Colunista Vanderley de Brito

Historiador com especialização em arqueologia, escritor, genealogista, poeta, roteirista para teatro e cinema, articulista e artista plástico. Autor dos livros “A Serra de Bodopitá”, “A Pedra do Ingá”, “Arqueologia na Borborema”, “Missões na Capitania da

  • A Pedra de Santo Antônio

    27/03/2019

    A Pedra de santo Antônio situa-se no município de Fagundes, no alto da Serra de Bodopitá (no trecho que no passado se chamava Serra do Quati), numa altitude de 720m, e trata-se de um gigante monumento granítico, chegando a medir 15m de altura por 8m de largura, cuja magnitude apresenta total destaque na paisagística da Serra.

    O monumento granítico é de fundamental importância cultural, religiosa e econômica para a comunidade fagundense, pois se trata de um local de peregrinação cristã desde fins do século XIX em virtude de uma lenda relacionada a uma imagem de Santo Antônio que possuía poderes extraordinários.

    Conta a lenda que em 1877, devido a grande seca, o Sr. José Felisberto da Silva deixou sua terra natal, em Pernambuco, em busca de uma localidade onde houvesse melhores condições de sobrevivência. Trouxe consigo dois escravos e chegando às fraldas da Serra do Quati, mandou que os mesmos saíssem em exploração. No cume da serra, os escravos se depararam com o grande monumento natural de granito o qual resolveram escalar através de uma gameleira que havia encostada na pedra. A caminho do dorso do monólito os negros, com surpresa, viram numa saliência da pedra uma estatueta de santo. Não mexeram nela, a deixaram exatamente onde estava, mas ficaram curiosos de como e por qual mãos aquela imagem teria chegado ali.

    A notícia se espalhou e o padre da então Vila de Fagundes resolveu reunir alguns fiéis para irem até a Serra se certificar do falatório. Chegando ao monumento, constatou-se que se tratava de uma imagem de Santo Antônio, mas dessa vez trouxeram-na em procissão até a igreja da Vila. Dias depois, a imagem misteriosamente sumiu do altar da igreja e a mesma foi reencontrada na fenda do matacão do alto da serra e trazida de volta à igreja da Vila. Passado mais alguns dias, novamente a estátua desapareceu da igreja, sendo novamente encontrada no mesmo lugar e outra vez a retornaram á igreja. Dias depois veio o terceiro desaparecimento e os fiéis foram em procissão até a pedra resgatar o santo. Entretanto, dessa vez constataram que a gameleira que oferecia acesso ao local onde a estátua teimava em voltar havia caído, sabe lá por que forças, e só assim ficou entendido que a imagem desejava ficar em seu santuário natural. Segundo consta, foi desse modo que se iniciou o ciclo de visitas religiosas à Pedra de Santo Antônio. Acredita-se que se o romeiro passar por uma fenda que se forma entre a pedra e o lajedo que a suporta, realizará seus desejos junto ao santo, especialmente intensões matrimoniais já que Santo Antônio é considerado o santo casamenteiro.

    Uma particularidade que poucos conhecem a respeito desse monumento são os atributos arqueológicos da Pedra de Santo Antônio, que também foi um local de cerimonial primitivo. Uma vez que, em sua face norte, há resquícios de inscrições rupestres pré-históricas. Infelizmente, a maior parte de seus registros rupestres subjazem na fuligem produzida ao longo de mais de um século pelas milhares de velas que são acesas no local, uma vez que as pinturas primitivas se localizam exatamente na lapa natural onde os visitantes realizam suas promessas e orações para o santo católico.

  • Entre as ruínas da antiga povoação de Pedro Velho

    11/03/2019

    Escorado num pilar erguido entre os escombros do que outrora fora a antiga povoação do Pedro Velho, contemplei a desolada vista que se descortinava à minha frente. O vale estendia sua solidão, tudo por ali estava calmo, não havia movimento algum e não se via vivalma em meio aqueles entulhos do passado, somente alguns mugidos vinham de algum lugar impreciso daqueles horizontes errantes.

    O sol estava quente e com o lenço enxuguei o suor da testa e do pescoço. Uma serra adiante, no formato da curva de um seio na penumbra, apresentava uma linha longitudinal na meia-encosta que dividia a vegetação em cores e viços, denunciando a altura que alcançava o Açude de Acauã quando cheio. Mas uma estiagem longa vinha assolando a Paraíba nos últimos anos e foi com a baixa das águas que a povoação em escombros voltou à tona, ruínas que estavam imersas a uns oito metros de profundidade desde quando foi inundada, no rigoroso inverno de 2004, devido a barragem erguida ali nas ombreiras da serra de Acauã para obstaculizar o curso do Rio Paraíba e formar o açude.

    Pedro Velho era uma das mais antigas povoações da Paraíba, o mais remoto registro que encontrei de sua existência é de 1756, mas por certo é mais antiga, talvez até mais do que a povoação de Boqueirão, pois está inserida na Data de Terras de André Vidal de Negreiros, a primeira concedida no interior paraibano.

    A pequena comunidade, com suas edificações (residências, mercado público, matadouro, grupo escolar, igreja e praças) e rodeada de alguns tratos de terra que bastavam para suprir as necessidades da vida cotidiana, esteve submersa por anos, como a lendária Atlântida, mas agora, emersa das águas, eu caminhava como um sobrevivente de guerra por entre escombros e veredas poeirentas.

    Sussurrando dúvidas e sentindo o aroma herbáceo da melosa, que impregnava aquele ambiente ribeiro, à medida que eu andava pelas antigas ruelas, por vezes as cenas do dia-a-dia monótono da antiga comunidade eram revividas com nitidez absoluta na minha mente, e outras vezes, nas veredas do lugarejo histórico, eu me sentia como um viajante entre os frontões do Partenon de Atenas.

    Depois de caminhar bastante cheguei ao pátio disforme onde estava o cemitério da povoação e ali, entre os túmulos espantosamente rígidos, embora bem gastos pelos anos, senti como se estivesse caminhando no submundo de Hades. Era o local que eu pretendia encontrar, minha estada ali fazia parte de um projeto genealógico, pois queria encontrar o túmulo de meu bisavô, Francisco Cosme de Brito, que ali foi sepulto.

    Prematuramente, meu bisavô morreu aos 59 anos de tuberculose, em 1918, deixando nove filhos, entre os quais meu avô paterno e meu avô materno, que eram irmãos. Quando meu bisavô ainda estava doente, seu irmão mais velho, Manoel Cosme de Brito, que morava no Pedro Velho, veio lhe visitar no Sítio Ramada, de Boqueirão, e percebendo a gravidade de sua doença decidiu levá-lo para que pudesse se tratar, já que tinha um médico amigo seu em Natuba, mas nesses tempos essa doença era incurável e meu bisavô faleceu no Pedro Velho, longe de sua esposa e filhos, e agora seus restos mortais estavam ali, em alguma tumba daquele antigo cemitério emerso.

    Depois de vaguear por entre os túmulos em formas de caieira, modelo arquitetônico-tumular típico do século XIX, constatei que nenhum dos jazigos tinha indicativo de seus mortos, sentei desapontado sobre o frontispício de um mausoléu ostentoso, o maior daquele relicário de mortos.

    O vento entoava breves melodias ondulantes, como que vociferando o silêncio dos invisíveis, e na reverberação acima da terra ressequida de vez em quando pude ver um lampejo de aparição que, como uma miragem, desvanecia. Com um leve sorriso afaguei a alvenaria do mausoléu em busca de alguma resposta, pois como ensina Tomaz de Aquino, nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos.

    Vanderley de Brito é Historiador, Arqueólogo e Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande.

  • Em torno do Açude Velho

    27/02/2019

    Numa constante velocidade de 5mph, há mais de trinta anos faço meu cooper de fim-de-tarde no Açude Velho, um ambiente saudável que causa uma profunda sensação de bem-estar, especialmente quando, entre os elegantes arranha-céus, o poente começa a tingir-se de um vermelho luzente.

