Colunista Vanderley de Brito

  • O VELHO OESTE PARAIBANO

    20/02/2018

    Os sertões da Paraíba começaram a ser desbravados em meados do século XVII por sertanistas sesmeiros para a implantação de currais. Todavia, esses sertões eram ocupados pelos temidos índios Tarairiú, nativos rudes de quase dois metros de altura que formavam inúmeras tribos, como os Janduí, Ariú, Canindé, Pega e Sucuru. Além destes tapuais os sertões eram ocupados também por de duas tribos de etnia tupi, os Panati e os Curema, que após a expulsão dos holandeses fugiram para esses longínquos evitando as represálias por terem lutado ao lado dos neerlandeses.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Obviamente houve desacordos, uma vez que os pecuaristas invasores soltavam seus gados nos territórios indígenas, que não compreendiam a noção de propriedade e consideravam esses animais objeto de caça. Resultado: em 1682 foi deflagrada nos sertões a chamada “Guerra dos Bárbaros”, um período sinistro da História da Paraíba onde milhares de nativos foram empalados e mortos pelos exércitos colonizadores comandados pelo capitão-mor Theodósio de Oliveira Ledo e formado, principalmente, por bandeirantes paulistas a serviço do terrível Domingos Jorge Velho, um mercenário desumano que depois também seria o responsável pela destruição do Quilombo de Palmares.

    O enredo histórico da conquista do velho oeste paraibano é fantástico, sem dúvidas, e ciente desta perspectiva, com muita ousadia, o jovem historiador e cineasta Erik Brito resolveu converter o tema em série de cinema, em seis episódios, e os trabalhos desta superprodução cinematográfica já estão em marcha. O filme terá o título “Ybynháraã”, um termo indígena que quer dizer “onde começa o sertão”, vocábulo hoje aportuguesado para Espinharas.

    Com atividades a mil por hora, recentemente a equipe de direção do filme me convidou para compor o quadro de consultores, na qualidade de historiador, etnólogo e filólogo, e na noite da última sexta-feira participei de uma reunião muito dinâmica, onde pude compreender um pouco mais deste projeto. Estavam presentes na reunião o diretor-geral Erik Brito, o assistente de direção Cícero Alves Barros, o diretor de arte e figurino Ângelo Rafael Farias, o diretor de fotografia Edmilson Roberto, o consultor de armamentos antigos Laerte Ferreira e também a bela memorialista Maria Ida Stenmüller na qualidade de consultora de administração.

    A reunião foi muito educativa, esclarecedora e interessante. O lema em pauta da reunião era: “Fala de tua província e serás universal”, evocando a valorização do tema regional, e foram apresentados inúmeros estudos iconográficos sobre vestimentas, indumentárias e tecnologias armamentistas do medievo paraibano, tanto do plano luso-brasileiro quanto do aspecto ameríndio. Além de figurino e embasamentos históricos, tecnológicos e antropológicos, a reunião tratou também das escolhas de cenários naturais, sugestões para elenco, estratégias de divulgação e outras questões relacionadas a vídeo, áudio, produção, direção, fotografia, arte e platô.

    A maior parte da equipe é formada por jovens, o próprio diretor-geral tem apenas 23 anos, mas me impressionou a capacidade destes meninos, bem como a competência e a seriedade com que conduzem o projeto. Sinceramente, me senti privilegiado em fazer parte de mais este momento histórico da Paraíba, onde poderei não apenas ver o resultado de tanto empenho e inteligência, mas também saborear in loco cada aspecto intrínseco da remontagem cênica do que foi um dos períodos mais agitados e definitivos para a conquista e ocupação do velho oeste paraibano.

  • Adornos indgenas de amazonita na Paraba

    16/02/2018

    Os povos ameríndios sabiam trabalhar rochas com destreza, herança de seus remotos ancestrais da cadeia evolutiva humana, e com os mais diversos minerais oferecidos pela natureza produziam utensílios, adornos, talismãs e ferramentas. Alguns destes artefatos eram rústicos, mas nossos antigos nativos também faziam objetos meticulosamente trabalhados, que ainda hoje intriga todo aquele que desdenha das capacidades artísticas dos povos ditos “primitivos”.

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    Na Paraíba, que possui um dos mais ricos acervos mineralógicos do país, já foram encontrados diversos e interessantes objetos de arte lítica ameríndia, produzidos por meio de lascamento ou polimento, seja em gnaisse, diorito, hematita, calcedônia, quartzitos e muitas outras rochas, com estilos bem definidos de tradições e engenho para uso prático. Todavia, o que mais impressiona na cultura lítica ameríndia são as esculturas, contas e pingentes que sempre se acham confeccionados em pequenas gemas, cuja engenhosidade é tamanha que custa acreditar terem sido feitos sem o uso de furadeiras, esmeris e outros instrumentais da tecnologia moderna. Intriga a simetria destes objetos, a precisão com que eram perfurados e dentre as inúmeras gemas que encontramos com relativa facilidade nas regiões pegmatitas da Paraíba, a amazonita era a que mais agradava aos primitivos artífices de adornos líticos.

    A amazonita é uma variedade do feldspato muito encontrada no Nordeste brasileiro e foi largamente utilizada por populações pré-históricas. Sua coloração variante entre o verde e o azul encanta, como as íris de uma princesa, e é uma rocha também agradável de tocar, pois esse tectossilicato tem textura terna e suave.

