Colunista Valberto José

Jornalista, formado pela Universidade Regional do Nordeste (URNE), hoje UEPB. Iniciou como colunista na Gazeta do Sertão e trabalhou no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, colaborou na versão impressa d`A PALAVRA.

  • Travessia boêmia em Solânea

    26/06/2020

    As nossas cabeças raspadas denunciavam, naquele já distante 1981, que éramos novos universitários. Também essas cabeças calvas pela euforia do ápice estudantil nos aproximaram, ainda no ônibus a caminho da faculdade, no primeiro dia de aula. Foi o início de uma amizade que se aproxima de quatro décadas, em que pese a distância quilométrica a nos separar.

    Nas aulas iniciais, as cadeiras próximas, o interesse comum na aprendizagem e a interação nos assuntos jogados pelos professores; nos intervalos a saída para as conversas extraclasse ou para o lanche na cantina provedora... Logo o convite à primeira cerveja no bar da esquina pertinho do curso, no bairro São José; depois na Nossa Cervejaria, por trás do teatro.

    Meses adiante, a consolidação dessa amizade com minha presença em tua casa. A apresentação teatral de um grupo de Guarabira, do qual fazia parte uma pretensa namorada tua, no Colégio Agrícola de Bananeiras, foi motivo da convocação para que eu fosse na tua Arara e conhecesse teus familiares. Que acolhida!

    Um passeio que voltaria no dia seguinte, foi estendido por mais um, ficando eu duas noites na simplicidade da antiga morada da família França, à rua Cândida Americana. Pois mais um convite, para te acompanhar nas atividades políticas, nos levou a uma aventura etílica jamais esquecida.

    Um périplo por Borborema e Serraria, cujo objetivo era espalhar as primeiras sementes petistas naquela região (anos antes, teria corrido risco de uma prisão política sem nunca viver qualquer militância), terminou de forma inesquecível em Solânea.

    Depois de passar pelas duas cidades, o carro dos petistas - certamente eles teriam compromissos em outras – deixou a gente na entrada de Solânea, sentido Bananeiras. Foi aí que começou a nossa aventura boêmia. No primeiro bar que avistamos, nenhum resistiu ao primeiro gole. Nisso, encontramos teus amigos de Arara, todos com disposição para nos acompanhar na improvisada aventura.

    Atento marinheiro de primeira viagem, observei, na véspera, no caminho teatral, que a rua que corta a cidade exige incontáveis passadas entre a chegada e a saída, na extremidade dos dois pontos. Logo sugeri uma tirada por toda sua extensão, com parada obrigatória pelos botecos, quer do lado direito quer do lado esquerdo (involuntariamente expus minha centralidade política).

    Proposta aceita, fomos nós conhecendo os botequins da cidade, “querendo trepar pra tirar coco", desafinando o forró de Messias Holanda, sucesso junino daquele ano. A caminhada findou numa churrascaria, agregada no posto de combustível na saída para Arara. Lá, por coincidência, uma amiga tua nos recebeu e não nos faltou nada.

    Na situação que nos encontrávamos, como seguir para Arara? Deus protege, estou certo, os boêmios responsáveis: um caminhão feirante nos conduziu. Mas o dono, não suportando a algazarra dos chapados, nos fez descer um quilômetro antes da chegada na terra do teu peito esquerdo. A dispersão do grupo, diante da confusão entre dois deles, foi inevitável.

    Como foi marcante minha solitária chegada à tua casa! Com os teus, já conhecidos meus, mas ainda estranhos pra mim, nos esperando. Não lembro com exatidão se na calçada se encontravam teus pais e outras pessoas. Ou só tua mãe e alguns vizinhos. Recordo que, primeiro, olhei o número da casa, para poder dar um boa noite arrastado a todos e entrar. Sendo muito bem acolhido. Depois é que chegaste para acalmar os teus.

    Teu nome, Jurandy, independente da grafia final, tem uma dubiedade na sua significação. Contam ser uma criação de José de Alencar para nomear um dos personagens do romance Ubirajara, de 1874. De origem tupi, significa "boca melíflua" ou "o que fala palavras doces" e ainda "trazido pela luz do céu". Tanto faz. Pra tua família e os teus amigos, és uma luz para vislumbrar as doçuras da vida e o caminho celeste.