    Em formato oblongo e orla de dois quilômetros de circunferência, o Açude Velho é o principal cartão postal de Campina Grande e um espelho d’água de belo potencial urbano-paisagístico. Cercado por grandes palmeiras imperiais, quiosques, monumentos de arte, ciclovia, pista de passeio e imponentes edifícios de traços modernos, que se moldam em perfeita harmonia com os ipês e buganvílias que ao longo de seu entorno elíptico dão um colorido especial à ambientação.

    Incorporado ao cotidiano de Campina Grande desde tempos muito recuados, o manancial já era uma lagoa natural antes de se tornar açude, pois uma sesmaria de 1781 já fazia referência “a lagôa das terras que foram dos índios da Missão da Campina Grande” e a obra de Aires de Casal, editado em 1817, trata da Vila da Rainha, vulgo Campina Grande, onde diz textualmente que “seus habitantes bebem duma lagoa contígua”. Portanto, a aldeia de Campina Grande nasceu contígua à lagoa rasa que posteriormente, entre 1829 e 1831, seria convertida em presúria, com sólidas paredes de retenção erguidas em pedra e cal para aumentar sua capacidade de retenção hídrica.

    O Açude foi construído para abastecer a população da então Vila Nova da Rainha, sendo à época o maior reservatório público da chapada da Borborema e indubitavelmente é também um grande depositário de material arqueológico, entre fósseis de animais quaternários, pontas de flechas em sílex, artefatos cerâmicos além de objetos coloniais e novecentistas. É fato inquestionável que no movimento do Quebra-Quilos, ocorrido entre 1874 e 1875, os rebelados jogaram os pesos e medidas confiscados dos comerciantes nas águas do Açude Velho e, certamente, esses objetos ainda se mantém guardados na lama de fundo do velho Açude.

    No começo do século XX, em meio às tabocas, no Açude Velho se viam marrecas, paturis, pássaros em um prado coberto de grossas capoeiras, com soberbas baraúnas, entre outras árvores lenheiras, e veredas formadas pelo cotidiano banho da manhã. Nos arredores, havia casebres de gente humilde, carregadores de água, lavandeiras, pescadores de traíra, tombadores de algodão e carregadores de mercadorias em carroças puxadas por juntas de bois pelas ruas sem calçamento que começavam a nascer ali com a chegada da estrada de ferro em 1907.

    Ostentoso de histórias, o Açude Velho sempre esteve no cotidiano campinense, nos banhos públicos diários, nas pescarias, os inúmeros afogamentos ocorridos, os períodos de fedentina que mexiam com a opinião pública sobre a qualidade de suas águas e até as atuais atividades de recreação diárias do lugar. Tombado desde 2001 como patrimônio de Campina Grande, o Açude Velho possui uma suprema elegância, pois devido a falta de um código de postura para as edificações em seu entorno, cada vez mais o ambiente vem se enfeitando de enormes arranha-céus fazendo deste logradouro um dos mais formidáveis atrativos para a sociedade de Campina Grande.

    Entre belas garças despreocupadas e pessoas de aspecto alegre vou correndo sem pressa e respirando em profundos haustos o ar reconfortante daquela encantadora paisagem. Sem pretensão de flerte passo sorrindo para uma moça, que corresponde ao meu sorriso. Parecendo querer realçar ainda mais o quadro de embelezamento do ambiente, ela possuía um belo busto e não usava soutiens. De metro a metro uma nova curiosidade recreativa vai me distraindo, enquanto isso a noite vem se prenunciando no céu e o entorno do Açude Velho, em indescritíveis cambiates, vai adquirindo novos matizes.

  • Cidade Mulher

    19/02/2019

    A etimologia de um nome de lugar encerra uma recordação que se vai transmitindo na oralidade até seu sentido perder-se gradativamente na obscuridade do tempo. Alguns topônimos são difíceis de encontrar seu étimo, especialmente os derivados de línguas indígenas, mas o nome da cidade de Campina Grande é aparentemente simples, pois já remete a um relato de espaço topográfico. No entanto, este nome de lugar tão remoto evoca uma circunstância que a História não guardou registro.

    No âmago da cidade não se tem a visão espacial necessária para contextualizar a razão de seu topônimo, que certamente lhe foi atribuído por sertanistas falantes da língua portuguesa nos longínquos meados do século XVII e, sem dúvidas, puderam vislumbrar o lugar como um colossal prado em meio à paisagística. Como a colonização dos sertões da antiga Capitania da Parahyba se deu pela porta da cozinha, ou seja, de oeste para leste, é de se supor que, vindo pela trilha que originou a Estrada Real, hoje BR 230, a primeira vista da campina grande ocorreu no alto do vale de Bodocongó, na escarpa do Serrotão, onde ainda hoje é possível avistar a cidade de Campina Grande em toda sua amplitude, planura e beleza. Por certo, ali se originou o topônimo.

    Sempre quando venho de alguma viagem ao sertão, este ponto me é parada obrigatória para fumar um cigarro e apreciar a vista da Praça do Amor, um logradouro descuidado e perdido no meio do nada, onde Campina se mostra metrópole, uma Atlântida temperada no clima agreste. Envolvida pelas cordilheiras de Bodopitá e Massaranduba, como muralhas a vedar um castelo, Campina Grande é um gueto de receptividade, que sem distinção de cor ou nacionalidade, há séculos abriu seus braços para bugres, negros, judeus, mouros, nórdicos e ibéricos.

    Como um enamorado na Praça do Amor, entre o passado, o presente, uma tragada e um pensamento, com Campina a meus pés, plana como uma palma de mão, e esplendorosa como uma princesa de conto de fadas, sinto-me um rei diante de seu porto seguro, sua cidade mulher, de céu azulado e brisa murmurante, como uma voz sensual feminina. Reporto-me então ao primeiro sertanista a vislumbrar esse prado, do alto do Serrotão, e a ouvir os murmúrios eólicos lhe sussurrando à mente repetidamente o topônimo: campina grande, campina grande, campiiiina grandeeee...

  • A Pedra da Torre

    31/01/2019

    Para quem segue na BR 230 no sentido Campina Grande - João Pessoa, na altura do km127 pode observar no lado esquerdo da estrada, sobre uma elevação, uma rocha de formato pontiagudo encimada por uma cruz. Com destaque na paisagística, esta curiosa rocha é conhecida como a Pedra da Torre e é o marco que define o extremo leste de Campina Grande desde 1864, quando o município foi criado e estabelecido os seus limites. Ambiguamente, esta rocha serve também de limite para os municípios de Ingá, Riachão e Massaranduba e, portanto, uma volta em torno deste monumento rochoso cruza simultaneamente o território de quatro municípios.

    Além de ter sido eleita como marco municipal, esta rocha também é um referencial que demarca a borda ocidental do Planalto da Borborema, pois a partir dela começa a descida da escarpa que reduz abruptamente a altitude local de 450m para a ordem de 250m, altimetria que domina a planície do vale do Bacamarte. Desse modo, a Pedra da Torre é uma orientação geográfica de muitos interesses.

    Na pressa do dia-a-dia, ninguém mais se ocupa em observar os atrativos naturais que margeiam as estradas. Com olhos vidrados nos celulares, as pessoas se enclausuram num mundo virtual em desamparo às coisas vivas e curiosidades de alcance tátil, que encorajam o crescimento de laços emocionais. Esse desinteresse que está se generalizando para com a realidade é preocupante, pois se ninguém mais observar o entorno pulsante em breve se extinguirão os poetas, artistas e todo resquício de humanidade que ainda nos resta.

