemelha muito com o que acho de amigo, pois fundamentado na assistência oportuna e na compreensão nas adversidades ou atitudes desagradáveis. Com a diferença de que vizinho devemos afagar todos os dias, já que todos os dias ele é o próximo mais próximo. Acredito que o mínimo que podemos dispensar a um vizinho é a saudação diária, no primeiro encontro casual ou não. Bom dia, boa tarde ou boa noite não devemos negar a ninguém. Nem aos estranhos.

    Os manuais de boa convivência recomendam a “não fazer aos outros o que você não quer que seja feito a você”, regra considerada de ouro para ter um bom vizinho. Li um manual básico do bom vizinho que cita palavras alentadoras a quem quer ser exemplar e querido na sua localização residencial: simpatia, conhecimento, respeito, cuidado, barulho, incendiário (?), solidário. São vocábulos que exigem um certo desempenho mágico na sua praticidade.

    Simpatia é algo extremamente pessoal e que nem todos têm, pois presume-se que a simpatia começa com um sorriso espontâneo, contagiante. O ato de cumprimentar, em si, com ar sério ou sorridente, já é uma atitude de simpatia. Conhecer o próximo de sua casa é um dever de cada um, de preferência pelo nome. O respeito é bom e todos gostam. O que o manual mais recomenda é respeitar as áreas compartilhadas, a exemplo de estacionamento, vaga em frente à casa, sombra da árvore.

    Cuidado é um item muito recomendado. Quem cuida de sua casa, cuida de fazer seu vizinho um amigo. Limpeza na frente de casa, manuseio adequado do lixo e jardim arrumado beneficiam a todos. Barulho está incluído no manual implicitamente de maneira inversa, isto é, não fazer. Em festa caseira, vitória do time preferido, escapamento do carro... Quem mora em apartamento deve ater-se mais aos ruídos barulhentos, principalmente os que têm morador de lado, em frente, em cima e em baixo.

    A regra alerta para não ser incendiário, colocando fogo no lixo no quintal e ter controle na churrasqueira. A fumaça causa problemas em roupas e em quem tem deficiência respiratória. Eu acrescentaria ao manual não incendiar as relações dos moradores, incitando desunião. Cada um deve agir como um bombeiro para que não haja desavença ou, em caso contrário, ela seja controlada. A solidariedade é a última regra do manual, mas deveria ser a primeira. Quem é solidário pratica todas as outras recomendadas.

    Quando chegamos à nossa rua,16 anos atrás, fomos muito bem recebidos. Época carnavalesca, até um pequeno bloco nos recepcionou. Pequena, precisamente do tamanho do quarteirão, o entrosamento com os já residentes nem precisou de muito treino. Logo as rodadas festivas foram iniciadas, no campo neutro das calçadas, preferencialmente as centralizadas na sua extensão diminuta. Datas comemorativas do calendário, aniversários, chegada de um novo morador... Tudo era motivo para uma farra.

    Aliás, festa na nossa rua faz jus ao seu nome, pois homenageia um dos ex-donos da Caranguejo, quando a tradicional cachaça patrocinava as resenhas e transmissões esportivas nas emissoras locais. A violência urbana congelou esse clima festivo. Nem a inauguração do calçamento, uma luta de quase 20 anos, mereceu uma festa. O medo distanciou ou isolou os moradores, pois praticamente todas as casas hoje estão protegidas por um incômodo muro frontal. Mas, seguindo o lema daquela rede de supermercados não custa nada valorizar a vizinhança e tentar ser um “bom vizinho”. Na rede, a gente paga; o vizinho a gente afaga.

    Inaudete Amorim

    Tive poucos contatos com a cantora e radialista Inaudete Amorim, mas o primeiro foi marcante e, por isso mesmo, nunca esquecido. Estudantes de Comunicação Social, eu e o retraído colega Daniel Victor recebemos como tarefa fazer um trabalho que consistia em conhecer a estrutura de pelo menos duas emissoras de rádio. Não é preciso dizer que valia uma das notas do período.

    Teimosos e temerosos

    Na primeira emissora visitada, não fomos bem recebidos, pois o despreparo ou má vontade de quem nos atendeu foi desanimador. Com certo temor, em função da primeira experiencia, subimos a ladeira da Palmeira rumo à antiga sede da Rádio Campina Grande FM. Quem nos recebeu foi Inaudete. Com uma simpatia contagiante, uma classe admirável e boa vontade, ela nos reanimou e nos mostrou toda instalação e explicou o funcionamento de cada departamento, principalmente o de jornalismo, que nos interessava mais.

     
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  • Devaneios de um terceiro

    09/07/2020

    Um dos efeitos colaterais da greve dos caminhoneiros foi o adiamento do Maior São João do Mundo, uma semana depois do programado, mas reconheço que suas consequências psicológicas também me deixaram confuso. A festa avançou uma semana de julho e somente após o seu término é que me atentei que ser o mês do meu aniversário, justamente no ano em que a dádiva divina me concede ânimo para pular o muro da terceira idade. Coisa de velho, já podem xingar.