    Universitário depois dos 40

    Um casamento inesperado e a necessidade de trabalhar obrigaram Jurandy Araújo França a deixar o curso e a tomar o rumo de São Paulo. Lá, permanece até hoje, quando superou anos de dificuldades e conseguiu, enfim, a sua graduação, depois de encontrar um motivo forte para entrar na faculdade. “Meus filhos não querem mais estudar, então eu vou voltar”, decidiu, aos 40 anos, cursar Direito.

    Nos primeiros anos na capital paulista, o meu amigo sofreu muito até arrumar emprego num prédio, na área central da cidade, começando por baixo e chegando a síndico. Depois de 30 anos, continua funcionário do condomínio, hoje com a prerrogativa de responder pelas pendencias jurídicas. Também é um dos seus moradores.

    A ida de Jurandy para São Paulo fez, além dos nossos afazeres profissionais, com que os nossos contatos cessassem. Ficamos anos sem comunicação, mas quando surgia um passeio pelo brejo, fazia questão de passar na casa de seus familiares, em Arara. Até que cerca de 15 anos atrás ele me faz uma surpresa, aparecendo no meu comércio e desde então todo ano ele vem de férias, pois não esquece suas raízes.

    Além da advocacia, Jurandy escreve poemas, crônicas e tem livros publicados. É bastante ativo nas redes sociais, postando seus escritos sobre o torrão natal e dando suas opiniões, principalmente políticas, embora decepcionou-se com o petismo. O texto a seguir é dele.

    Abandono da terra

    Jurandy França

    O sol a pino, em relances dourados, desnuda a beleza agrestina de uma partícula de terra. Revela a soberania territorial do ipê roxo, que em dias de silêncio sepulcral derrama lágrimas de saudades... Desde pequenino acompanhou de perto a saga dos Barros, liderada pelo patriarca que não mais bate o gume de suas enxadas a cada manhã de inverno.

    O ipê olha em sua volta e vê a casa de alpendre amplo onde as crianças pinotavam, enquanto ele, o patriarca, entre um solo e outro do velho cavaquinho, traçava junto à mulher planos para o futuro daqueles meninos e meninas que se ocupavam tão somente em brincar.

    O tempo passou, queimou os anos, enterrou os dias... Aos poucos os meninos e meninas tornaram-se homens e mulheres, buscaram terras distantes. O patriarca, sua mulher e o ipê ficaram para trás num tempo presente.

    As coisas mudaram por aquelas paragens. A violência importada afugentou a paz; poucos aguentaram ficar. O patriarca e sua mulher resistiram enquanto havia sobra de forças e esperança de luz. O banditismo entrava aos poucos violentando a harmonia, parecia a volta do cangaço.

    O patriarca parecia tal qual o ipê, plantado à terra. Suas forças sucumbiram à violência rural e, entregando os pontos, largou a terra que deitou os pés por décadas, deu adeus ao velho amigo, que se vestirá com tecido amortalhado. Foi pra cidade e lá continua até hoje. Enquanto isso, a cada primavera o ipê chora de saudades e suas lágrimas de saudades em forma de pétalas, correm pelo caminho em busca do velho companheiro.

    Este texto é uma homenagem ao meu tio Joel Barros e minha tia Nininha.

  • Um reencontro encantador

    18/06/2020

    A minha nova rotina caseira, consequência da quarentena necessária em tempo de pandemia, foi quebrada de forma encantadora com um reencontro virtual 45 anos depois do último contato físico. Justo no dia 07 de abril, quando vivia um misto de alegria pelos 80 anos de minha mãe e de frustração pela festa adiada, um áudio no WhatsApp com uma voz radiofônica me convidava para aderir ao grupo da turma pioneira do colégio em que estudamos na cidade de Patos, no início dos anos 70. Nunca me senti tão adolescente!