    Por mais inútil que pareça, convido os que trafegam na BR 230 a uma paradinha na estrada para esticar os ossos e visitar a ambígua rocha onde se pode fazer em passos um tour por quatro municípios da Paraíba. Não é assim tão “programa de índio” como se presume, é uma trilha curta, sem notórios obstáculos, em meio à aromática de natureza e a essência de sabores instintivos. Garanto que o desafio será (literalmente) um marco em sua vida, pois terá muito a ver, sentir e refletir, uma vez que, além da bela panorâmica e atmosfera tranquilizadora, a Pedra da Torre é decorada com incógnitas inscrições rupestres. Um enigma. Decerto, há milênios esta rocha serviu também como um marco para os antigos paleoíndios da região.

  • A botija do Rosário

    25/01/2019

    As estórias de botijas envolvem tesouros de moedas e objetos de ouro e prata enterrados, geralmente, no chão e paredes de taperas, cantos de porteiras, casas de farinhas abandonadas, adros ou aos pés de grandes juazeiros, e seriam cabedais deixados pelos holandeses, jesuítas ou ricos fazendeiros, esquecidos por séculos até um suposto escolhido receber através de sonho a indicação do local onde se encontra. A revelação tinha caráter sobrenatural e o ato de inumação era cercado de regras e cerimoniais indispensáveis.

    Segundo os relatos, o resgate devia ocorrer à meia-noite e o escolhido a quem cabia o cabedal teria de ir sozinho arrancar a botija. Mas se não cumprisse fielmente a ritualística de resgate o tesouro “se encantava”, transformando-se em trapos, carvão, cinzas ou simplesmente desaparecia. O empreendimento também exigia coragem, pois era comum aparecer assombrações.

    A Paraíba está repleta de estórias de alguém que já arrancou uma botija e a notificação mais antiga em nosso território data de 1729, numa carta enviada ao Rei D. João V do Ouvidor-Geral da Capitania, João Nunes Souto, tratando sobre o suposto achado de uma botija contendo coisas de valor enterradas na fazenda de Leonardo Pires de Gusmão. Este documento consta no Arquivo Ultramarino de Lisboa.

    Temos, porém, um curioso registro de caso de botija ocorrido em Campina Grande no ano de 1947, quando um popular de nome Luiz Monteiro sonhou que havia uma botija no terreno onde fora demolida a antiga igreja do Rosário, no Centro da cidade, ali por detrás da atual Praça da Bandeira e de frente ao antigo Cine Capitólio. Ávido para pegar coisas de valor, o popular foi de noite e cavou naquele local um imenso buraco, mas não encontrou nada. Também não teve o cuidado de devolver a terra ao seu lugar. Diz-se que naquele ano ocorria a campanha para prefeito da cidade, disputada entre Elpídio de Almeida e Veneziano Vital do Rêgo, e geralmente os comícios na Praça da Bandeira acabavam em briga que, na correria do povo, muita gente caía no dito buraco da suposta botija do Rosário, tesouro que até hoje nunca foi encontrado.

    Publicado no Jornal Correio da Paraíba edição de 04 de março de 2018.

  • À IDA O QUE É DE IDA

    17/01/2019

    Coincidências não existem. Acredito que fatos relacionados acontecem por desígnio de alguma vibração para nos alertar de algo que devemos tomar consciência ou pôr em prática.

    Numa tarde dessas, num “acaso” da vida, encontrei no centro de Campina Grande a memorialista Maria Ida Steinmüller, ou simplesmente Ida, como é mais conhecida. De ascendência austríaca, Ida é uma mulher admirável, com sua elegância, fineza, cintilantes olhos azuis e porte de rainha. Foi ela quem lançou em 2012 a pedra fundamental do Instituto Histórico de Campina Grande, a casa de memória dedicada a Elpídio de Almeida.

    Sempre com seu contagiante apetite memorialista, ela foi me narrando entusiasmada como o senso de dever lhe impeliu a criar o IHCG para salvar um patrimônio que se via condenado às traças e ao esquecimento, e, de rompante, me convidou a conhecer o acervo, no segundo andar do Chopp do Alemão onde funciona a sede provisória do Instituto, e onde, com o esmero de um ourives, ela trabalha reclusa na organização e catálogo deste tesouro.

    Quando chegamos, pude vislumbrar a importância daquele mealheiro de artes e letras, pois, além da biblioteca, o acervo também agrega mobiliário, utensílios e documentos. Passei a tarde ali analisando papéis enquanto ela, em contraste com seu aspecto burguês, se ocupava em carregar caixas de um canto para outro e catalogar velhas fotografias.

    “Por acaso”, dias depois encontrei num sebo o livro “100 anos de Elpídio de Almeida”, e em casa, quando abri o livro, encontrei um marcador de página que fazia publicidade de outro livro cujo título era “A César o que de César”, tirei o marcador sem dar-lhe importância e comecei minha leitura do livro, que reunia os discursos de um evento realizado em 1993 para homenagear o centenário deste importante médico, gestor público e historiador. No entanto, o livro não fazia menção alguma à Ida. Uma digressão histórica, eu diria, porque durante minha análise nos documentos do Instituto pude comprovar através de notas fiscais, ofícios, cartas e fotografias que foi Ida quem organizou cada detalhe do referido evento. Mas, injustamente, nenhum crédito lhe foi atribuído, seja por seu zelo à memória de homenageado ou à sua determinação e empenho na idealização e execução do Centenário em tema.

    Quando tirei as vistas do livro vi em cima de meu birô aquele marcador de páginas que, “por acaso”, viera no interior do livro e dizia: “A César o que é de César”. Então, mentalmente parafraseei a máxima para: “À Ida o que é de Ida” e, como não acredito em coincidências, percebi que me caberia fazer reparação a este injusto lapso histórico.

  • A Ordem Rosacruz de Campina Grande

    10/01/2019

    Ao pôr-do-sol de todos os sábados um grupo rosacruciano se reúne em Campina Grande para a milenar convocação ritualística da Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), uma organização templária aplicada em estudos que visam o aperfeiçoamento intelectual, psíquico e espiritual da humanidade, possui milhares de organismos afiliados espalhados pelo Planeta e é considerada a mais antiga fraternidade do mundo, criada no Egito em 1503 a.C. e, ao longo dos séculos, se espalhou e agregou eminentes pensadores como Leonardo da Vince, Francis Bacon, René Descartes, Isaac Newton, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, entre outros.

    A ritualística da egrégora Rosacruz de Campina Grande tem por objetivo a soma de energias em meditação para irradiar a paz e o bem para todo o compartimento da Borborema. O foco irradiador Rosacruz campinense foi fundado no dia 11 de abril de 1976, numa reunião no Edifício Lucas presidida por Francisco Raimundo Medeiros (Seu Chico) e teve sua sede provisória no primeiro andar da antiga Farmácia do 40. Foi reconhecida como de utilidade pública pela Lei Municipal nº 519, de 1979, e seu templo definitivo foi edificado em 1992 no bairro do Alto Branco.

    A Ordem Rosacruz foi a primeira fraternidade a considerar as mulheres em plena igualdade com os homens, pois desde seu surgimento o sexo feminino gozou de privilégios iguais, incluindo o de cargos. A propósito, importantes mulheres do cenário cultural campinense, como Graziela Emerenciano, Ida Steinmüller, Irene Ponciano e Lourdes Ramalho são rosacruzes. Esta última soror, inclusive, foi a primeira Mestre Rosacruz de Campina Grande, eleita em 1978.

    É relevante destacar que a Ordem Rosacruz, regida sob o símbolo de uma cruz e uma rosa no centro, não é religião, visto que a cruz é um símbolo antiquíssimo constante em inúmeras culturas e sob diversas formas. Na verdade, a Ordem possui membros de diversas religiões e linhas filosóficas, pois evoca o Deus de cada coração para o trabalho conjunto em prol de um mundo melhor e mais pacífico.

    Aos rosacruzes de Campina Grande, que de modo discreto, não mais secreto, há 42 anos mantém acesa a chama de sagração à Luz, Vida e Amor no compartimento da Borborema, desejamos os mais sinceros votos de Paz Profunda.

