Colunista Vanderley de Brito

Historiador com especialização em arqueologia, escritor, genealogista, poeta, roteirista para teatro e cinema, articulista e artista plástico. Autor dos livros “A Serra de Bodopitá”, “A Pedra do Ingá”, “Arqueologia na Borborema”, “Missões na Capitania da

  • A morte trágica do fogueteiro Lau Tomé

    02/09/2019

    Nicolau Maurício do Nascimento, Lau para os íntimos, quando moço, sofria uns desmaios repentinos e a sua mãe, muito devota, fez promessa a Padre Cícero em rogo à sua melhora, comprometendo o filho a, enquanto vida tivesse, anualmente ir ao Juazeiro do Norte, no Ceará, pagar a dívida com o santo, pois desde então ele não teve mais desfalecimentos.

    Lau viveu saudável, indo anualmente ao Juazeiro pagar a promessa de sua mãe. Casou, teve uma prole de cinco filhos e viveu consoante à natureza do universo agrário do sítio do Salgado, localizado à margem da PB 148, a uns cinco quilômetros ao norte da cidade de Boqueirão, no Cariri paraibano. Seu pai, Miguel Tomé, era curandeiro, e Lau, herdeiro desse ofício paterno, também rezava mazelas e preparava porções e unguentos, que aplicava para curas de bicheiras e de picadas de cobras. Outra herança alquímica de seu pai foi o ofício de fogueteiro, de modo que Lau também manipulava ingredientes químicos de produção de fogos de estampido e de artifício, para complementar a economia doméstica e alegrar as festas juninas, casamentos, nascimentos, noivados e todo tipo de festejo em que se empregava esse tipo dispositivo explosivo de efeitos sonoros e luminosos. Sua fábrica caseira, que também servia como depósito de fogos, ficava a uns duzentos metros de sua morada, e Lau, portanto, era um peculiaríssimo alquimista dos tempos atuais, espiritualizado, útil e muito bem quisto no torrão onde nasceu e se criou.

    Com a pele queimada pelo sol, a alma enrijecida pela vida rural e o instinto de um cientista, Lau era um tanto cético com relação a crendices religiosas, mas mesmo depois da morte de sua mãe manteve a obrigação romeira de ir todo ano ao Juazeiro. Contudo, no ano de 1984 ele achou por bem aproveitar lucrativamente essa viagem obrigatória, de modo que não foi à viagem no mês de Santana, como habitualmente fazia, deixando para ir em Setembro, porque assim aproveitaria a ocasião de preparo dos fogos para a tradicional festa de São Bento, que ocorre entre 21 e 28 de agosto em Boqueirão, para fazer um adicional de explosivos para levar e comercializar também no Juazeiro.

    “O homem molda as circunstâncias e é por ela moldado”, assim já dizia o alquimista rosacruz Nícolas Flamel, pois a mente é um labirinto e, embora no consciente Lau não temesse o sagrado, no fundo da alma essa sua falta de respeito o afligia. Foi num domingo, dia 18 de agosto (mês de desgosto), por volta das 11 horas. Lau estava no depósito preparando os artifícios quando, quase maquinalmente, foi pegar uma caixa de fogos no alto de uma prateleira e a mesma caiu acidentalmente (ninguém pode predizer o comportamento dos objetos) e, num daqueles momentos surreais da vida, em fração de segundos tudo ali foi pelos ares.

    Esse foi o último experimento alquímico e espetáculo pirotécnico de Lau, pois quase nada restou do depósito, dizem que as paredes se abriram e Lau foi projetado junto com o telhado a cerca de doze metros de distância. O barulho da explosão ressoou em Boqueirão, Barra de Santana e Caturité. Lau ainda foi acudido às pressas para o hospital Pedro I, em Campina Grande, onde ficou no balão de oxigênio, sofrendo as dores agonizantes das queimaduras, sem visão, porém lúcido e consciente de sua negligência, vindo a falecer nas primeiras horas da madrugada da terça-feira, dia 20 de agosto de 1984.

    Foi um grande pesar para toda a região e, em sua memória, rememorando este triste episódio, foi erguida uma capelinha no local do acidente, que ainda hoje está lá, e, como Lau agora não pode mais fazer suas romarias ao Juazeiro, dentro da capelinha, junto à cruz com seu nome, colocaram uma estatueta do Padre Cícero.

  • A identificação de um povo está na história que deve ser preservada

    08/08/2019

    Fundado em 21 de outubro de 1838, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) é a mais antiga e tradicional entidade de fomento da pesquisa e preservação histórico-geográfica, cultural e de ciências sociais do Brasil. Mas um instituto dessa natureza, não surge assim do nada, invariavelmente é fruto de mentes pensantes preocupadas com a preservação e o desenvolvimento, no caso específico do IHGB foi uma proposta do cônego Januário da Cunha Barbosa e do Marechal Raimundo José da Cunha Matos. Portanto, se tratando de entidades não governamentais, os institutos históricos criados ao modelo do IHGB, por se tratarem de iniciativas de grupos individuais e voluntários, refletem que a área política-geográfica para a qual foram criados, seja contemplando um estado ou um município, há indivíduos engajados na causa de preservação de documentos e fomento às pesquisas referentes à historicidade da extensão territorial a que se destina.

    Desse modo, não seria nenhum despropósito afirmar que a existência de um instituto memorialista a serviço de uma fração político-territorial reflete que sua sociedade possui um grau de interesse histórico-cultural, uma vez que emerge da própria comunidade o interesse voluntário preservacionista.

    A cidade de Campina Grande, que desde fins do primeiro meado do século XX se sobressai como um dos centros populacionais mais importantes do Nordeste, tendo um desenvolvimento econômico nesses tempos maior até do que a capital do Estado (João Pessoa), naturalmente, como reflexo desse desenvolvimento, gerou uma ebulição pensante que logo começou a se preocupar com a historicidade local, com destaque para Epaminondas Câmara, que a partir de 1938 começava a estudar e divulgar documentos para a História de Campina Grande, e Hortensio Ribeiro, que também nesse ano dirigia o Centro Campinense de Cultura, onde se congregavam outros intelectuais campinenses como Mauro Luna, João da Cunha Lima, João Mendes, Carlos Agra, Lopes de Andrade e Elísio Nepomuceno. E foi a partir desses movimentos em gestação que, em 1943, Epaminondas Câmara lançava a pedra fundamental para a historicidade campinense, com seu livro pioneiro “Os Alicerces de Campina Grande” e, anos depois (1947), publicava o livro “Datas Campinenses”, onde desenvolvia um esboço cronológico de apontamentos para a História de Campina Grande.