    Deveras, o Instituto Educacional Vera Cruz marcou profundamente a vida da gente e quase 50 anos depois os seus ensinamentos continuam a nos guiar, paralelamente à experiencia adquirida. Inicialmente, o pioneirismo da unidade escolar abrigava duas turmas de 5ª Série, cada uma com cerca de 40 alunos. Afetada fortemente com as deserções de praxe no decorrer dos anos letivos, a dubiedade do educandário se transformou em turma única, acabando na conclusão do 1º Grau, em 1975, com apenas 17 alunos. O que não impediu a realização de uma “festa de arromba”.

    Pastor da Igreja Batista, Marcos Dias Novo, certamente inspirado nos cuidados que tem com seu rebanho de fiéis, tomou para si a iniciativa de reunir, num grupo de rede sociais, as ovelhas dispersas da pioneira turma. Ainda resta uma meia dúzia desgarrada, mas com sua diligência e o apoio investigativo de Marcial não vai demorar reencontrar o restante. Dos 17 remanescentes das duas turmas, apenas Manoel Alves Moreira (Zito) nos deixou, vítima acidente na serra de Teixeira, em 1980.

    Como têm sido maravilhosos, desde então, os nossos contatos, em que pese a virtualidade necessária para interagir! Foi muito prazeroso tomar conhecimentos da trajetória de vida e profissional e conhecer a descendência familiar de cada um deles. Melhor ainda ter a certeza de que nenhum sobrou na curva e desviou por caminhos fora da retidão ensinada.

    Dessa turma, até onde tomei conhecimento, dois estão aptos a minuciar a nossa história, um com duas pós graduação na área. Em caso de necessidade jurídica, três caminharam pela via do Direito; cansados dos bancos de aprendizagem, três mudaram de lado apostando no magistério; um tentou Engenharia, mas o emprego bancário o fez desistir para estudar Economia. Aposentado e com pós em Administração, abriu uma empresa de construção. Há dois comunicólogos, um exercendo ou habilitado em jornalismo; para cuidar de todos, a mana optou pela área da saúde.

    Democracia e ditadura

    O Vera Cruz foi tão importante na nossa vida, que até nos proporcionou a oportunidade de vivenciar internamente a ditadura e a democracia, em plena efervescência do regime militar. Nos dois primeiros anos, aturamos uma direção linha dura, certamente típica das regras governamentais em vigor no país. Para ilustrar, houve até mordaça de alunos com esparadrapo, o que depois foi motivo de risos, graça e brincadeiras entre nós. Mas devemos reconhecer: foi uma rigidez que nos fez conhecer melhor a disciplina.

    Nos dois últimos anos, Marlene César, justamente a habilidosa professora da disciplina Moral e Cívica, assumiu a direção da escola e pôs em prática uma democracia logo assimilada pelo corpo discente. Foi divino! A nova diretora interagia com todos, distribuindo simpatia, resolvendo os problemas, mas na hora de falar sério sabia como ninguém. Na festa de conclusão, deu total apoio à comissão de formatura; até veio a Campina Grande comigo, de ônibus, visando a aquisição de algo que não encontrava em Patos ou que fosse mais barato.

    A festa foi de arromba, no linguajar da época, resultado do trabalho realizado pelos alunos. Rifas, sorteios, pedidos, corrida ao comércio e aos sítios em busca de ofertas e ajudas. Davi, um dos concluintes, conduzia uma Rural nas viagens de coletas voluntárias por cidades próximas e sítios. Não é preciso dizer que ficava uma lata de sardinha.

    A satisfação pelo reencontro virtual é grande em todos, porém maior ainda é o desejo pelo restabelecimento de um contato físico. De preferência com uma “festa de arromba”. O que esperamos acontecer, vencida a pandemia, no momento adequado.

    Cordel dos encantados

    Marcos Dias Novo, administrador do grupo que agrega a turma reencontrada, é um polivalente. À época do colégio, já demostrava aptidão para as artes - caricatura, desenhos, música, teatro - e até o rádio. Mas é na poesia tipo cordel que nos surpreendeu, pois pouquíssimo ou nenhum dos colegas sabiam dessa verve. Modesto, ele não admite que é poeta a observar o título de suas estrofes: Minhas Rimas. Convenhamos ser um título muito pobre para rimas tão ricas.