  • O milho e as festas juninas

    28/08/2018

    Se quisermos nos reportar às origens das festividades juninas devemos recuar nossos pensamentos aos tempos pré-coloniais. O que nós entendemos hoje como manifestações juninas vem dos tempos em que os indígenas comemoravam a colheita do milho, que era um dos principais alimentos desses povos. O solstício de inverno em nosso hemisfério ocorre normalmente no dia 21 de junho e nestes dias os nativos celebravam com uma bebida fermentada tradicional indígena feita a partir do milho, o kaûï, ou cauim. Para a celebração se preparava a bebida em grandes quantidades, que ficavam cozinhando em fogo lento para ser mantida morna. Estas festas duravam entre dois ou três dias, continuamente regada com kaûï, fogueiras, cantos e danças ininterruptas e se davam como agradecimento aos deuses da Natureza pelo suprimento das necessidades. Há inúmeros relatos de cronistas seiscentistas a respeito dessas comemorações indígenas em todo o Brasil.

    É possível que as comemorações da colheita tenham se transformado nas festas juninas no Nordeste com as intervenções dos padres e frades que formaram aldeamentos indígenas sob a administração missionária entre os povos de etnia cariri que viviam ao longo do Rio São Francisco, pois o sistema missioneiro buscou introduzir o cristianismo e um modo de vida europeizado integrando vários dos valores culturais e tradicionais dos próprios índios como referenciais, desde que não entrassem em conflito direto com os conceitos básicos na nova fé. Neste sistema de adaptar tradições indígenas eles aproveitaram o santo cujo dia se aproximava à data da festividade da colheita do milho, São João, de modo a adaptar uma festa pagã ao calendário cristão.

    A região de todo a antigo Cariri de Fora, que se estendia por vasta área e continha cinco grandes centros missionários de nativos cariri; que eram Campina Grande, Fagundes, Pilar, Alagoa Nova e Boqueirão, era administrada por freis franciscanos e capuchinhos e muito provavelmente estes frades foram os responsáveis por adaptar na região as festividades indígenas da colheita em culto aos santos católicos. As músicas, danças e bebedeiras já eram praticadas e, em conjunto com o referencial católico, serviram para o lançamento das fundações das festas juninas como hoje ela é conhecida.

    Embora adaptadas, as festas juninas sempre estiveram atreladas à colheita do milho, a fogueira fazia-se presente, bem como as músicas e as danças. Até muito recentemente ainda se podia apreciar estas festividades em seu modo espontâneo e ligado à liturgia católica, primeiro com a semeadura, em 19 de março, quando se acendia a fogueira de São José, depois a colheita do milho verde, em 21 de junho, quando se acendia a fogueira de São João e por fim a comemoração do milho maduro, em 29 de junho, quando se acendia a fogueira de São Pedro. Hoje, infelizmente, as comemorações juninas perderam muito de seu tradicionalismo, as fogueiras estão proibidas, as novenas deixaram de ocorrer, as festas individuais nas casas e as quadrilhas de rua não existem mais e até as músicas tipicamente juninas deixaram de ser prerrogativa. Vemos hoje aqui em Campina Grande uma festa totalmente descaracterizada, caricata e sem qualquer relação ao catolicismo. Porém, o principal fundamento das festas juninas, mesmo inconscientemente, continua indispensável. O milho.

  • O conto do vigário

    16/08/2018

    Entre fins do século XVIII e início do século XIX um padre de origem indígena chamado Francisco Telles de Meneses, que por muitos anos viveu nos sertões do Nordeste, num sonho voraz de riqueza percorreu diversas regiões entre os atuais estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco e Paraíba, com uma incrível mobilidade para época, em busca de cabedais em tesouro que supostamente os antigos jesuítas e os holandeses teriam enterrado no anseio de protegê-los contra eventuais salteadores e, por motivos ou infortúnios diversos, os teriam esquecido sepultos nos inóspitos rincões nordestinos, cujos roteiros foram codificados em caracteres e figuras ignotas nas rochas.

    Sem dúvidas, o vigário era um exemplo peculiar de religioso que, ao invés de se embrenhar na caatinga para converter almas aos ensinamentos cristãos e lhes oferecer a salvação eterna ou levar conforto espiritual aos sertanejos carentes e sofridos, era um típico aventureiro andarilho, que se tornou o mais resoluto caçador de tesouros que a História do Brasil registra.

    Vivendo quase no anonimato, o padre Telles escreveu um opúsculo intitulado “Lamentações Brasílicas”, que ofereceu ao então príncipe regente, D. João. Na obra, o vigário trás mais de cem apontamentos de inscrições rupestres, algumas visitadas pessoalmente e outras referenciadas pela narração de pessoas que as viram. Algumas inscrições foram copiadas pelo padre e os desenhos constam no manuscrito de seu punho.

    Certamente, o religioso não logrou êxito em sua obstinada busca dos sonhados tesouros imaginários. Todavia, seu prolífero recolhimento de dados sobre inscrições rupestres nordestinas é hoje, para nós pesquisadores, um inestimável tesouro.

    Na Paraíba, o padre indica 21 localidades onde existiam inscrições em pedras, inclusive a hoje célebre Pedra do Ingá é assinalada entre os recolhimentos do sacerdote.

    Particularmente, não creio que o padre Telles imaginasse que tais inscrições assinalassem tesouros e que estes supostos cabedais fossem, de fato, seu objeto de busca. O imagino como um pesquisador, movido pela inquietude, que usava o argumento como pretexto para que o povo lhe guiasse aos locais das inscrições, estimulados pela cobiça. Ainda hoje é corrente entre as comunidades rurais esta folclórica versão de que os holandeses e jesuítas teriam deixado enigmas escritos nas pedras assinalando um suposto roteiro de seus tesouros enterrados. Tanto que são freqüentes as notificações de escavações na base de monumentos arqueológicos, por homens do meio rural, a procura dessas supostas botijas, ainda embalados pelo velho conto do vigário.

  • Fósseis da PB: meu primeiro artigo

    16/07/2018

    Há exatos 14 anos eu publicava meu primeiro artigo, até então só escrevia relatórios internos para a ONG onde desenvolvia minhas atividades e pesquisas sobre arqueologia e pré-história paraibana, mas incentivado pelos colegas enviei um artigo para a redação do Diário da Borborema sobre a presença de fósseis na Paraíba e a necessidade de se preservar esse bem, o trabalho foi publicado na edição de 17 de julho de 2004 e depois disso me tornei articulista perene do jornal.

    Ao longo desses 14 anos foram mais de 400 artigos publicados em jornais, revistas científicas e populares, anais, capítulos de coletâneas, boletins informativos, blogs, além de cinco livros e alguns títulos em Literatura de Cordel. Portanto, este artigo piloto me levou para o universo das letras e a partir dele desenvolvi minha escrita e também incentivei muita gente a escrever, de modo que hoje, neste jornal online, estou republicando o trabalho, o mesmo publicado há 14 anos, pelo valor de interesse público da matéria e para que os leitores possam observar que nesses muitos anos, embora tenha melhorado consideravelmente em termos de pontuação e linguagem, mantive o mesmo espírito de escrita.

    OS FÓSSEIS DA PARAÍBA

    O termo fósseis, designa quaisquer restos ou vestígios deixados por seres animais ou vegetais, de qualquer tamanho ou natureza, que tenha vivido no planeta antes de 5.000 anos e que, após a morte, tendo sido soterrados por sedimentos, chegaram a se preservar nos mesmos, durante milhares ou milhões de anos.

    Ainda podemos entender como fósseis, vestígios ou marcas deixadas nas rochas por organismos pré-históricos, mesmo que hajam desaparecido todas as porções que compunham tais organismos. As impressões de marcha ou rastejo de um organismo podem se conservar numa areia úmida ou lama, como é o caso do Vale dos Dinossauros em Souza, que também são considerados fósseis.