    Com esses primeiros resultados, a corrente memorialista campinense cada vez mais ganhava adeptos, culminando no dia 24 de janeiro de 1948, quando o então prefeito da cidade, Elpídio de Almeida, e outros intelectuais, como os próprios Epaminondas Câmara e Hortensio Ribeiro, fundaram o Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande, que foi a primeira entidade protetora e promotora da memória de um município criado na Paraíba.

    Todavia, uma instituição desse porte não consegue se sustentar somente com a boa vontade de seus associados, requer auxílio governamental para que possa funcionar minimamente como casa de memória. Mas, infelizmente, memorialistas e governantes comungam ideais divergentes, são como água e óleo, não se agrupam. Memorialistas são sempre minorias e ações públicas em favor da Memória não rendem votos.

    Entretanto, apesar dos inúmeros obstáculos, um memorialista é um idealista consciente de seu papel em favor da sociedade e seu patrimônio cultural, de modo que

    não arrefece de seus propósitos. Mesmo sem a cumplicidade da maioria da sociedade, que mal compreende o alcance dos bens histórico-culturais, persiste tenazmente em seus ideais. E é desse modo, com resistência à indiferença, que o Instituto Histórico de Campina Grande vem sobrevivendo há mais de setenta anos. Sem sede própria e a mercê de inúmeras adversidades, o IHCG foi extinto dez anos depois de sua primeira fundação. Foi recriado em 1970 para ser extinto outra vez em 1985, novamente recriado em 1997, sendo igualmente extinto em 2000 e, pela quarta vez, recriado em 2012.

    Mediante tantos desacertos e empecilhos, o natural seria que a iniciativa de se tentar dotar Campina Grande de uma casa de memória fosse abandonada. E foi, por três vezes, mas essa resiliência de se recriar o Instituto tem um motivo de ser: a consciência intelectual de seu povo, que é perene desde que a cidade amadureceu para a cognição histórico-cultural. É impensável uma sociedade de maturo cultural e metropolitano não gerar continuamente seres sensíveis à conservação e fomentação sócio-identidária. A preservação deste propósito está na essência do povo.

    *Historiador, Arqueólogo e Presidente do Instituto Histórico de campina Grande.

  • O túmulo de Irenêo Joffily

    02/07/2019

    Amanheceu nublado o dia 07 de fevereiro de 1902 em Campina Grande, pois, dum vistoso casarão branco, de oitões livres, com três janelas de frente e seis de lado, quase em frente à Igreja Matriz de N. S. da Conceição, saia o ataúde de Irenêo Joffily, conduzido modestamente por matutos, de pés no chão e saco às costas, com destino à sua última morada, no cemitério do Carmo, no Monte Santo. Hortensio Ribeiro, que ainda menino presenciou, ficou impressionado com a simplicidade daquele cortejo fúnebre, por se tratar de um homem de posses e grande importância, mas todos na cidade sabiam a devoção que Joffily dedicara à causa dos matutos.

    Numa trajetória de advogado, promotor público em São João do Cariri, Juiz municipal em Campina Grande, cronista, vereador por Campina Grande, deputado provincial, e ainda foi eleito deputado geral, mas a proclamação da república lhe cassou o cargo antes mesmo de assumir. Foi também jornalista, fundando em 1888 uma folha sabática intitulada Gazeta do Sertão, o primeiro jornal semanário de Campina Grande. Somado a tudo isso, além de militante republicano e abolicionista, com afinco, Joffily se dedicou à pesquisa histórica e geográfica do Estado, tanto de campo como de arquivos, publicando em 1892 o livro “Notas sobre a Parahyba” e, em 1893, “Sinopse das Sesmarias da Capitania da Parahyba”, livros que ultrapassa em muito a simples compreensão intelectual dos fatos. Enfim, nesse dia nublado, Campina Grande e a Paraíba perdiam seu mais insigne idealista e historiador.

    Enfermo de hanseníase, Joffily faleceu com 59 anos de idade. Seus restos mortais ainda hoje jazem no Cemitério do Monte Santo. Unicamente os seus, pois os de sua viúva e de seus sete filhos não foram depositados na tumba. Não se sabe quando, mas a família Joffily partiu de Campina Grande. Há registros de que pelo menos até 1920 sua esposa Rachel ainda residia na cidade, mas em pouco tempo todos deixaram a Rainha da Borborema e o túmulo onde jazem os despojos de Joffily ficou em total abandono.

    Por quase um século sem cuidados, como um leproso na alameda principal do cemitério do Monte Santo, o túmulo de Joffily acumulou uma crosta de matéria preta e gordurosa, produto da decomposição de poeira com detritos vegetais, denunciando sofrer de descuido. Mas, sensibilizado com o estado amnésico em que se encontrava o jazigo daquele que foi um dos maiores vultos da Paraíba, o Instituto Histórico de Campina Grande, numa sessão especial de diretoria, decidiu que, daqui por diante, se responsabilizaria pela sua manutenção e zelo, de modo que, no frescor de um sol tímido, em 07 de fevereiro de 2019, aniversário de 117 anos de sua morte, o IHCG mobilizou uma equipe, com baldes e escovas, para uma lavagem e reparos do túmulo.

    A ação, que foi coroada por um arranjo de flores, demonstra que, embora voltemos todos ao pó, a imortalidade de uma pessoa está ligada à memória de seu talento e contribuição para com a sociedade, e Joffily foi um desses, cuja vida não foi em vão.

    Vanderley de Brito é historiador, arqueólogo e presidente do Instituto Histórico de Campina Grande.

  • Passando de passagem por Passagem

    19/06/2019

    Dentro de um imenso anfiteatro natural, um vale compreendido entre fascinantes serras, a impressão que sentíamos era de insignificância em meio ao magnífico quênio que se forma no Vale do Farinha, corredor natural, entre desfiladeiros, que dá entrada ao Sertão das Espinharas. Ybynharaã, diriam os indígenas tapuias se estivéssemos em meados do século XVII, termo corrompido hoje para espinharas, que em língua nativa queria dizer “começo do Sertão”. De fato, o Sertão da Paraíba se inicia exatamente onde os contrafortes do Planalto da Borborema declinam para se igualar aos terrenos pediplanos dos sertões patoenses, e o acesso mais viável (menos íngreme) se dá pelo Vale do Rio Farinha.

