Colunista Vanderley de Brito

Historiador com especialização em arqueologia, escritor, genealogista, poeta, roteirista para teatro e cinema, articulista e artista plástico. Autor dos livros “A Serra de Bodopitá”, “A Pedra do Ingá”, “Arqueologia na Borborema”, “Missões na Capitania da

  • A identificação de um povo está na história que deve ser preservada

    08/08/2019

    Fundado em 21 de outubro de 1838, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) é a mais antiga e tradicional entidade de fomento da pesquisa e preservação histórico-geográfica, cultural e de ciências sociais do Brasil. Mas um instituto dessa natureza, não surge assim do nada, invariavelmente é fruto de mentes pensantes preocupadas com a preservação e o desenvolvimento, no caso específico do IHGB foi uma proposta do cônego Januário da Cunha Barbosa e do Marechal Raimundo José da Cunha Matos. Portanto, se tratando de entidades não governamentais, os institutos históricos criados ao modelo do IHGB, por se tratarem de iniciativas de grupos individuais e voluntários, refletem que a área política-geográfica para a qual foram criados, seja contemplando um estado ou um município, há indivíduos engajados na causa de preservação de documentos e fomento às pesquisas referentes à historicidade da extensão territorial a que se destina.

    Desse modo, não seria nenhum despropósito afirmar que a existência de um instituto memorialista a serviço de uma fração político-territorial reflete que sua sociedade possui um grau de interesse histórico-cultural, uma vez que emerge da própria comunidade o interesse voluntário preservacionista.

    A cidade de Campina Grande, que desde fins do primeiro meado do século XX se sobressai como um dos centros populacionais mais importantes do Nordeste, tendo um desenvolvimento econômico nesses tempos maior até do que a capital do Estado (João Pessoa), naturalmente, como reflexo desse desenvolvimento, gerou uma ebulição pensante que logo começou a se preocupar com a historicidade local, com destaque para Epaminondas Câmara, que a partir de 1938 começava a estudar e divulgar documentos para a História de Campina Grande, e Hortensio Ribeiro, que também nesse ano dirigia o Centro Campinense de Cultura, onde se congregavam outros intelectuais campinenses como Mauro Luna, João da Cunha Lima, João Mendes, Carlos Agra, Lopes de Andrade e Elísio Nepomuceno. E foi a partir desses movimentos em gestação que, em 1943, Epaminondas Câmara lançava a pedra fundamental para a historicidade campinense, com seu livro pioneiro “Os Alicerces de Campina Grande” e, anos depois (1947), publicava o livro “Datas Campinenses”, onde desenvolvia um esboço cronológico de apontamentos para a História de Campina Grande.

    Com esses primeiros resultados, a corrente memorialista campinense cada vez mais ganhava adeptos, culminando no dia 24 de janeiro de 1948, quando o então prefeito da cidade, Elpídio de Almeida, e outros intelectuais, como os próprios Epaminondas Câmara e Hortensio Ribeiro, fundaram o Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande, que foi a primeira entidade protetora e promotora da memória de um município criado na Paraíba.

    Todavia, uma instituição desse porte não consegue se sustentar somente com a boa vontade de seus associados, requer auxílio governamental para que possa funcionar minimamente como casa de memória. Mas, infelizmente, memorialistas e governantes comungam ideais divergentes, são como água e óleo, não se agrupam. Memorialistas são sempre minorias e ações públicas em favor da Memória não rendem votos.

    Entretanto, apesar dos inúmeros obstáculos, um memorialista é um idealista consciente de seu papel em favor da sociedade e seu patrimônio cultural, de modo que

    não arrefece de seus propósitos. Mesmo sem a cumplicidade da maioria da sociedade, que mal compreende o alcance dos bens histórico-culturais, persiste tenazmente em seus ideais. E é desse modo, com resistência à indiferença, que o Instituto Histórico de Campina Grande vem sobrevivendo há mais de setenta anos. Sem sede própria e a mercê de inúmeras adversidades, o IHCG foi extinto dez anos depois de sua primeira fundação. Foi recriado em 1970 para ser extinto outra vez em 1985, novamente recriado em 1997, sendo igualmente extinto em 2000 e, pela quarta vez, recriado em 2012.