    O estudo destes testemunhos é competência da paleontologia, pois os fósseis são significativamente importantes para esclarecer o passado remoto do planeta e suas formas de vida.

    O Estado da Paraíba é extremamente rico em jazidas fossilíferas, principalmente cretáceas e pleistocênicas, espalhadas por todas as regiões do Estado. Porém, apesar do Decreto Lei n º 4.146 assinada em 4 de março de 1942, pelo então Presidente da República Getúlio Vargas, que considera os depósitos fossilíferos brasileiros propriedade da Nação passíveis de proteção, nosso patrimônio fóssil, desde pelo menos o século XVIII vem sofrendo depreciações e saques.

    O Programa de Conscientização Arqueológica- PROCA, uma ONG da cidade de Campina Grande que, desde a década de 90 vem desenvolvendo um levantamento do patrimônio pré-histórico do Estado em paralelo com um projeto de conscientização sobre a importância e valor deste acervo, já catalogou dezenas de jazidas fossilíferas que, infelizmente, constam relatos de “pesquisadores” que subtraíram diversas peças fósseis sob a alegação de que serão analisadas. Em algumas localidades há informações até da saída de caminhonetes carregadas de fósseis para destino ignorado.

    Naturalmente, o sertanejo em sua humildade, apenas nos dá informações vagas que nada contribuem na identificação dos responsáveis. O que mais lamentamos é o fato de sabermos que a maioria destes saqueadores do patrimônio fóssil paraibano são professores que utilizam o nome das universidades para justificar a retirada das peças que acabam se destinando à coleções particulares dos mesmos.

    O PROCA procura incentivar as prefeituras paraibanas no sentido de criarem museus ou mesmo depósitos públicos para armazenar as eventuais peças fósseis que tenham sido retiradas de seu contexto, numa política de manter o acervo paleontológico em seu município de origem.

    A providência a ser tomada quando acontecer de alguém vindo de fora, querer levar fósseis de uma localidade, mesmo que ajam muitos, é não permitir sua retirada. Pois trata-se de patrimônio da União e, só é permitido a pesquisa e coleta de material fóssil em território brasileiro se for autorizada e fiscalizada pelo Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura. Caso aja persistência, a polícia local deve ser acionada, pois a retirada indevida deste material constitui crime contra a União.

  • O obelisco do Açude Novo, uma homenagem indevida aos Ariú.

    11/06/2018

    Em 1975, na gestão do prefeito Evaldo Cruz (1974-1976), a Prefeitura Municipal de Campina Grande quando estava edificando o monumento obelisco no meio do largo do Açude Novo, que deveria ser o marco zero das coordenadas urbanas da Cidade e também uma homenagem aos índios Ariú, então considerados os primeiros habitantes de Campina Grande, o obelisco em construção para homenagear estes indígenas acabou por gerar uma dúvida em meio aos vereadores de Campina: teria sido mesmo os índios Ariú os primeiros habitantes de Campina?

    A dúvida era pertinente e para tentar elucidar esta questão o líder arenista da Câmara Municipal de Campina, vereador José Luís Júnior, trouxe para palestrar na sessão do dia 03 de setembro do corrente ano o pesquisador Balduíno Lélis (presidente da seção paraibana do Centro Brasileiro de Arqueologia), sobre este assunto.

    Lélis, com um longo e eloquente discurso, acabou por afirmar que os indígenas Cariri já habitavam a região antes dos Ariú serem trazidos do sertão e aldeados em Campina pelo famoso sertanista Theodósio de Oliveira Ledo.

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    Ainda não satisfeitos, os vereadores preferiram consultar outro especialista e para a sessão da Câmara Municipal do dia 16 de setembro o vereador Lindaci de Medeiros convidou o professor José Elias Borges (do Instituto Histórico de campina Grande), profundo conhecedor sobre os indígenas paraibanos, para esclarecer este impasse sobre para quem se deveria dirigir à homenagem: aos Ariú ou aos Cariri?

    Enfático, o professor Borges endossou o diagnóstico de Lélis afirmando que a região de Campina já era aldeamento de índios Cariri, e que os Ariú, vindos do sertão trazidos por Theodósio de Oliveira Ledo em 1697, foram acrescidos à aldeia já existente na campina grande.

    Particularmente, há anos sou amigo do velho Balduíno Lélis e também fui amigo de José Elias Borges, que lamentavelmente faleceu em 2010. Ambos se dedicaram com afinco e responsabilidade ao estudo dos povos indígenas da Paraíba e, de fato, tinham anuência para resolver o impasse, como o fizeram. Meus estudos sobre esta questão, alçados em documentos coevos que estes estudiosos não tiveram oportunidade de manusear na época, não deixam dúvidas de que Campina Grande já era uma aldeia de índios Bultrins, da nação Cariri, muito antes de Teodósio chegar com os Ariú e os assentar nesta aldeia. Portanto, os verdadeiros fundadores de Campina Grande foram de fato os índios Cariri e nãoos Ariú.

    Apesar do esforço da Câmara para elucidar o caso e mesmo ante o diagnóstico apresentado por estes importantes estudiosos, o monumento obelisco, construído em concreto armado no centro do largo do Açude Novo, medindo 45 metros de altura, contrariou a História e foi erigido em homenagem aos índios Ariú. Coisa de políticos!

    No projeto inicial, o monumento deveria receber imagens em alto relevo nas suas quatro faces com esculturas de cimento simbolizando os índios Ariú. Mas esta decoração artística acabou não sendo feita, creio que em virtude da dúvida lançada.

  • FREI DAMIÃO, CIDADÃO CAMPINENSE

    04/06/2018

    Frei Damião di Bozzano nasceu em 05 de novembro de 1898 na cidade de Bozzano, na província italiana de Lucca. Em 1914 ele ingressava na ordem dos Capuchinhos e em 1923, com vinte e cinco anos de idade, é ordenado na Igreja de São Lourenço de Brindisi, em Roma. Estudou na Universidade Gregoriana, saindo com doutorado em teologia, filosofia e direito canônico. Neste mesmo ano assumiu o cargo de vice-mestre de noviços no convento de Villa Brindisi, três anos depois foi para o Convento de Massa como diretor e professor e finalmente, em 1931, foi designado para o Brasil, vindo para a Custódia de Pernambuco onde exerceu o magistério por nove anos e foi Diretor do curso de Filosofia e Teologia do Recife.

    A partir de 1940 Frei Damião começou sua peregrinação, chamando a atenção dos humildes e devotos pelos povoados, vilas e distritos dos sertões pernambucanos. Figura carismática, de barba crescida e falando ainda um latim misturado ao português, ele conseguia ser entendido pelos seus bons gestos e pela fé com que conduzia suas pregações, tanto que logo foi reconhecido e aclamado como um santo homem.

    Conduzindo sempre um crucifixo amarrado a um fio vermelho, batina rota e alpargatas velhas, com rachaduras nos pés castigados pelas andanças nos sertões do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, centenas de milagres foram atribuídos ao missionário, mas este sempre negou a condição de santo e quando assim era chamado dizia: “tenho apenas fé e peço aos que me ouvem que tenham fé e rezem para Deus e Nossa Senhora”.

    Não me compete aqui montar uma biografia desde grande missionário do Nordeste, que por onde passava reunia multidões de devotos e fanáticos para ouvir suas pregações ou tentar pegar em alguma parte de seu corpo a espera de um milagre, pois Frei Damião é demais conhecido, meu objetivo aqui é mostrar o vínculo que este missionário tem com nossa cidade. Poucos sabem, mas Frei Damião é filho honorífico de Campina Grande.

    Isso desde a noite de um sábado agitado no Parque da Estação Velha, no dia 13 de agosto de 1976, quando foi organizada uma Sessão Especial da Câmara dos Vereadores para a entrega do título de Cidadão Campinense ao capuchinho.