    Até mesmo a última obra que tornou grupal, inspirada no nosso tempo ginasial, que tem a prolixidade que o tema exige, não mereceu um título especifico. Brincando, até sugeri que a intitulasse “Recordando Nosso Vera Cruz Encantado” ou “Cordel dos Adolescentes Encantados”. Ao reconhecimento de seu talento, diz ser generosidade dos amigos.

    Parece que a modéstia de Dias Novo me inspirou, além desse reencontro com a adolescência perdida num passado de aprendizado e descobertas. No primeiro decassílabo que li e percebi a modéstia autoral do amigo, veio uma vontade incontrolável de brincar com o seu sobrenome, também rimando e daí saiu um “pé-quebrado” que batizei de Modesto Marcos. A última vez que fiz uns, digamos, versos foi na década de 80.

    Igualmente picado pela abelha da inspiração, veio um impulso irresistível de homenagear com um acróstico Bonaldo, outro amigo colegial muito envolvido hoje na Igreja Católica da capital, que nos trata com extremo carinho cristão. Acabei escrevendo dois, vez que poucos dias depois a amiga-irmã Norma, que sempre manteve contatos com a minha família e tem uma consideração filial por minha mãe, também tinha data festiva. Inicialmente, o meu “pé-quebrado”, na sequência o poema nostálgico de Marcos e tire a sua conclusão.

    Modesto Marcos

    Marcos é mesmo modesto

    Daqueles bem disfarçados

    Faz versos, diz que é rima

    Poemas em Deus inspirados

    Na verdade, nossos cordéis

    Dirão os especializados

    ____

    Marcos só não é modesto

    Quando nega a sua idade

    Escondendo no sobrenome

    Sua aparência, uma vaidade

    Insiste em marcar nos Dias

    Que é Novo de verdade

    Minhas Rimas

    Marcos Dias Novo

    1

    É gostoso trazer sempre à memória

    Coisas boas vividas no passado,

    Indelével e está tudo gravado

    O lindo filme que retrata nossa história,

    Dos tempos áureos de uma bela trajetória

    Do bom ensino da escola que amei,

    Do Centro Cívico e da banda que toquei

    E as paqueradas desprovidas de maldade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    2

    Marlene César este nome é marcante

    No meu conceito a maior educadora,

    A Secretária Edileuza encantadora

    Na educação também foi uma gigante,

    Corpo docente de talentos rutilantes

    E serventuários que jamais esquecerei,

    Graças a esses eu cheguei onde cheguei

    As instruções no melhor da minha idade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    3

    Alguns se foram, mas a história não se finda

    Meu coração tem uma placa que reflete,

    As homenagens a seu João Belo e Bernadete

    Tânia Carneiro, Dona Sônia e Zé Benvinda,

    Tem outros nomes que eu não falei ainda

    Não por demérito só agora eu me lembrei

    De Leontina e outra ainda citarei

    Maria Ramos que era a servente da tarde

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei

    4

    As grandes festas que foram realizadas

    Aniversários outras comemorações,

    Os bons conselhos e as orientações

    No coração todas elas registradas,

    A nossa banda ensaios e alvoradas

    Minha corneta que tantas vezes toquei

    E a linda farda que com ela desfilei

    Garbosamente e cheio de vaidade

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    5

    Não se pode olvidar a confusão

    Eis que isso faz parte da história,

    Pois pichamos as paredes da Escola

    Já muito próximo a festa de conclusão,

    Quanta tristeza da rija repreensão

    Mas o perdão suplantou a dura lei,

    Vovó Isaura advogou a causa eu sei

    E a festa veio com muita pomposidade

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    6

    Fazemos parte de uma turma pioneira

    O ponto forte era a nossa unidade,

    Muito notável nossos laços de amizade

    Rompeu-se entraves, distâncias e as fronteiras,

    Sem recuar mesmo ante as barreiras

    Dias felizes que ali vivenciei,

    Vão na memória para sempre guardarei

    Doces lembranças de grande felicidade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    7