    Deus me concedeu a graça de chegar aos 60 anos, portanto, mas, paradoxalmente, as atitudes e decisões humanas me impedem de comemorar de forma festiva a data. Motivos para comemorações tenho de sobra, embora a crise financeira que assola o país me impeça de qualquer tentativa nesse sentido. Quem foi vítima de eclampsia seis décadas atrás terá forças suficientes para superá-la; ânimo para fazer festa, não.

    Se eu não reúno condições monetárias para tal, conforta-me a certeza de poder sonhar e até realizá-la virtualmente, diria, na linguagem atualizada de hoje. Na minha quimera de sessentão, a comemoração seria uma volta triunfal ao passado. Nela, reencontraria amigos de infância, adolescência e pessoas vivas ou que se já foram; praticaria costumes e brincadeiras de então, além curtir os ritmos e os ídolos de todos os tempos.

    Na minha sexagenária festa, convocaria Rosil Cavalcante para animá-la encarnando o personagem que recheou minha infância de alegria até quando o seu coração deixou, faltando dois dias para completar meus 10 anos. Zé Lagoa sairia dos estúdios ou auditório da Rádio Borborema, acompanhado de seu conjunto regional. Com Chicó na sanfona, parecendo reger os colegas com a cabeça, enquanto os dedos manobram as teclas ou botões do instrumento.

    Com certeza, Zé Lagoa traria como convidados o Rei do Baião para cantar Assum Preto e Tropeiros da Borborema e o Rei do Ritmo, Jackson, com seu inseparável pandeiro, interpretando Sebastiana, Bodocongó, e a música que identificava o programa Forró de Zé Lagoa. Genival Lacerda chegaria montado no seu “jumento de quatro patas” e dando trambique em Severina, aquela da boutique.

    A presença de Elino Julião e seu jumento sem rabo, dando Adeus a Borborema – música que parece relatar minha partida da cidade dois anos depois - seria um presente de Vital do Rego. O seu parceiro de disco Messias Holanda daria voz à profecia sem malícia de João Gonçalves, “plantando um pé de margarida”. É que quase duas décadas depois casei com uma mulher que perfuma o nome com essa flor.

    Holanda não deixaria a festa sem cantar o Sabiá na Bananeira( aí lembraria a namoradinha de infância), e Pra Tirar Coco, o forró que na década de 80 animou a travessia etílica, de ponta a ponta, da cidade de Solânea, feita por mim e o amigo Jurandy França, juntamente com mais três colegas seus.

    Zé Lagoa, sem “apanhar pra ficar mole”, convidaria, com certeza, Zito Borborema, lembrando de Campina Grande; ainda Jacinto Silva e o moreno Ari Lobo, além do Coronel Ludugero e Otrope, botando fogo na festa, feito Elino. Com o fogo se alastrando no salão, Zé Lagoa daria uma pausa na sonoridade nordestina e convidaria outros personagens marcantes, musicalmente, na minha vida.

    Pra começar, buscaria Raul Sampaio no Espirito Santo pra cantar Quem Eu Quero Não Me Quer; de Raul, Nelson Gonçalves interpretaria, com Martinho da Vila, Lembranças. Aí, o vozeirão do “gago” contemplaria os convidados com Naquela Mesa, Cabocla, A volta do boêmio, entre outras. Achando pouco, Rosil anunciaria a presença de Altemar Dutra, que cantaria(epa!) Margarida, Sentimental Demais, O Trovador e Brigas.

    Pra reviver minha infância de Jovem Guarda, Roberto Carlos chegaria num Calhambeque mandando tudo pro inferno (meu pai me passaria uns carões) e preencheria meus sentimentos adultos com Amiga e Passa tempo; Chico Buarque enriqueceria minha festa com A Banda, Construção, entre outros de protestos ou não.

    “Que Pena”, mas Zé Lagoa voltaria à cena para encerrar esse desfile romântico, esbravejando pela volta dos forrozeiros. Antes, teria que compreender que, sem Peninha cantando Sonhos, minha festa não ficaria completa. Aí, sim, ele poderia acabar minha festa gritando “Forró de Zé Lagoa, beco da facada”, mas anunciando ainda Marinês encantando minha alma tão regional com Aquarela Nordestina e no Meu cariri, e o Trio Nordestino com Lindu e a malícia discreta de Antônio Barros. Ah, ainda teria a volta de Gonzaga cantando os clássicos de Zé Marcolino. Isso não é um sonho nem a minha “última quimera”. São devaneios de um sessentão em intenso momento saudosista.

    - Texto escrito dois anos atrás quando completei 60 anos, com as mudanças que a releitura exige.


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