    Frei Damião chegou em Campina Grande ás 18:30h, sendo recebido por uma multidão no Convento de Santo Antônio onde ficou hospedado até o momento do evento, que se iniciou às 20h. Prestigiado por um público incalculável de gente da cidade e vinda do interior que tomou todo o largo do Parque da Estação Velha. Além do povo em geral, participaram do evento várias autoridades campinenses, tendo na oportunidade usado a palavra o bispo diocesano Dom Manoel Pereira, o prefeito Evaldo Cruz, o vereador Rildo Fernandes (autor do projeto de cidadania), o presidente da Câmara, vereador Genésio Soares, e, por fim, Frei Damião, que humildemente agradeceu a homenagem e conclamou a todos para amar a Deus acima de tudo.

    Frei Damião faleceu há dezoito anos, em 31 de maio de 1997, e está em processo de beatificação e canonização. A cidade de Guarabira, na Paraíba, foi a última cidade onde ele passou em missão e lá foi erguido um monumento e um memorial para o Frei, em João Pessoa tem uma maternidade pública com seu nome e em Campina Grande tem uma rua no bairro do Alto Branco em sua homenagem.

  • PROFESSOR ALMEIDA BARRETO

    18/05/2018

    Em Canguaretama, estado do Rio Grande do Norte, no dia 10 de janeiro de 1886 nascia Manoel de Almeida Barreto, filho de Manoel Rodrigues Barreto e Cândida de Almeida Barreto. Com dez anos de idade o menino ficou órfão e então o seu tio, Dom Joaquim, que foi o primeiro bispo do Rio Grande do Norte e do Piauí, cuidou de criar e educar o menino que na capital piauense foi ordenado sacerdote, passando a exercer a função de vice-reitor de um seminário e diretor do jornal Diocesano entre 1907 e 1911.

    Em 1913 o padre Almeida Barreto foi nomeado vigário de Mossoró e também diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia, onde, como professor e orador sacro, começou a se encantar pelo magistério. Nestas funções permaneceu até 1924, quando foi nomeado diretor do Colégio Santo Antônio, de Natal-RN.

    Em 1927 passou a residir na cidade de Campina Grande, onde renunciou o Ministério Sagrado, casou, criou seus três filhos (Pelópedas, Noelma e Cleômenes), e dedicou-se à docência em diferentes educandários da cidade, trocando a batina pelo magistério, atuou no Colégio Alfredo Dantas onde lecionou Latim, História das Civilizações, Francês e outras matérias. Ainda foi secretário da Prefeitura de Campina Grande nas gestões de Dr. Antônio Almeida e de Bento de Figueiredo, chegando a assumir, interinamente, o cargo de Prefeito, quando era secretário municipal campinense.

    Em campina Grande o professor, orador e ex-padre Almeida Barreto também foi maçom, se iniciando Aprendiz Maçom em 12 de outubro de 1927 na Loja Regeneração Campinense, sendo elevado para Companheiro Maçom no ao seguinte e exaltado a Mestre neste mesmo ano. Em 1947 foi um dos fundadores do Instituto Histórico de Campina Grande, ao lado de grandes letrados da época, a exemplo de Elpídio de Almeida, João Tavares, Hortensio Ribeiro e Epaminondas Câmara. Neste Instituto Almeida Barreto exerceu o cargo de orador.

    Professor querido, depois de 42 anos contínuos de dedicação ao ensino, em 1948 Manoel Almeida Barreto se aposentou, passando e se ocupar de outras atividades exerceu o cargo de Venerável Mestre da Loja Maçônica no período entre 1955 e 1956 e veio a falecer aos 75 anos, em 16 de fevereiro de 1961, no Recife, vítima de uma operação de próstata, mas foi sepultado no Cemitério do Monte Santo, em Campina Grande.

    Muito querido e respeitado pelo povo campinense, nove meses depois de sua morte uma importante rua da cidade, no bairro do São José, recebeu o nome de Professor Almeida Barreto em sua homenagem, por propositura do vereador Fernando Silveira (Lei nº 100 de 01 de outubro de 1961). Como intelectual, foi homenageado com seu nome o Centro de Estudos Maçônicos da cidade, também foi escolhido como Patrono da cadeira 21 da Academia de Letras de Campina Grande e seu nome ainda vem sendo cogitado pela Comissão de Admissão de Sócios do Instituto Histórico de Campina Grande para o patronato de uma cadeira cativa. É sabido que Almeida Barreto deixou um material com seu filho mais velho para ser publicado, mas, infelizmente, até hoje este material nunca veio a público.

  • Cine Capitólio, um paradoxo no centro da cidade

    04/05/2018

    Recentemente o tema Cine Capitólio tem voltado à baila depois de uma reunião entre o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) e a Prefeitura de Campina Grande para debater este sítio histórico.

    Abandonado desde 1999, o prédio foi adquirido pela Prefeitura Municipal na administração de Cássio Cunha Lima, que pretendia adaptar o prédio para camelódromo de modo a tirar os camelôs da via pública acomodando-os em espaço adequado. Entretanto, na época havia uma verdadeira guerra política entre o então governador José Maranhão e o prefeito de Campina Grande, de modo que, em pouquíssimo tempo o prédio do Cine Capitólio foi tombado pelo IPHAEP, órgão do Governo do Estado, através do Decreto 20.905 de 11 de fevereiro de 2000, claramente com o objetivo de jogar uma pá de cal no projeto da Prefeitura de Campina Grande. Não sei se foi exatamente assim e não pretendo descer às regiões abissais do partidarismo político, mas foi o que pareceu na época, até porque Campina Grande nesta ocasião só tinha uma edificação tombada, que era o antigo prédio sede da Reitoria da FURNE, tombado em 1997 e, até então, o IPHAEP não demonstrava qualquer interesse pelo patrimônio histórico de Campina.

    Mediante este tombamento e o embargo do projeto de camelódromo, o prédio ficou em abandono e somente a partir de 2015 a Prefeitura Municipal de Campina Grande voltou a apresentar projetos para a ocupação do prédio em desuso, todavia, em se tratando de uma edificação protegida por Lei, paradoxalmente nenhum dos projetos de revitalização apresentados recebeu aval do IPHAEP e o impasse continua até hoje. Em suma, ao longo desses dezoito anos, como um Prometeu aos abutres, o prédio do antigo Cine Capitólio vem cada vez mais se deteriorando frente às intempéries e a falta de manutenção. Já está em vias de ser condenado pela Defesa Civil e as partes não chegam a um consenso.

    Particularmente, penso que um historiador não deve olhar apenas para o passado e se omitir do presente, até porque imparcialidade é coisa de frouxo. O hoje será História em breve e ninguém melhor do que os contemporâneos para opinar sobre os fatos que se desenrolam à sua vista. Sinceramente, não tive o privilégio de conhecer o Capitólio, nunca entrei neste cinema porque quando vim morar em Campina Grande, em fins dos anos de 1980, ali passava unicamente filmes pornôs. Portanto não vivenciei os tempos áureos do Capitólio e por isso estou isento de qualquer afinidade sentimental com o mesmo.

    Enquanto patrimonialista, não pretendo ficar como um cérbero às portas do Capitólio. Sinceramente não tenho beatitude hipócrita para enxergar valor histórico-arquitetônico num prédio que já sofreu inúmeras reformas e não guarda quase nada da plenitude e inteireza de sua inspiração original. Tem certa aparência suntuosa, é fato, mas poder-se-ia dizer que morreu arquitetonicamente desde quando perdeu sua natural graça.

    Contudo, não quero ver este prédio tombar e, por isso, sou a favor de sua revitalização e adequação em um novo plano de existência, desde que guarde a percentagem arquitetônica necessária à rememoração de sua ocupação anterior. Compreendo que o IHPAEP segue a normativa técnica para prédios tombados, mas creio que se poderia encontrar um meio termo para este impasse, talvez até nas entrelinhas das leis de tombamento, uma vez que o prédio do Cine Capitólio já está bastante descaracterizado e, portanto, não guarda mais originalidade no modelo e nem na volumetria.