    A cidade de Passagem fica exatamente na desembocadura do Vale, à base da majestosa Serra do Firmiano, cujo umbral forma boqueirão com a serra oposta, a chamada Serra do Abra, e abre caminho aos horizontes sertanejos, por isso, desde tempos coloniais, o nome do lugar é “Passagem”.

    A cidade é pequena, teve seu desenvolvimento atrofiado quando a velha rodovia (atual BR 230), que antes seguia o Vale do Farinha, nos tempos da implantação de sua cobertura asfáltica foi desviada por interesses políticos para descer a Serra de Santa Luzia. Poderíamos dizer que essa arbitrariedade de interesses coronelísticos de certo maneira foi favorável, pois as cidades do Vale do Farinha estagnaram no tempo, de modo a manter sua originalidade histórica e suas formações naturais, que, diga-se de passagem (sem trocadilho), tem uma beleza geomorfológica de tirar o fôlego.

    Todas essas impressões perpassavam por minha mente enquanto, juntamente com meu filho, apreciávamos a paisagística daquele recanto de mundo esquecido. Havia alguns meses que vínhamos nos empenhando em escrever a história do lugar, vasculhando documentos velhos e visitando os recantos mais insólitos do município para recolher dados.

    Na verdade eu entrei nessa história por acaso, desígnio, talvez. Tudo começou em fevereiro de 2017. Meu filho Erik Brito, que também é historiador, foi contatado pelo prefeito da cidade, Magno Martins, para orientar sobre um museu que se pretendia criar na cidade, ele aceitou o convite e me convenceu a ir também a título de acompanhante. No entanto, enquanto trabalhávamos na montagem do museu, fomos nos aprofundando na história local com o mero objetivo de buscar identificar o museu com o processo de desenvolvimento do lugar. Mas, no curso de nossa pesquisa, percebemos que a dita “História oficial” do município estava eivada de falhas e inverdades que precisavam ser revistas. Quando expomos ao prefeito essa situação fomos surpreendidos com a desafiadora proposta de reescrevermos a História de Passagem.

    O prefeito Magno, embora seja um homem simples, é dessas pessoas que tem um interesse incomum por tudo que relaciona à cultura e à memória, e nos deu todo o apoio necessário para a pesquisa. Por questões metodológicas, eu fiquei encarregado de escrever a história colonial e imperial do município (tenho uma simpatia natural em retroceder no tempo e penetrar no longínquo do passado), e os tempos ditos contemporâneos ficaram a cargo de Erik. Mas logo percebemos a imensa dificuldade de amealhar documentos sobre o município, que é relativamente novo, e também o

    prazo que nos foi concedido era curto para montarmos uma história plausível nos moldes técnicos de se historicizar uma região cujos primórdios de colonização remontavam o século XVII. O desafio parecia mais desafiador do que imaginávamos, e era exatamente nesse dilema em que nos encontrávamos, enquanto envolvidos (literalmente) pela paisagística dos sertões das Espinharas.

    Além de dezenas de entrevistas, já tínhamos fuçado os arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Patos, da Fundação Ernani Sátiro, da paróquia da Guia, da Fundação Casa de José Américo, o arquivo do Espaço Cultural José Lins do Rego, toda minha biblioteca, algumas de amigos, mas a história tinha travado e os dados que havíamos arregimentado não ultrapassavam trinta laudas.

    - Preocupante, disse eu a meu filho. E ele, despreocupadamente, respondeu brincando: - A menos que a gente invente mais umas trinta laudas.

    Naquela brincadeira despretensiosa, que visava apenas dar humor à nossa aflição, surgiu a ideia de escrever uma história-romance: - Isso. Vamos inventar, mas com honestidade! E daí saiu o livro “Passagem das Espinharas”, um misto de história e ficção, onde procuramos mesclar os fatos com uma intrigante trama carmática, evocando genealogia, misticismo, etnografia e sutilezas de diversas áreas científicas para escrever uma obra de História Cultural que viesse a despertar o interesse dos leitores em buscar elucidar tudo aquilo que a exiguidade documental e temporal não nos permitiu alcançar.

    Quando trouxemos as primeiras páginas do novo projeto, o prefeito Magno se encantou, era exatamente aquilo que ele queria. Um livro instigante onde a história pudesse ser degustada, e até ele contribuiu com sugestões, poderíamos dizer que Magno é um coautor da obra, pois noites e noites afora debatemos com ele, em sua varanda, a construtiva da obra.

    Confesso que esse é um dos trabalhos que mais gostei de compor, o mais interessante é que enquanto eu tramava a história colonial, simultaneamente Erik montava à contemporânea, e toda vez tínhamos que negociar o ficcional porque a minha parte devia se interligar à dele, de modo que por vezes ele metia o bedelho na minha seara e outras vezes eu era quem intervinha na sua fatia. Ríamos muito, conversávamos por horas, criávamos situações hilárias, personagens interessantes, enfim, o produto saiu numa harmonia fantástica. Vale a pena ler.

  • Tem coisas que só o vento sabe a resposta

    27/05/2019

    O céu estava azul e só algumas nuvens preguiçosas se moviam com o vento. Levantei os olhos e o céu já estava encoberto, o tempo havia mudado e passei a sentir os ares de uma chuva longe que se aproximava. Voltei à minha leitura, eu lia um livro intitulado “Só o vento sabe a resposta”, romance romântico de Joannes Mario Simmel, ambientado em Cannes. Com a cabeça baixa, inteiramente absorto no enredo fictício, de repente fui chamado à realidade por um barulho que soava como uma saudação hebraica; shalon, shalon, shalon... Era um quadro na parede, que impelido pelo vento, tamborilava por causa da janela aberta. Batendo-se freneticamente, igual ondas implacáveis contra um litoral rochoso, o quadro parecia que estava em convulsão epiléptica e, para evitar danos, urgentemente deitei o livro no birô e corri para fechar a janela. Num só esforço deslizei o vitrô que em segundos dissolveu o uivo ventoso em bramido e depois em assovio até culminar no silêncio, quando a janela se fechou por inteira. De tanto se bater o quadro estava disforme, ajustei-o e me afastei para conferir seu enquadramento, um instante em que fiquei também a contemplar o quadro, que é uma reconstituição histórica que eu mesmo pintei no ano passado para retratar pictórica e hipoteticamente a fundação de Campina Grande.