    Professores renomados que tivemos

    Dentre eles alguns mais achegados,

    Todos eles sem dúvidas dedicados

    E alguns aqui nós mencionaremos,

    Com Osman Geografia aprendemos

    Matemática Eunildo foi um rei

    Com Josemar na Ciência me encantei,

    Moral e Cívica Marlene celebridade

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    8

    Na História duas mestres destacadas

    A primeira Adalmira Cajuás,

    E a segunda se registre nos anais

    Será ela sempre a mais lembrada,

    Pois um dia ela será informada

    E a dos Anjos isso eu relatarei,

    Em minúcias para ela eu contarei

    Ficará ela inteirada da verdade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei

    9

    Do Inglês que é a língua universal

    Dona Liem foi a primeira presente,

    Depois Jandira falava fluentemente

    O seu inglês de uma forma especial,

    E eu aprendi somente o essencial

    Da língua estranha pouca coisa eu guardei,

    I love you é somente o que eu sei

    Mais não aprendi foi por falta de vontade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    10

    Todos nós levando a cadernetinha

    Para a música estudada copiar,

    E depois a gente tinha que cantar

    Boa pronúncia e sem errar cada notinha,

    Pois Padre Carlos bom ouvido ele tinha

    Eu não esqueço cada música que cantei,

    Dará um livro qualquer dia escreverei

    Que ficará pra minha posteridade

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    11

    Grandes figuras estiveram no caminho

    Como Adalgisa, Geovânia e Rosinete,

    O mago Aluce, Zoetânia e Lindembergue

    E o velho atleta nosso Professor Bastinho,

    As suas aulas eram sempre bem cedinho

    Todas elas quase sempre eu cochilei,

    E outras delas muitas vezes gazeei

    Muita preguiça para aquela atividade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    12

    Muito expressivo nosso professor Saraiva

    O grande músico Valdemir Campos Quirino,

    Tocava tudo até mesmo violino

    Bom no trompete, mas no sax ele brilhava,

    Além do mais era ator também cantava

    E muitas vezes ao seu lado eu toquei,

    Suas orquestras muitas delas eu cantei

    Em grandes bailes e muitas festividades,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    13

    Nas nossas mestres existiram três Marias

    Sendo uma delas a Maria de Jesus,

    Essa falava sobre o caminho da cruz

    Maria Medeiros tudo a gente aprendia,

    É bom lembrar também Maria Farias

    Penso que agora todos eles eu citei,

    Nessas estrofes que escrevi e declamei

    Com o coração e em total simplicidade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

    14

    Para que eu não cometa injustiça

    E ser taxado de o amigo da onça,

    Quase esqueci falar Luzia Mendonça

    Nome notável da nossa honrada lista,

    Muito ajudou em toda nossa conquista

    Por tais razões eu jamais me omitirei,

    Alçando a voz com blandícias eu direi

    Gratidão na maior profundidade,

    Visitei meu Vera Cruz senti saudade

    Dos tempos bons quando lá eu estudei.

  • Uma História de Fé

    11/06/2020

    Imagine logo na gravidez do primeiro filho, há mais de 60 anos, superar uma eclampsia e depois ainda conceber mais 12. Pode parecer teimosia, mas no seu caso, garanto, é a força e a propagação da fé.

    Imagine na gestação seguida, na confirmação positiva do teste, fazer uma promessa digna de um redentorista e de quem conserva uma convicção indiscutível: se for homem chamará Afonso; se mulher, Maria do Socorro. Prevaleceu o poder intercessor de Nossa Senhora, mas na barriga seguinte pôde cumprir com o santo da querida congregação. É a gratidão pela fé.

    Imagine ainda na segunda concepção, caminhar, indo e voltando numa procissão solitária, cerca de duas léguas, às vésperas do parto, para participar da novena em Bodocongó. É a praticidade da fé, no seu exato poder de superação.

    Imagine mudar-se, a contragosto, de sua cidade para outra e nunca perder a esperança de voltar, o que aconteceu sete anos depois. Antes, três meses após chegar à pequena cidade, nova mudança de lugar, justo no Dia de São José, para outro menos distante da de origem, porém com ares de metrópole. Isto é persistir na fé.

    Imagine morar três meses numa cidade e 50 anos depois, com mais de duas centenas de quilômetros de distância, ainda conservar sinceras amizades. Isto é fé nos amigos.