  • O primeiro divórcio em Campina Grande

    25/04/2018

    Construir o casamento é uma tarefa difícil. O bem querer entre um homem e uma mulher é dinâmico e por isso o casal está sempre em estado de construção. Antigamente casamento era para sempre, prevalecia a máxima de que “o que Deus uniu o homem não separa”, e somente a partir de 1916 foi instituído o desquite no Brasil, que equivale hoje à separação judicial, permitindo que os casais se separassem somente das obrigações conjugais, mas não punha fim ao casamento, o que os impossibilitava de casar-se novamente.

    Em 26 de dezembro de 1977 instituiu-se em nosso país a Lei nº. 6.515 (Lei do Divórcio), regulando a dissolução da sociedade conjugal e do casamento. Com a vigência desta lei uma nova ordem no direito de família ficou implantada no país e o conceito de casamento vem cada vez mais se deteriorando, as pessoas já casam cogitando a possibilidade de dissolução caso as coisas não se encaminhem de acordo com o que se imaginava.

    Em se tratando de uma Lei civil, imagina-se que uma cidade interiorana como Campina Grande, de uma população conservadora e essencialmente cristã, o divórcio não seria bem recebido e só encontraria eco com o passar dos anos. Mas não foi bem assim, o primeiro caso de divórcio na cidade ocorreu quinze dias depois da Lei entrar em vigor, o divórcio de Arlindo Xavier de Carvalho e Maria de Lourdes Rodrigues da Silva assinado consensualmente no 4º Cartório da cidade na data de 10 de janeiro de 1978 na presença do juiz Hamilton de Sousa e do advogado Marcola Arruda.

    Casada há dezessete anos e desquitada há sete anos, Maria de Lourdes Rodrigues da Silva foi a primeira mulher em Campina Grande a conseguir o divórcio, alegando incompatibilidade de gênios e constantes desavenças do casal. Os cinco filhos do casal ficaram sob a guarda do pai, desde o desquite.

    O divórcio foi feito por decisão de comum acordo e desde então o número de divórcios na cidade vem crescendo de modo assustador, pois em 1999 se registraram 484 divórcios e já em 2012 se contabilizou 975 casos. Hoje, certamente, este número anual vai além dos quatro dígitos.

    Não temos intenção de nos posicionar contra a Lei do Divórcio, pois ninguém é obrigado a viver do lado de alguém que não lhe complete, buscar a felicidade é a regra. Também devemos salientar que há casos e casos para divórcios, neste caso acima, por exemplo, a Maria de Lourdes havia se casado aos treze anos de idade, uma menina ainda, certamente sem opção de escolha e incapaz de entender o alcance de um matrimônio. Todavia, nem todos os casos são assim, muitos casamentos hoje se dissolvem diante do primeiro obstáculo, sem a menor chance de ser repensado, e é preocupante a efemeridade com que a instituição matrimonial hoje é encarada.

  • Túneis subterrâneos na Paraíba

    18/04/2018

    Há desafiadores enigmas na Paraíba que talvez jamais venham a ser inteiramente solucionados à luz da ciência. Exemplo disso é o surpreendente complexo de galerias subterrâneas existentes em vastas regiões dos Tabuleiros da Paraíba, que constitui um mistério intrigante. São túneis subterrâneos de escuros corredores cavados em rocha sedimentar que apresentam câmaras a cada 10 ou 20 metros, mais ou menos circulares de aproximadamente 3 a 4 metros de diâmetro por 2m de altura e com saídas verticais para ventilação. Destes salões partem outras galerias em diversas direções, para chegarem a outros salões com suspiros perfurados no alto do pavimento e novas distribuições de túneis. Segundo inúmeras testemunhas, são verdadeiros labirintos e sua exploração deve ser feita com auxílio de lanternas, cordas e sinais de giz ao longo do percurso, para não perder a diretriz.

    Não há dúvida de que não se tratam de erosão natural e sobre estes túneis a explicação mais difusa é que se prolongam até o litoral e teriam sido abertos pelos flamengos como saídas para o mar. Particularmente, não creio que sejam obras de holandeses. Pois, segundo consta, na Paraíba há destas extensas galerias misteriosas nos municípios de Rio Tinto, Marcação, Mamanguape, Mataraca e Pedras de Fogo, cobrindo uma área de cerca de 70 quilômetros. Sem dúvidas, um trabalho desta envergadura não passaria despercebido nas inúmeras e detalhadas monografias produzidas pelos neerlandeses durante o período de ocupação holandesa da Capitania da Paraíba.

    O engenheiro Leon Clerot visitou em 1934 umas destas galerias em Pedras de Fogo, considerando-as antigas minas de sílex, onde os homens pré-históricos iam buscar matéria-prima para a confecção de seu instrumental lítico. Também sou contrário a esta teoria, pois não creio tratar-se de obra humana.

    Visitei um destes túneis em 2009, na área de reserva indígena dos Potiguara. Cheguei a penetrar na caverna e prospectar suas paredes e solo e me ficou a impressão de tratar-se do que a paleontologia denomina de “paleotocas”, que são na verdade túneis escavados por animais gigantes do quaternário, extintos a cerca de 10.000 anos. No Brasil há vários sítios paleontológicos caracterizados como paleotocas e este tipo de ocorrência existe apenas na América do Sul, onde viveram animais como o Tatu-Gigante e cujos túneis são atribuídos. Na Paraíba esse animal vivia abundantemente, pois já encontramos inúmeros sítios com fósseis desse descomunal dasypodidae.

    Infelizmente não podemos ser mais precisos porque hoje, em sua grande maioria, estas galerias na Paraíba estão soterradas e é quase inviável explora-las na condição em que se encontram, pois a aluvião dos séculos está gradativamente assoreando os misteriosos túneis que, até o presente, constituem um mistério.

  • LOURDES RAMALHO, UM ADOÇO CULTURAL

    10/04/2018

    Vinda dos amargos sertões seridoenses, xerófilos limites entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, em 1958 chegava para se estabelecer em Campina Grande uma moça de 35 anos de idade, com doce luminosidade nos olhos miúdos e na cabeça ideias nada convencionais para uma época de ideias amargas. Maria de Lourdes Nunes Ramalho era o nome desta forasteira, filha de uma família de artistas e educadores, que chegava para lecionar e adocicar o amargor cultural da Rainha da Borborema.

    Uma mulher muito à frente de seu tempo, no exercer do ofício de professora ela causou assombro praticando animações culturais voltadas especialmente para a cena teatral, utilizando-se de seus dotes de poetisa e dramaturga para contestar os amargores da educação, coisas incomuns para uma mulher daquele tempo e lugar. Foi somente a partir de 1970, quando a cidade começava a se abrandar para as manifestações culturais e artísticas, que Lourdes Ramalho, juntamente com propagadores culturais como Cláudio Porto, Stenio Lopes, Fátima Almeida e Elisabeth Marinheiro (entre outros), conseguiu enfim criar na cidade a Fundação Artístico-Cultural Manoel Bandeira, a FACMA, para promover a cultura local.

    Daí em diante ninguém mais conseguia segurar este furacão chamado Lourdes Ramalho que, com uma extensa obra para o teatro, consagrou-se dentro e fora do Brasil e suas peças, premiadas, percorrem o mundo. Mas seu destaque não foi apenas como teatróloga, pois também se consagrou no campo da poesia, com seu livro “Flor de Cacto”, e também como pesquisadora e genealogista com sua obra “Raízes ibéricas, mouras e judaicas do Nordeste”. Muito espiritualizada, Lourdes também é rosacruz e em 1976 foi uma das fundadoras da Ordem Rosacruz de Campina Grande.

    De forasteira rebelde ela se transformou em orgulho para a cidade, tanto que no ano de 2005 o Centro Cultural de Campina Grande passou a se chamar Centro Cultural Lourdes Ramalho. Uma homenagem em vida.