    É impressionante a nossa capacidade de transformar as coisas, de tornar viável uma retórica abstrata em possibilidade cênica, dar-lhe concretude. Como num passe de mágica, o que antes eram tubos de tinta e uma simples placa de Eucatex, agora é uma retratação do momento em que o sertanista Teodósio de Oliveira Ledo chegou à aldeia da campina grande trazendo para exílio naquele ecúmeno dos índios Cavalcante os selváticos Ariús que, forçados pela rendição, entre imolados e feridos, se salvaram na terrível Guerra dos Bárbaros, insurreição onde se deram os mais hediondos genocídios de que se tem notícia na história dos sertões paraibanos.

    Com os recheios paisagísticos que rodeiam a cena, como a linha serrana de Bodopitá e o primitivo Açude Velho, retratado como uma lagoa exaurida rodeada de matos, sob minha perspectiva e a liberdade que, segundo Sartre, estamos condenados, nesse quadro pude criar um mundo a imagem e semelhança de fatos documentais. Na verdade, o quadro ganha estatuto de veracidade ao elaborar artisticamente a retratação coesa de um episódio ocorrido em 1697, que consta descrito em carta de época, mas que nenhuma testemunha à época o coagulou em imagem.

    Tal perspectiva histórica, obviamente imaginativa, me ocorreu ao tempo em que ia compondo o cenário. Como a agulha magnética se agita e treme quando desviada da direção que lhe é própria, o pincel muitas vezes animicamente parecia ter direção própria. Ao final da obra, que durou duas semanas ao pé do cavalete, eu não sei responder o que nessa composição foi feito conscientemente.

    Arte é transe. Muito do que eu julgava estar fazendo para equilibrar as cores e sombras no painel, revelou-se em sutilezas impensáveis, como, por exemplo, a rústica ternura em que a aldeia se configurou, dá até para sentir o cheiro da palha e da terra pisada, o clima brando do lugar e de seus habitantes, em contraste com o vigor guerreiro dos Ariús, mesmo estando esses com a moral baixa dos derrotados. O modo de Teodósio é de cordialidade, porque veio pedir pernoite aos Cavalcante e solicitar

    exílio para os capitulados de sua guerra, em todo caso, nitidamente o seu semblante não esconde a brutalidade perversa de seu espírito de conquistador.

    Enquanto eu olhava o quadro na parede - agora inerte e em prumo - com suas cores, asperezas e doçuras, pensava comigo sobre as razões que a própria razão desconhece. De onde e por qual via vieram os muitos e irreconhecíveis detalhes dessa obra que eu mesmo materializei? Não sei, foi o vento quem me trouxe a esta reflexão, pensei enquanto retomava a minha leitura. Será que o vento sabe a resposta?

  • Sussurros filosóficos e divagações genealógicas

    13/05/2019

    Genealogia é trabalho moroso, precisa ler muito papel amarelecido, cheirando a ácaros, em grafia arcaica que só quem domina os rudimentos da paleografia consegue decifrar. Cansa a vista. Mas nem tudo nesses estudos é lassidão, pois as pesquisas de campo são mais relaxantes, filosóficas..., eu diria; libertadoras.

    Normalmente faço essas incursões de motocicleta. Meu destino é a região do município de Boqueirão, no Cariri, e logo que venço o perímetro urbano da cidade de Queimadas sigo sem capacete nos ares rurais, com o vento no rosto. Inteiramente ilegal, mas não imprudente.

    A caatinga, tão delicadamente colorida em tons pastéis, tem seus encantos e suas mensagens subliminares. À direita, a cordilheira de Bodopitá parece me acompanhar, graciosa e ondulada como a silhueta de uma donzela, em seu dorso posso ver rochas afloradas em pontos inúmeros, parece uma linguagem em sinais, um código em braile. Já no lado esquerdo da estrada, ao longe, o sol ilumina o oblongo da Serra de Caturité, com todas suas lendas e mistérios. Tudo é perfeito, porque Deus não poderia criar coisa alguma que fosse menos perfeita do que Ele próprio. Li isso em algum lugar, creio que foi Spencer Lewis quem disse.

    O cenário me impregna de serenidade, sinto-me em paz, e sigo a sessenta por hora murmurando um cantarolar sem palavras, só melodia improvisada, enquanto observo o avançar da estrada. Esses caminhos do Cariri tem algo de colonial. Sons sibilantes de chocalhos são audíveis, vejo gado pastando e ouço floreados musicais do vento, que chorosamente sopra uma saudosa canção judaica, pois sigo em terras de velhos refugiados, antigos marranos obrigados a deixar tudo para trás.

    Estou indo visitar um velho parente, um ancião nascido na década de 1920 que ainda goza de suas faculdades mentais. A sanidade é um bem valioso, penso comigo. Ele mora numa casa centenária que pertenceu a seus avós, edificação de pau-a-pique com amarrações de embira e recoberta de barro batido, que segundo dizem é a mais antiga casa da região. O velho primo nasceu, viveu e vai morrer ali, naquele mundo barroco. Viu gerações dos mais antigos, certamente tem muito a dizer.

    Estaciono a moto no terreiro da casa e vejo que estou sendo visto, pois habitualmente ele vive sentado num tamborete vendo o dia passar do alpendre. Antes de me apresentar, ainda junto à moto, roteirizo questões na cabeça e com a vista baixa vejo cacos de faiança no chão enquanto passo em revista meus arquivos.

    Aquele adorável velho, curvo pela idade, de aspecto sifilítico e olhar suspirante me recebeu com alegria e, livre para moldar e remoldar fatos, por horas o ouvi relembrando historias no tempo verbal do passado, fatos de defuntos conhecidos, casos de doenças e de mortes. Enquanto o ouvia, procurando dar expressão gráfica a estas conversas, eu olhava velhas fotografias expostas em vulgares porta-retratos por sobre uma mesinha forrada com uma toalha de flores rendadas. Vejo nesse birô, estilo art nouveau, rimei em meu pensamento.

    Ao som tênue da voz do velhinho, divago por entre imagens inanimadas. Um dia também serei um retrato em algum lugar, pensei comigo.