    Imagine costurar quase a vida toda, além dos afazeres domésticos e os cuidados maternais, para ter um ganho com seus próprios esforços, muitas vezes encarando cansativas madrugadas. Isto é fé no trabalho.

    Imagine consolar o primogênito adolescente na sua desesperança de voltar à terra nativa e na serenidade de sua confiança, dissipar lhe as dúvidas desse retorno ansiado. Isto é o avivamento da fé.

    Imagine percorrer quilômetros de ruas da cidade desconhecida em busca de bolsas de estudos para os filhos, deixando os afazeres domésticos e profissionais para depois. Isto é profetizar o futuro pela fé.

    Imagine enfrentar o radicalismo do cônjuge na sua nova opção religiosa, forçando sua companhia nos cultos e empatando-a de ir às missas; e ter a glória de ver seu retorno de forma fervorosa ao catolicismo anos depois. Isto é fé na Igreja que Jesus nos deixou.

    Imagine passar 50 anos casada (só a morte a separou) e conseguir, com a paciência de Jó e pela força da oração, que o marido se tornasse, nos últimos cinco anos, o esposo de seus sonhos. Isto é fé no matrimônio.

    Imagine perder o caçula numa tragédia(suicídio) que não desejamos a nenhuma família e, ao me ver horas depois do acontecido, dizer, sem sinais de

    revolta ou externar qualquer blasfêmia: Oh, meu filho, que dor que eu estou sentindo; só Deus é maior do que essa dor. Isto é fé inabalável.

    Talvez você esteja cansado de imaginar essa trajetória comigo. Não, não canse; imaginar é o exercício de fé. E foi esta a caminhada de fé de minha mãe, que chega aos 80 anos com a alegria e a serenidade que a fé nos traz.

    Ouso até discordar do mano Afonso quando disse que é fácil falar bem nossa mãe, difícil é ser ela. Eu acho que é impossível ser ela.

    Cleonice é glória, Cleonice é vitória escrevendo uma história com tintas de fé.

    Verdadeira irmandade

    Primogênito de uma prole de 13 filhos, dos quais 11 foram criados e 10 estão vivos, compreendo perfeitamente minha mãe por não preservar o costume de nos presentear. Exímia costureira, investiu o que ganhou no pedal da máquina na educação dos filhos e hoje vive da pequena pensão que papai deixou e da ajuda filial dos rebentos mais abastados. “Investir nos estudos dos meninos foi meu INPS”, diz, satisfeita e recompensada pela aplicação filial feita num passado de extrema dificuldade.

    Com tantos descendentes, seria no mínimo incompreensão nossa exigir que Dona Cleonice nos presenteasse mesmo em data significativa como a natalícia. Mas quando viaja para a casa dos que estão fora sempre se lembra dos netos e agora dos bisnetos, levando e trazendo uma lembrancinha, comprada ou de sua produção da costura, do bordado e do crochê.

    A prática da irmandade na nossa família é constante e preserva uma união que lhe traz imensa felicidade. Se existem pequenas desavenças, um mal entendido, alguma incompreensão, o sentimento de perdão em cada um aflora e o entendimento predomina.

    Mas é na disposição da ajuda mútua, na cumplicidade e no socorro às necessidades individuais o nosso maior exemplo de irmandade. Se um de nós se encontrar em dificuldade ou necessitando de alguma coisa, sempre aparece outro disposto a ajudar, a doar. Quem não pode ou não quer colaborar também não atrapalha.

    Sempre digo à mulher e aos filhos que nessa crise braba que estamos atravessando, meus nove irmãos têm sido um porto seguro. Com o carinho, a compreensão, o incentivo com uma palavra e até pecuniário. Até o silêncio deles me ajuda. Minha mãe não precisa me presentear, digo sempre, pois nas dores de seus partos, ela me ofertou os melhores presentes de minha vida: meus doze irmãos.

  • Não Serei o Lenhador de Augusto

    02/06/2020

    Se depender da aniversariante do dia, não serei o lenhador que Augusto explora e ainda terei a velhice que o poeta implora. Esta menina, embora carregue a zanga da mãe, me traz a tranquilidade paterna que um genitor anseia.