    Hoje, aos 85 anos, Lourdes ainda tem discernimento e uma vivacidade espantosa e, mesmo com os limites da idade, como sempre ela desafia as imposições do tempo e todo dia toma café com açúcar, saboreando um pão-doce sem dar atenção às taxas de glicose, pois é uma mulher que jamais se rendeu aos amargos da vida.

  • AÇUDE VELHO

    04/04/2018

    O Açude Velho, sem dúvida, é o principal cartão postal de Campina Grande. Em formato oblongo e orla em circunferência de dois quilômetros, o velho Açude é um espelho d’água de belo potencial urbano-paisagístico, cercado por grandes palmeiras imperiais, quiosques, áreas de lazer, monumentos de arte, ciclovia, pista de passeio e imponentes edifícios de traços modernos e inovadores que se amoldam em perfeita harmonia com os ipês e buganvílias que, ao longo do entorno elíptico do aguado, dão um colorido especial à ambientação local.



     

     

     

     

    Incorporado ao cotidiano da cidade desde tempos muito recuados, o manancial já era uma lagoa natural, ou um alagado permanente do Riacho das Piabas, antes de se tornar um açude, pois um documento de sesmaria de 1781 já fazia referência “a lagoa das terras que foram dos índios da Missão da Campina Grande” e a obra de Aires de Casal, editado em 1817, trata da Vila da Rainha, vulgo Campina Grande, onde diz textualmente que “seus habitantes bebem duma lagoa contígua”.

    Portanto, a aldeia, depois missão e só então povoação de Campina Grande, nasceu contíguo à lagoa rasa que posteriormente, devido à seca que assolou o Nordeste entre 1824 e 1825, seria convertida em presúria, com sólidas paredes de retenção erguidas em terra e pedra e cal para aumentar sua capacidade de retenção hídrica.

    Impreterivelmente, o Açude foi construído entre 1829 e 1831, custando três contos e trezentos mil réis aos cofres imperiais, para abastecer a população inferior a mil habitantes da antiga Vila Nova da Rainha. Embora sem reminiscência, é de se supor que a antiga Campina Grande o conhecia apenas como o açude, mas depois da construção do Açude Novo, ainda na década de 1830, ele passou a ser denominado de Açude Velho. Sendo o maior reservatório público da chapada da Borborema.

    Entre 1841 e 1844 o governo da Província aumentou-lhe a barragem e construiu-lhe o sangradouro, mas na seca de 1888, depois de mais de meio século de resistência às mais severas secas, o Açude Velho secou por completo ficando apenas a profunda lama do fundo. Na ocasião a Câmara Municipal pretendeu realizar a limpeza da lama acumulada no leito do reservatório, como medida de higiene e de aumentar sua capacidade, mas por falta de recursos não foi possível à realização da limpeza. Imagina-se o quanto de material arqueológico deve haver no fundo deste manancial, entre fósseis de animais quaternários, pontas de flechas em sílex, artefatos cerâmicos e de pedras polidas, averbando as histórias mais remotas do lugar. No aceso do movimento Quebra-Quilos, ocorrido entre 1874 e 1875 para por embargo às novas regras do sistema métrico, os rebelados confiscaram os pesos e medidas dos comerciantes atirando-as nas águas do Açude Velho. Ainda hoje estes objetos devem jazer no fundo da lama do açude narrando o episódio.

    O Açude Velho sempre esteve no cotidiano campinense, os banhos públicos que ali ocorriam diariamente, as pescarias de traíra, os inúmeros afogamentos ocorridos, os períodos de fedentina que mexiam com a opinião pública sobre a qualidade de suas águas e até as atuais atividades de recreação diárias do lugar. Como patrimônio de Campina Grande, o Açude Velho é tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Histórico do Estado da Paraíba – IPHAEP, através do Decreto nº 22.245 de 21 de setembro de 2001 e, devido a valorização imobiliária e a falta de um a falta de um código de postura que limite as edificações em seu entorno, o velho reservatório vem cada vez mais se tornando um dos mais formidáveis atrativos para a sociedade de Campina Grande.

  • IHCG: 70 anos

    27/03/2018

    Corria o mês de janeiro do ano de 1948 na velha Rainha da Borborema quando uma equipe formada por Elpídio de Almeida (então prefeito da cidade), e outros letrados, a exemplo de João Tavares de Melo Cavalcante, Epaminondas Câmara, Hortensio Ribeiro, Manoel de Almeida Barreto, Abdísio Prazeres, William Tejo, José Lopes de Andrade, Letícia Camboim, Arthur Sobreira e outros, se reuniu na antiga sede do Aliança Clube 31 para criar o Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande, cujos objetivos previstos no estatuto eram: “trabalhar pela preservação dos monumentos históricos, levantamento da história geral, da geografia do município e criar um Museu Histórico”.



     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Este foi o primeiro congênere do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano.

    Com as dificuldades habituais de todos os institutos, o IHGCG sobreviveu por dez anos, foi extinto e, como a Fênix, ressurgiu das cinzas em 1970, reunindo alguns membros da antiga formação e novas mentes da Campina Grande de então, como José Elias Borges, Epitácio Soares, Josefa Gomes, Átila Almeida, Antônio Lucena, Eurípedes Oliveira, Stenio Lopes e outros. Esta versão segunda do Instituto sobreviveu como pôde por outra década, mas foi extinto outra vez e, novamente como a Fênix, em 1997 o IHGCG ressurgiu das cinzas por iniciativa de intelectuais como Amaury Vasconcelos, Itan Pereira, Léa Amorim, Eliete Gurjão, Marisa Braga, Noaldo Ribeiro, Josemir Camilo, Virgílio Brasileiro e outros. Do mesmo modo o Instituto sobreviveu o quanto pôde e novamente foi extinto, para que somente em 2012, pela quarta vez, ressurgisse das suas próprias cinzas.

    Esta quarta e mais recente configuração do Instituto Histórico de Campina Grande renasceu do entusiasmo de Ida Steinmüller, incentivada por Arno Wehling e Esther Bertoletti do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e tendo em seu quadro social mentes como Humberto de Almeida, Virgílio Brasileiro, Joaquim Osterne Carneiro, Félix Araújo Filho, Juciene Apolinário, Rômulo Azevedo, Xico Nóbrega, Hermano Nepomuceno e outros, sendo posteriormente reforçado pela adesão de mais memorialistas, agentes culturais e historiadores, entre os quais me incluo também.

    No contexto de extensão da respectiva corporação de origem, esta quarta versão do IHCG, em reconhecimento ao seu fundador e primeiro presidente, além de autor da importante obra “História de Campina Grande”, foi cognominada de “Casa Elpídio de Almeida” e, desse modo, como uma congregação de intelectuais, um centro de investigações e de referência documental, o IHCG vem atuando na cidade desde então pela preservação e valorização da memória de Campina Grande.

    Não é tarefa fácil, uma vez que Campina Grande, por essência, é dinamicamente voltada para o futuro e pouco preocupada com o passado. Talvez esse condão vanguardista da cidade tenha sido um dos principais obstáculos à formação de um Instituto Histórico campinense. Todavia, ao longo de sua história, sempre houve pessoas preocupadas com a memória, que, como andorinhas insuficientes não lograram verão, mas deram sua parcela de contribuição pela preservação e resgate da historicidade local. O contexto de sucessos e insucessos do Instituto Histórico de Campina Grande é desconhecido da maioria dos historiadores, bem como os agentes que deram seus passos neste caminho de venturas e adversidades, e, por isso, eu e a memorialista Ida Steinmüller estamos levantando, processando e reunindo os pormenores desses acontecimentos para a elaboração de um livro que terá por título “Instituto Histórico de Campina Grande, a Fênix da Borborema”, e que deverá ser lançado em breve revelando para o público os palcos e bastidores de uma longa trajetória de superação e luta memorialista iniciada há exatos setenta anos.


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