  • O Vale dos Dinossauros do sertão da Paraíba

    22/04/2019

    Na bacia sedimentar do Rio do Peixe, no sertão árido da Paraíba, está um dos mais interessantes sítios paleontológicos do mundo: o Vale dos Dinossauros, um dos locais mais importantes do Planeta em se tratando de icnografia, ciência que estuda rastros fossilizados de animais, pois em nenhum outro local do mundo há um número e diversidade tão grande de pegadas e trilhas registrando a passagem de animais mesozóicos.

    E não se trata de apenas um local com pegadas fósseis, são, na verdade, centenas de quilômetros de leito rochoso com impressões de rastros de répteis pré-históricos que a natureza preservou durante milhões de anos, dando-nos inúmeros e valiosos subsídios para estudar a vida dos dinossauros, espécies extintas que tanto exercem fascínio na humanidade, especialmente depois do emocionante filme Jurassic Park, de Steven Spielberg.

    Há cerca de 150 milhões de anos, no sertão da Paraíba, a bacia do Rio do Peixe era uma região lacustre, coberta por extensas florestas constituídas, principalmente, por coníferas de baixo porte e diversas formas de samambaias, um ambiente perfeito para o domínio de dezenas de espécies diferentes de dinossauros que, ao transitar no terreno argiloso e úmido do ambiente, deixavam suas pegadas impressas na lama.

    Mudanças climáticas bruscas transformaram aquela região em um semiárido, fazendo com que o alagado secasse e o barro endurecesse, preservando o molde das inúmeras pegadas dos animais que ali transitavam e, como a região é uma imensa fratura geotectônica, durante milênios sofreu o depósito contínuo de sedimentos até preencher sua profundidade com milhares de metros sedimentares acumulados paulatinamente nos períodos geológicos. Com o tempo, a erosão, especialmente o Rio do Peixe, foi aplainando a região no sentido contrário, num trabalho intenso de transporte da cobertura sedimentar que acabou por se evidenciar a estratigrafia cretácea, que se encontrava cimentada por vias naturais. E é exatamente nesta cobertura, formada de barro de boa consistência plástica e areia fina, que as pegadas foram moldadas, quando ali ainda era um substrato mole, e se conservaram até os nossos dias devido à região, por ser semiárida, ter precipitações espacejadas favorecendo que a camada secasse e endurecesse antes das deposições trazida pelas chuvas. Depois de soterrada, a estratigrafia seca e endurecida sofreu infiltrações de sais minerais e tornou-se estrutura sólida, capaz de se conservar por centenas de milhões de anos.

    Os rastros de dinossauros impressos neste ambiente, portanto, foi resultante de uma rara casualidade favorecida pelas condições ambientais. Contudo, o fato de ali haverem pegadas petrificadas não implica, necessariamente, que a região seja propícia para também fossilizar os esqueletos destes répteis. Na verdade o processo que colaborou para petrificar as pegadas atuou no sentido inverso para com as eventuais carcaças destes animais. Pois, devido o longo período de estiagem, os esqueletos que poderiam haver ali se fragilizaram com a longa exposição ao sol e depois, leves e frágeis, eram levados pelos enxurros e quebrados nos atritos contínuos até se decomporem. Todavia, embora improvável, não é impossível que ossos destes animais tenham se preservado na região. Recentemente o Sr. Luiz Carlos Gomes, um pesquisador amador da região, encontrou um osso fossilizado de aproximadamente 50 centímetros encravado na rocha sedimentar da Bacia do Rio do Peixe e mobilizou uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco para examinar a peça. O fóssil foi retirado pela equipe e está sendo analisada no Laboratório de Paleontologia da UFPE.

    Esta região do alto sertão da Paraíba é considerada como uma das maiores concentrações de pegadas e trilhas de animais pré-históricos do mundo e a mais diversificada, pois existem mais de 80 espécies diferentes de dinossauros registrados no sedimento rochoso da região em cerca de 20 níveis estratigráficos com pelo menos 143 milhões de anos. Por onde se anda nos mais de 1.730 quilômetros quadrados do Vale do Rio do Peixe existem pegadas moldadas no solo, cujo tamanho varia de 5 cm (de um dinossauro do tamanho de uma

    galinha), até 40 cm. Devido a plasticidade do solo, as marcas são tão perfeitas que é possível até ao leigo distinguir o tipo de dinossauro que deixou as marcas, os carnívoros bípedes, deixavam no solo as marcas de três dedos longos com suas respectivas garras pontiagudas e os herbívoros quadrúpedes deixam, em geral, marcas de três dedos curtos terminados em garra arredondada. Estes registros icnográficos são de suma importância para se entender os hábitos destes animais, pois, diferentemente dos ossos, as pistas e rastros moldadas nas estruturas sedimentares são documentos dinâmicos, que registram efeitos de atividades e muito podem revelar sobre como viviam estes incríveis répteis mesozóicos da região e, além das pegadas e pistas de dinossauros, já foram descobertos também na região fósseis não marinhos de ostras, conchas, fragmentos de dentes e escamas de peixe, polens, esporos, algas, troncos de madeira e até restos de crocodilos pré-históricos. Por isso, a bacia fluvial sertaneja do Rio do Peixe é um impressionante e valioso patrimônio paleontológico do Brasil.

    Outra preciosidade paleontológica que também vem sendo descoberta no Vale do Rio do Peixe é o petróleo. Uma amostra de óleo, recuperada de um poço na localidade Sítio Salguinho, a 6 km da cidade de Sousa, foi analisada através de técnicas cromatográficas por uma equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro e observou-se características que apontam para um óleo não biodegradado maturo de ambiente lacustre de água doce. Em função da espessura média da Formação Sousa ser de 800m e ocupar cerca de dois terços da área total da bacia, pode representar no futuro uma nova fronteira exploratória para o território brasileiro.

    No entanto, apesar de tanta riqueza (em solo e subsolo), nesta região do sertão paraibano a situação contradiz a intuição comum de quem vem acompanhando estas linhas. O que mais se vê nessa região é a falta de água e o sofrimento de um povo que segue à duras penas na luta pela sobrevivência e pouco entende o valor daqueles “rastros de ema”, como são conhecidos os icnofósseis na região.