    Na Paraíba, em sua forma bruta, a amazonita ocorre vulgarmente em diversas regiões, já a encontrei em expedições nos municípios de Picuí, Pedra Lavrada, Junco do Seridó, Taperoá e ainda tive a oportunidade de visitar uma producente mina deste mineral no município de Prata, no sul do Cariri, onde adquiri um belo exemplar para minha coleção mineralógica (foto). Do mesmo modo, os achados de peças arqueológicas fabricadas a partir dessa gema são profusos em toda a Paraíba:

    Na zona rural do município de Soledade, numa prospecção próxima a encosta do riacho Arruda, encontramos diversas contas-de-colar pré-históricas modeladas em amazonita, que hoje fazem parte do acervo do museu da cidade. No mesmo município de Soledade, no sedimento de um cemitério indígena, em 1957 os amigos pesquisadores Carlos Alberto Azevedo e Inocêncio Nóbrega também encontraram contas semelhantes, no ano seguinte o pesquisador Leon Clerot encontrou também um amuleto de amazonita perfeitamente polido e perfurado em sentido longitudinal no solo de um cemitério indígena na serra da Raposa, município de Pocinhos, e em 1965 o padre Luiz Santiago achou dois tembetás (enfeites de beiço) na região de Alagoa Nova, salientando também que nosso velho amigo Balduíno Lélis possui belos tembetás de amazonita em seu acervo museológico, todos procedentes da Paraíba, e, mais recentemente, o colega o

    Dennis Mota também encontrou um belo pingente neste mineral numa furna na região serrana de Pirauá.

    Estes diversos achados atestam que as sociedades ameríndias que viveram na Paraíba em tempos remotos possuíam engenho para confeccionar pequenos adornos em amazonita e até nutriam certa veneração pela gema, que desde tempos muito recuados era tida como “pedra divina” (como registrou Spix e Martius), ou “pedra da felicidade”. Os indígenas amazônicos chamavam estes objetos de muiraquitã, cuja tradução é: “miçanga de pedra”.

  • Uma breve reflexo sobre a Pedra do Ing

    05/02/2018

     

    Há milhares de inscrições rupestres nos rochedos do Brasil, entre pinturas e gravuras de baixo-relevo. Dentre tantas, a Pedra do Ingá é, sem dúvidas, a mais profusa, complexa e esmera que se têm notícias. Todavia, ainda não existe um consenso científico sobre a real antiguidade deste monumento rupestre ou quem poderia ter sido seus autores. Uma vez que não se registra nenhum parâmetro cultural entre os indígenas contatados pelos colonizadores lusitanos e os registros pétreos que decoram as paredes do lajedo do riacho Bacamarte.

     

    Na região da Serra da Capivara, no Piauí, a pesquisadora Niéde Guidon descobriu vestígios da presença humana comprovando que o homem vive no nordeste brasileiro desde pelo menos cinqüenta milênios. Por isso, é ingênuo imaginar que os povos encontrados por Cabral em 1.500 eram sempre os mesmos que habitaram o território durante toda a pré-história.

    Quando da chegada dos europeus ao continente, as tribos e nações indígenas estavam em constantes conflitos, principalmente porque os indígenas Tupi se encontravam em expansão territorial. Já dominavam toda a costa brasileira e estavam se estendendo para o interior, enquanto outros grupos reduziam em população e, cada vez mais, perdiam território. Esse foi o cenário encontrado pelos portugueses. Portanto, se a “descoberta” tivesse se dado em outro período, anterior ou posterior aquele registrado, a História teria sido outra. Estaríamos hoje falando de outras populações, outros parâmetros culturais.

    Levando-se em conta a dinâmica de sobreposições de culturas, talvez quinhentos anos antes da chegada dos europeus outros povos teriam seus domínios. Ou se o episódio da conquista tivesse se dado quinhentos anos depois, talvez muitos grupos já tivessem sucumbido ao poderio bélico dos Tupi.

     

    Quantas outras culturas, mais adiantadas ou mais primitivas, teriam vivido nos diversos períodos de nossa milenar pré-história e foram extintas ou aculturadas por novas levas migratórias ou fenômenos diversos?

     

    O tempo não reflete o grau de desenvolvimento das populações. Podemos tomar de exemplo à prestigiosa sociedade egípcia, que viveu um apogeu civilizatório impressionante há cinco mil anos e, com o tempo, ao invés de evoluir, regrediu. Até ao ponto de suas suntuosas construções tornarem-se ruínas sem que nenhum dos habitantes do Egito pudesse esclarecer a origem daquelas construções. Para que se possa ter uma idéia, se não fosse o estudioso Chapollion, que decifrou os hieróglifos egípcios, ainda hoje não saberíamos o que são aquelas construções ou quem foram seus executores. Seria tão ignoto quanto a Pedra do Ingá o é.

     

    A sociedade que burilou as inscrições do Ingá, e outras itacoatiaras de teor fac-símile que existem difundidas a esmo por todo o Nordeste, segundo estas perspectivas teóricas, seria, talvez, alguma das muitas civilizações que, num período remoto, tiveram seu florescimento, apogeu, declínio e extinção num dado período da extensa pré-história, cujos parâmetros culturais perderam-se na bruma dos tempos idos.

     

    Isso explicaria o fato dos indígenas do período colonial, quando questionados, não saberem responder sobre a origem ou significado destas curiosas inscrições em rochedos existentes por quase todo o país.

     

    A Pedra do Ingá talvez seja a mais sofisticada expoente de inscrição incisa em rochas já feita na pré-história ameríndia e não seria absurdo supor que talvez represente o grau mais elevado deste gênero de manifestação parietal.

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