    Mediante tantos desacertos e empecilhos, o natural seria que a iniciativa de se tentar dotar Campina Grande de uma casa de memória fosse abandonada. E foi, por três vezes, mas essa resiliência de se recriar o Instituto tem um motivo de ser: a consciência intelectual de seu povo, que é perene desde que a cidade amadureceu para a cognição histórico-cultural. É impensável uma sociedade de maturo cultural e metropolitano não gerar continuamente seres sensíveis à conservação e fomentação sócio-identidária. A preservação deste propósito está na essência do povo.

    *Historiador, Arqueólogo e Presidente do Instituto Histórico de campina Grande.

  • O túmulo de Irenêo Joffily

    02/07/2019

    Amanheceu nublado o dia 07 de fevereiro de 1902 em Campina Grande, pois, dum vistoso casarão branco, de oitões livres, com três janelas de frente e seis de lado, quase em frente à Igreja Matriz de N. S. da Conceição, saia o ataúde de Irenêo Joffily, conduzido modestamente por matutos, de pés no chão e saco às costas, com destino à sua última morada, no cemitério do Carmo, no Monte Santo. Hortensio Ribeiro, que ainda menino presenciou, ficou impressionado com a simplicidade daquele cortejo fúnebre, por se tratar de um homem de posses e grande importância, mas todos na cidade sabiam a devoção que Joffily dedicara à causa dos matutos.

    Numa trajetória de advogado, promotor público em São João do Cariri, Juiz municipal em Campina Grande, cronista, vereador por Campina Grande, deputado provincial, e ainda foi eleito deputado geral, mas a proclamação da república lhe cassou o cargo antes mesmo de assumir. Foi também jornalista, fundando em 1888 uma folha sabática intitulada Gazeta do Sertão, o primeiro jornal semanário de Campina Grande. Somado a tudo isso, além de militante republicano e abolicionista, com afinco, Joffily se dedicou à pesquisa histórica e geográfica do Estado, tanto de campo como de arquivos, publicando em 1892 o livro “Notas sobre a Parahyba” e, em 1893, “Sinopse das Sesmarias da Capitania da Parahyba”, livros que ultrapassa em muito a simples compreensão intelectual dos fatos. Enfim, nesse dia nublado, Campina Grande e a Paraíba perdiam seu mais insigne idealista e historiador.

    Enfermo de hanseníase, Joffily faleceu com 59 anos de idade. Seus restos mortais ainda hoje jazem no Cemitério do Monte Santo. Unicamente os seus, pois os de sua viúva e de seus sete filhos não foram depositados na tumba. Não se sabe quando, mas a família Joffily partiu de Campina Grande. Há registros de que pelo menos até 1920 sua esposa Rachel ainda residia na cidade, mas em pouco tempo todos deixaram a Rainha da Borborema e o túmulo onde jazem os despojos de Joffily ficou em total abandono.

    Por quase um século sem cuidados, como um leproso na alameda principal do cemitério do Monte Santo, o túmulo de Joffily acumulou uma crosta de matéria preta e gordurosa, produto da decomposição de poeira com detritos vegetais, denunciando sofrer de descuido. Mas, sensibilizado com o estado amnésico em que se encontrava o jazigo daquele que foi um dos maiores vultos da Paraíba, o Instituto Histórico de Campina Grande, numa sessão especial de diretoria, decidiu que, daqui por diante, se responsabilizaria pela sua manutenção e zelo, de modo que, no frescor de um sol tímido, em 07 de fevereiro de 2019, aniversário de 117 anos de sua morte, o IHCG mobilizou uma equipe, com baldes e escovas, para uma lavagem e reparos do túmulo.

    A ação, que foi coroada por um arranjo de flores, demonstra que, embora voltemos todos ao pó, a imortalidade de uma pessoa está ligada à memória de seu talento e contribuição para com a sociedade, e Joffily foi um desses, cuja vida não foi em vão.