    Em fins de 2002, o governo do Estado da Paraíba transformou os 1.730 quilômetros quadrados do Rio do Peixe em Unidade de Conservação Estadual, a ser gerenciada pela Superintendência de Administração do Meio Ambiente - SUDEMA, e na localidade de Passagem das Pedras, a 7km da sede do município de Souza (420 km de João Pessoa), foi instalado um complexo turístico, que ficou chamado de Monumento Natural Vale dos Dinossauros, com museu, quiosques, serviços de guia e passarelas para a observação de uma pista de 50 metros, com pegadas de 40 centímetros, de um iguanodonte de 4 toneladas, 5 metros de comprimento e 3 metros de altura que há aproximadamente 140 milhões de anos cruzou calmamente o atoleiro do leito do rio. Assistir este filme real é uma viagem no tempo de valor inestimável.

  • A Pedra de Santo Antônio

    27/03/2019

    A Pedra de santo Antônio situa-se no município de Fagundes, no alto da Serra de Bodopitá (no trecho que no passado se chamava Serra do Quati), numa altitude de 720m, e trata-se de um gigante monumento granítico, chegando a medir 15m de altura por 8m de largura, cuja magnitude apresenta total destaque na paisagística da Serra.

    O monumento granítico é de fundamental importância cultural, religiosa e econômica para a comunidade fagundense, pois se trata de um local de peregrinação cristã desde fins do século XIX em virtude de uma lenda relacionada a uma imagem de Santo Antônio que possuía poderes extraordinários.

    Conta a lenda que em 1877, devido a grande seca, o Sr. José Felisberto da Silva deixou sua terra natal, em Pernambuco, em busca de uma localidade onde houvesse melhores condições de sobrevivência. Trouxe consigo dois escravos e chegando às fraldas da Serra do Quati, mandou que os mesmos saíssem em exploração. No cume da serra, os escravos se depararam com o grande monumento natural de granito o qual resolveram escalar através de uma gameleira que havia encostada na pedra. A caminho do dorso do monólito os negros, com surpresa, viram numa saliência da pedra uma estatueta de santo. Não mexeram nela, a deixaram exatamente onde estava, mas ficaram curiosos de como e por qual mãos aquela imagem teria chegado ali.

    A notícia se espalhou e o padre da então Vila de Fagundes resolveu reunir alguns fiéis para irem até a Serra se certificar do falatório. Chegando ao monumento, constatou-se que se tratava de uma imagem de Santo Antônio, mas dessa vez trouxeram-na em procissão até a igreja da Vila. Dias depois, a imagem misteriosamente sumiu do altar da igreja e a mesma foi reencontrada na fenda do matacão do alto da serra e trazida de volta à igreja da Vila. Passado mais alguns dias, novamente a estátua desapareceu da igreja, sendo novamente encontrada no mesmo lugar e outra vez a retornaram á igreja. Dias depois veio o terceiro desaparecimento e os fiéis foram em procissão até a pedra resgatar o santo. Entretanto, dessa vez constataram que a gameleira que oferecia acesso ao local onde a estátua teimava em voltar havia caído, sabe lá por que forças, e só assim ficou entendido que a imagem desejava ficar em seu santuário natural. Segundo consta, foi desse modo que se iniciou o ciclo de visitas religiosas à Pedra de Santo Antônio. Acredita-se que se o romeiro passar por uma fenda que se forma entre a pedra e o lajedo que a suporta, realizará seus desejos junto ao santo, especialmente intensões matrimoniais já que Santo Antônio é considerado o santo casamenteiro.

    Uma particularidade que poucos conhecem a respeito desse monumento são os atributos arqueológicos da Pedra de Santo Antônio, que também foi um local de cerimonial primitivo. Uma vez que, em sua face norte, há resquícios de inscrições rupestres pré-históricas. Infelizmente, a maior parte de seus registros rupestres subjazem na fuligem produzida ao longo de mais de um século pelas milhares de velas que são acesas no local, uma vez que as pinturas primitivas se localizam exatamente na lapa natural onde os visitantes realizam suas promessas e orações para o santo católico.

  • Entre as ruínas da antiga povoação de Pedro Velho

    11/03/2019

    Escorado num pilar erguido entre os escombros do que outrora fora a antiga povoação do Pedro Velho, contemplei a desolada vista que se descortinava à minha frente. O vale estendia sua solidão, tudo por ali estava calmo, não havia movimento algum e não se via vivalma em meio aqueles entulhos do passado, somente alguns mugidos vinham de algum lugar impreciso daqueles horizontes errantes.

    O sol estava quente e com o lenço enxuguei o suor da testa e do pescoço. Uma serra adiante, no formato da curva de um seio na penumbra, apresentava uma linha longitudinal na meia-encosta que dividia a vegetação em cores e viços, denunciando a altura que alcançava o Açude de Acauã quando cheio. Mas uma estiagem longa vinha assolando a Paraíba nos últimos anos e foi com a baixa das águas que a povoação em escombros voltou à tona, ruínas que estavam imersas a uns oito metros de profundidade desde quando foi inundada, no rigoroso inverno de 2004, devido a barragem erguida ali nas ombreiras da serra de Acauã para obstaculizar o curso do Rio Paraíba e formar o açude.

    Pedro Velho era uma das mais antigas povoações da Paraíba, o mais remoto registro que encontrei de sua existência é de 1756, mas por certo é mais antiga, talvez até mais do que a povoação de Boqueirão, pois está inserida na Data de Terras de André Vidal de Negreiros, a primeira concedida no interior paraibano.

    A pequena comunidade, com suas edificações (residências, mercado público, matadouro, grupo escolar, igreja e praças) e rodeada de alguns tratos de terra que bastavam para suprir as necessidades da vida cotidiana, esteve submersa por anos, como a lendária Atlântida, mas agora, emersa das águas, eu caminhava como um sobrevivente de guerra por entre escombros e veredas poeirentas.

    Sussurrando dúvidas e sentindo o aroma herbáceo da melosa, que impregnava aquele ambiente ribeiro, à medida que eu andava pelas antigas ruelas, por vezes as cenas do dia-a-dia monótono da antiga comunidade eram revividas com nitidez absoluta na minha mente, e outras vezes, nas veredas do lugarejo histórico, eu me sentia como um viajante entre os frontões do Partenon de Atenas.