    Como Morgana me preenche de esperança! Pelo talento, pelo carisma, pela simpatia, pela beleza... Não a beleza externa que todos veem, mas a beleza interna que sensibiliza os sábios e desarma os brutos. Uma beleza alicerçada na fé; a fé que traz esperança.

    De tão divina, essa beleza interna de Morgana chega a ser profética, servindo-lhe de livramento; sempre vislumbra o perigo à frente. Aí, não lhe falta coragem para decidir, mesmo que, feito Maria, lhe trespasse o peito.

    Esta filha herdou de mim o gosto pelo trabalho e pelas festas. A intensidade de sua determinação trabalhista neutraliza qualquer ação mandonista patronal ou mesmo paternal. Sem causar ranço.

    Para ilustrar: no nosso comércio (quando estava funcionando), a porta de acesso tem uma chave no meio e um cadeado embaixo, fechando no piso. Para abri-la, giro no meio, me inclino para tirar o cadeado e levantar a porta; ela, até quando pôde nos ajudar, não me deixava abaixar de novo para pegar a peça de travamento, recolhendo-a numa rapidez admirável, poupando-me o agachamento necessário.

    Festa é com Morgana, mas com intensa responsabilidade. Certa vez fui falar com ela pelo seu excesso festivo, aí me calou: painho, puxei ao senhor, que numa festa só sai no lixo; a diferença é que o senhor não dança.

    Estou convicto de que essa filha não me será "uma árvore de empecilho". E nem precisará se "abraçar com o tronco", pois ela mesma tece para mim a velhice do poeta Augusto.

    A imagem pode conter: planta, grama, natureza e atividades ao ar livre

    Filhos nos surpreendem

    O jardim de nossa casa foi desativado tempos atrás, restando apenas a palmeira que já teimava (foi podada) agourar os donos. Bem antes de pavimentar o jardim, Glauber nos surpreendeu com esta foto de um cogumelo que surgiu entre a grama e as poucas plantas que ainda restavam.

    No clic do nosso filho, este corpo frutífero se agigantou de tal forma, que quase ficou na altura do gradeado de acesso ao interior da residência. O registro fotográfico me fez lembrar de Nicolau de Castro, Carlos Alberto e Leonardo Alves. Grandes profissionais com quem trabalhei no Diário da Borborema e Jornal da Paraíba.

    O nosso primogênito Helder, craque na informática, com curso no Redentorista, UEPB e metrado na área, é do tipo quieto, discreto e calado. Por isso tende a surpreender mais. Quando resolveu aceitar uma proposta de emprego em João Pessoa e, meses depois, quando ligou confirmando que tinha comprado uma moto. Até então nunca tinha pilotado uma.

    Logo deu uns treinos com um primo, iniciou na auto escola, fez todos os testes no Detran e conseguiu a aprovação, nos deixando a par de todo processo. Mas não disse quando recebeu a Carteira de Habilitação. No sábado da mesma semana que pegou o documento, uma insistente buzina de moto azucrinou quem estava em casa. Ao abrirmos o portão, ele entrou todo possante em cima de duas rodas. A mãe quase teve um treco.

    Sobre futebol


    Pessoal me perguntando se não vou escrever sobre futebol, essa monocultura do esporte brasileiro. A pretensão da coluna é ser plural, comentando sobre tudo e o esporte terá o seu espaço. Como estamos em quarentena fica para depois quando a normalidade se restabelecer, se é que vai ser normal.

    Trilogia humana

    Tenho projeto de conteúdo esportivo, mas, adepto do “Fique em casa”, dependo de pesquisas. Pretendo rememorar títulos e a bela campanha do Treze no Campeonato Brasileiro de 86; também títulos e jogos do Campinense. De inicio quero exaltar a trilogia que sustenta o ser humano: família, religião e amigos.