    Vanderley de Brito é historiador, arqueólogo e presidente do Instituto Histórico de Campina Grande.

  • Passando de passagem por Passagem

    19/06/2019

    Dentro de um imenso anfiteatro natural, um vale compreendido entre fascinantes serras, a impressão que sentíamos era de insignificância em meio ao magnífico quênio que se forma no Vale do Farinha, corredor natural, entre desfiladeiros, que dá entrada ao Sertão das Espinharas. Ybynharaã, diriam os indígenas tapuias se estivéssemos em meados do século XVII, termo corrompido hoje para espinharas, que em língua nativa queria dizer “começo do Sertão”. De fato, o Sertão da Paraíba se inicia exatamente onde os contrafortes do Planalto da Borborema declinam para se igualar aos terrenos pediplanos dos sertões patoenses, e o acesso mais viável (menos íngreme) se dá pelo Vale do Rio Farinha.

    A cidade de Passagem fica exatamente na desembocadura do Vale, à base da majestosa Serra do Firmiano, cujo umbral forma boqueirão com a serra oposta, a chamada Serra do Abra, e abre caminho aos horizontes sertanejos, por isso, desde tempos coloniais, o nome do lugar é “Passagem”.

    A cidade é pequena, teve seu desenvolvimento atrofiado quando a velha rodovia (atual BR 230), que antes seguia o Vale do Farinha, nos tempos da implantação de sua cobertura asfáltica foi desviada por interesses políticos para descer a Serra de Santa Luzia. Poderíamos dizer que essa arbitrariedade de interesses coronelísticos de certo maneira foi favorável, pois as cidades do Vale do Farinha estagnaram no tempo, de modo a manter sua originalidade histórica e suas formações naturais, que, diga-se de passagem (sem trocadilho), tem uma beleza geomorfológica de tirar o fôlego.

    Todas essas impressões perpassavam por minha mente enquanto, juntamente com meu filho, apreciávamos a paisagística daquele recanto de mundo esquecido. Havia alguns meses que vínhamos nos empenhando em escrever a história do lugar, vasculhando documentos velhos e visitando os recantos mais insólitos do município para recolher dados.

    Na verdade eu entrei nessa história por acaso, desígnio, talvez. Tudo começou em fevereiro de 2017. Meu filho Erik Brito, que também é historiador, foi contatado pelo prefeito da cidade, Magno Martins, para orientar sobre um museu que se pretendia criar na cidade, ele aceitou o convite e me convenceu a ir também a título de acompanhante. No entanto, enquanto trabalhávamos na montagem do museu, fomos nos aprofundando na história local com o mero objetivo de buscar identificar o museu com o processo de desenvolvimento do lugar. Mas, no curso de nossa pesquisa, percebemos que a dita “História oficial” do município estava eivada de falhas e inverdades que precisavam ser revistas. Quando expomos ao prefeito essa situação fomos surpreendidos com a desafiadora proposta de reescrevermos a História de Passagem.

    O prefeito Magno, embora seja um homem simples, é dessas pessoas que tem um interesse incomum por tudo que relaciona à cultura e à memória, e nos deu todo o apoio necessário para a pesquisa. Por questões metodológicas, eu fiquei encarregado de escrever a história colonial e imperial do município (tenho uma simpatia natural em retroceder no tempo e penetrar no longínquo do passado), e os tempos ditos contemporâneos ficaram a cargo de Erik. Mas logo percebemos a imensa dificuldade de amealhar documentos sobre o município, que é relativamente novo, e também o

    prazo que nos foi concedido era curto para montarmos uma história plausível nos moldes técnicos de se historicizar uma região cujos primórdios de colonização remontavam o século XVII. O desafio parecia mais desafiador do que imaginávamos, e era exatamente nesse dilema em que nos encontrávamos, enquanto envolvidos (literalmente) pela paisagística dos sertões das Espinharas.

    Alé