    Depois de caminhar bastante cheguei ao pátio disforme onde estava o cemitério da povoação e ali, entre os túmulos espantosamente rígidos, embora bem gastos pelos anos, senti como se estivesse caminhando no submundo de Hades. Era o local que eu pretendia encontrar, minha estada ali fazia parte de um projeto genealógico, pois queria encontrar o túmulo de meu bisavô, Francisco Cosme de Brito, que ali foi sepulto.

    Prematuramente, meu bisavô morreu aos 59 anos de tuberculose, em 1918, deixando nove filhos, entre os quais meu avô paterno e meu avô materno, que eram irmãos. Quando meu bisavô ainda estava doente, seu irmão mais velho, Manoel Cosme de Brito, que morava no Pedro Velho, veio lhe visitar no Sítio Ramada, de Boqueirão, e percebendo a gravidade de sua doença decidiu levá-lo para que pudesse se tratar, já que tinha um médico amigo seu em Natuba, mas nesses tempos essa doença era incurável e meu bisavô faleceu no Pedro Velho, longe de sua esposa e filhos, e agora seus restos mortais estavam ali, em alguma tumba daquele antigo cemitério emerso.

    Depois de vaguear por entre os túmulos em formas de caieira, modelo arquitetônico-tumular típico do século XIX, constatei que nenhum dos jazigos tinha indicativo de seus mortos, sentei desapontado sobre o frontispício de um mausoléu ostentoso, o maior daquele relicário de mortos.

    O vento entoava breves melodias ondulantes, como que vociferando o silêncio dos invisíveis, e na reverberação acima da terra ressequida de vez em quando pude ver um lampejo de aparição que, como uma miragem, desvanecia. Com um leve sorriso afaguei a alvenaria do mausoléu em busca de alguma resposta, pois como ensina Tomaz de Aquino, nada há no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos.

    Vanderley de Brito é Historiador, Arqueólogo e Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande.

  • Em torno do Açude Velho

    27/02/2019

    Numa constante velocidade de 5mph, há mais de trinta anos faço meu cooper de fim-de-tarde no Açude Velho, um ambiente saudável que causa uma profunda sensação de bem-estar, especialmente quando, entre os elegantes arranha-céus, o poente começa a tingir-se de um vermelho luzente.

    Em formato oblongo e orla de dois quilômetros de circunferência, o Açude Velho é o principal cartão postal de Campina Grande e um espelho d’água de belo potencial urbano-paisagístico. Cercado por grandes palmeiras imperiais, quiosques, monumentos de arte, ciclovia, pista de passeio e imponentes edifícios de traços modernos, que se moldam em perfeita harmonia com os ipês e buganvílias que ao longo de seu entorno elíptico dão um colorido especial à ambientação.

    Incorporado ao cotidiano de Campina Grande desde tempos muito recuados, o manancial já era uma lagoa natural antes de se tornar açude, pois uma sesmaria de 1781 já fazia referência “a lagôa das terras que foram dos índios da Missão da Campina Grande” e a obra de Aires de Casal, editado em 1817, trata da Vila da Rainha, vulgo Campina Grande, onde diz textualmente que “seus habitantes bebem duma lagoa contígua”. Portanto, a aldeia de Campina Grande nasceu contígua à lagoa rasa que posteriormente, entre 1829 e 1831, seria convertida em presúria, com sólidas paredes de retenção erguidas em pedra e cal para aumentar sua capacidade de retenção hídrica.

    O Açude foi construído para abastecer a população da então Vila Nova da Rainha, sendo à época o maior reservatório público da chapada da Borborema e indubitavelmente é também um grande depositário de material arqueológico, entre fósseis de animais quaternários, pontas de flechas em sílex, artefatos cerâmicos além de objetos coloniais e novecentistas. É fato inquestionável que no movimento do Quebra-Quilos, ocorrido entre 1874 e 1875, os rebelados jogaram os pesos e medidas confiscados dos comerciantes nas águas do Açude Velho e, certamente, esses objetos ainda se mantém guardados na lama de fundo do velho Açude.

    No começo do século XX, em meio às tabocas, no Açude Velho se viam marrecas, paturis, pássaros em um prado coberto de grossas capoeiras, com soberbas baraúnas, entre outras árvores lenheiras, e veredas formadas pelo cotidiano banho da manhã. Nos arredores, havia casebres de gente humilde, carregadores de água, lavandeiras, pescadores de traíra, tombadores de algodão e carregadores de mercadorias em carroças puxadas por juntas de bois pelas ruas sem calçamento que começavam a nascer ali com a chegada da estrada de ferro em 1907.

    Ostentoso de histórias, o Açude Velho sempre esteve no cotidiano campinense, nos banhos públicos diários, nas pescarias, os inúmeros afogamentos ocorridos, os períodos de fedentina que mexiam com a opinião pública sobre a qualidade de suas águas e até as atuais atividades de recreação diárias do lugar. Tombado desde 2001 como patrimônio de Campina Grande, o Açude Velho possui uma suprema elegância, pois devido a falta de um código de postura para as edificações em seu entorno, cada vez mais o ambiente vem se enfeitando de enormes arranha-céus fazendo deste logradouro um dos mais formidáveis atrativos para a sociedade de Campina Grande.

    Entre belas garças despreocupadas e pessoas de aspecto alegre vou correndo sem pressa e respirando em profundos haustos o ar reconfortante daquela encantadora paisagem. Sem pretensão de flerte passo sorrindo para uma moça, que corresponde ao meu sorriso. Parecendo querer realçar ainda mais o quadro de embelezamento do ambiente, ela possuía um belo busto e não usava soutiens. De metro a metro uma nova curiosidade recreativa vai me distraindo, enquanto isso a noite vem se prenunciando no céu e o entorno do Açude Velho, em indescritíveis cambiates, vai adquirindo novos matizes.

  • Cidade Mulher

    19/02/2019

    A etimologia de um nome de lugar encerra uma recordação que se vai transmitindo na oralidade até seu sentido perder-se gradativamente na obscuridade do tempo. Alguns topônimos são difíceis de encontrar seu étimo, especialmente os derivados de línguas indígenas, mas o nome da cidade de Campina Grande é aparentemente simples, pois já remete a um relato de espaço topográfico. No entanto, este nome de lugar tão remoto evoca uma circunstância que a História não guardou registro.