  • O Palavrão de Boldrin

    28/05/2020

    Um dia após a divulgação do ansiado vídeo da reunião presidencial com o seu ministério, estava eu na quarentena de minha casa, varrendo o quintal, quando me lembrei da música Palavrão, de Rolando Boldrin, que foi tema da novela Ovelha Negra, da Rede Tupi. A trama foi escrita por Walther Negrão e Chico de Assis e esteve no ar em 1975; tinha, além Boldrin no papel principal, atores do nível de Cleide Yáconis, Joana Fromm, Edney Giovenazzi, Jonas Bloch, Antônio Pitanga e até o homem do Trem das Onze, Adoniram Barbosa.

    A letra de Palavrão, quatro décadas depois, me parece atual. Castigando setores da sociedade e negando respeito e até usando o nome de Deus em vão. Desafiando e sem apreciar, almoçando, jantando, certamente berrando tantos palavrões, que, felizmente, não vêm a público; só em rara exceção, quando a Justiça determina. Grande é Deus! Que Ele nos livre daquele palavrão que nos atormentou por 21 anos e que parece nos, feito o que descreve a música de Vanzolini, rondar: ditadura.

    Vou te castigar de tudo quanto é jeito
    Não te respeito não

    Benza a Deus, mas que vontade louca
    Que me queima a boca nesse palavrão

    Vou te misturar no prato um desafio
    Não te aprecio não

    Benza a Deus, a gente almoça e janta
    Grita, berra e canta esse palavrão

    Vou te censurar a torto e a direito
    Não te aceito não

    Grande é Deus, maior o seu segredo
    A morte, o fim e o medo desse palavrão

    Vou te castigar de tudo quanto é jeito
    Não te respeito não

    Benza a Deus, mas que vontade louca
    Que me queima a boca nesse palavrão

    Benza a Deus, a gente almoça e janta
    Grita, berra e canta esse palavrão

    Grande é Deus, maior o seu segredo
    A morte, o fim e o medo desse palavrão

  • O Meu Mar

    26/05/2020

    Nos inícios dos anos 80, um vírus começou a me rondar, no Curso de Comunicação, e por três vezes tentei me defender do contágio, mas na terceira tentativa ele neutralizou completamente as minhas defesas. Desde então vivo uma quarentena que está na corrida do calendário matrimonial para comemorar Bodas de Esmeralda.

    Se neste 23 de março Margarida festejou o dom da vida, a data sugere uma comemoração dupla, pois justamente há 32 anos ficamos noivos. Para poucos meses depois subirmos ao altar.

    Como esse vírus tem me feito bem! Até mesmo nos momentos de zanga. Se a zanga chega repentinamente, impressiona a rapidez com que refaz a calma. E acalma a todos, desestimulando possíveis mágoas.

    Como essa mulher tem sido guerreira nesses tempos de crise! Sem qualquer pretensão, vem me professando uma realística lição nos meus intensos momentos de incúria; além de ser um exemplo titânico para os rebentos.

    Quando chega o verão, como no xote de Dominguinhos, é desassossego nas famílias interioranas, com a quase totalidade de seus membros querendo, e até forçando, uma temporada no litoral. Recarregar as energias no gostoso banho de mar e uma oportunidade para o descanso anual.

    Como minha inclinação não é litorânea e, se for o caso, ainda não a descobri, nunca passei temporada na praia. Quando muito, ficamos no máximo três dias. No mar, arrisco um mergulho leve, pois prefiro o paciente banho interno com a água ardente do engenho nas sombras dos coqueirais ou nas barracas à sua beira.

    Com certeza, não necessito viver no mar, viver o mar, pois tenho um mar que não seca em mim. Uma dádiva divina! Confesso que as vezes suas ondas me jogam nas pedras, mas antes que me choque nos pedregulhos marinhos me arrebata nos seus braços e me aconchega nas areias de sua praia particular.

    E esse mar, hoje e sempre, merece os meus, e de todos os meus, parabéns.

    Eu não preciso viver no mar, eu tenho o mar... Margarida.

    ARIANAS

    Talvez por uma solidariedade involuntária à minha mãe, que é ariana de abril, outras duas mulheres da minha vida também são de Áries. Com a diferença que descentes de março, uma de 23, outra de 27. Aproveitando a quarentena, homenageei o trio feminino do meu coração com palavras de amor e carinho.


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