    No âmago da cidade não se tem a visão espacial necessária para contextualizar a razão de seu topônimo, que certamente lhe foi atribuído por sertanistas falantes da língua portuguesa nos longínquos meados do século XVII e, sem dúvidas, puderam vislumbrar o lugar como um colossal prado em meio à paisagística. Como a colonização dos sertões da antiga Capitania da Parahyba se deu pela porta da cozinha, ou seja, de oeste para leste, é de se supor que, vindo pela trilha que originou a Estrada Real, hoje BR 230, a primeira vista da campina grande ocorreu no alto do vale de Bodocongó, na escarpa do Serrotão, onde ainda hoje é possível avistar a cidade de Campina Grande em toda sua amplitude, planura e beleza. Por certo, ali se originou o topônimo.

    Sempre quando venho de alguma viagem ao sertão, este ponto me é parada obrigatória para fumar um cigarro e apreciar a vista da Praça do Amor, um logradouro descuidado e perdido no meio do nada, onde Campina se mostra metrópole, uma Atlântida temperada no clima agreste. Envolvida pelas cordilheiras de Bodopitá e Massaranduba, como muralhas a vedar um castelo, Campina Grande é um gueto de receptividade, que sem distinção de cor ou nacionalidade, há séculos abriu seus braços para bugres, negros, judeus, mouros, nórdicos e ibéricos.

    Como um enamorado na Praça do Amor, entre o passado, o presente, uma tragada e um pensamento, com Campina a meus pés, plana como uma palma de mão, e esplendorosa como uma princesa de conto de fadas, sinto-me um rei diante de seu porto seguro, sua cidade mulher, de céu azulado e brisa murmurante, como uma voz sensual feminina. Reporto-me então ao primeiro sertanista a vislumbrar esse prado, do alto do Serrotão, e a ouvir os murmúrios eólicos lhe sussurrando à mente repetidamente o topônimo: campina grande, campina grande, campiiiina grandeeee...

  • A Pedra da Torre

    31/01/2019

    Para quem segue na BR 230 no sentido Campina Grande - João Pessoa, na altura do km127 pode observar no lado esquerdo da estrada, sobre uma elevação, uma rocha de formato pontiagudo encimada por uma cruz. Com destaque na paisagística, esta curiosa rocha é conhecida como a Pedra da Torre e é o marco que define o extremo leste de Campina Grande desde 1864, quando o município foi criado e estabelecido os seus limites. Ambiguamente, esta rocha serve também de limite para os municípios de Ingá, Riachão e Massaranduba e, portanto, uma volta em torno deste monumento rochoso cruza simultaneamente o território de quatro municípios.

    Além de ter sido eleita como marco municipal, esta rocha também é um referencial que demarca a borda ocidental do Planalto da Borborema, pois a partir dela começa a descida da escarpa que reduz abruptamente a altitude local de 450m para a ordem de 250m, altimetria que domina a planície do vale do Bacamarte. Desse modo, a Pedra da Torre é uma orientação geográfica de muitos interesses.

    Na pressa do dia-a-dia, ninguém mais se ocupa em observar os atrativos naturais que margeiam as estradas. Com olhos vidrados nos celulares, as pessoas se enclausuram num mundo virtual em desamparo às coisas vivas e curiosidades de alcance tátil, que encorajam o crescimento de laços emocionais. Esse desinteresse que está se generalizando para com a realidade é preocupante, pois se ninguém mais observar o entorno pulsante em breve se extinguirão os poetas, artistas e todo resquício de humanidade que ainda nos resta.

    Por mais inútil que pareça, convido os que trafegam na BR 230 a uma paradinha na estrada para esticar os ossos e visitar a ambígua rocha onde se pode fazer em passos um tour por quatro municípios da Paraíba. Não é assim tão “programa de índio” como se presume, é uma trilha curta, sem notórios obstáculos, em meio à aromática de natureza e a essência de sabores instintivos. Garanto que o desafio será (literalmente) um marco em sua vida, pois terá muito a ver, sentir e refletir, uma vez que, além da bela panorâmica e atmosfera tranquilizadora, a Pedra da Torre é decorada com incógnitas inscrições rupestres. Um enigma. Decerto, há milênios esta rocha serviu também como um marco para os antigos paleoíndios da região.

  • A botija do Rosário

    25/01/2019

    As estórias de botijas envolvem tesouros de moedas e objetos de ouro e prata enterrados, geralmente, no chão e paredes de taperas, cantos de porteiras, casas de farinhas abandonadas, adros ou aos pés de grandes juazeiros, e seriam cabedais deixados pelos holandeses, jesuítas ou ricos fazendeiros, esquecidos por séculos até um suposto escolhido receber através de sonho a indicação do local onde se encontra. A revelação tinha caráter sobrenatural e o ato de inumação era cercado de regras e cerimoniais indispensáveis.

    Segundo os relatos, o resgate devia ocorrer à meia-noite e o escolhido a quem cabia o cabedal teria de ir sozinho arrancar a botija. Mas se não cumprisse fielmente a ritualística de resgate o tesouro “se encantava”, transformando-se em trapos, carvão, cinzas ou simplesmente desaparecia. O empreendimento também exigia coragem, pois era comum aparecer assombrações.

    A Paraíba está repleta de estórias de alguém que já arrancou uma botija e a notificação mais antiga em nosso território data de 1729, numa carta enviada ao Rei D. João V do Ouvidor-Geral da Capitania, João Nunes Souto, tratando sobre o suposto achado de uma botija contendo coisas de valor enterradas na fazenda de Leonardo Pires de Gusmão. Este documento consta no Arquivo Ultramarino de Lisboa.

    Temos, porém, um curioso registro de caso de botija ocorrido em Campina Grande no ano de 1947, quando um popular de nome Luiz Monteiro sonhou que havia uma botija no terreno onde fora demolida a antiga igreja do Rosário, no Centro da cidade, ali por detrás da atual Praça da Bandeira e de frente ao antigo Cine Capitólio. Ávido para pegar coisas de valor, o popular foi de noite e cavou naquele local um imenso buraco, mas não encontrou nada. Também não teve o cuidado de devolver a terra ao seu lugar. Diz-se que naquele ano ocorria a campanha para prefeito da cidade, disputada entre Elpídio de Almeida e Veneziano Vital do Rêgo, e geralmente os comícios na Praça da Bandeira acabavam em briga que, na correria do povo, muita gente caía no dito buraco da suposta botija do Rosário, tesouro que até hoje nunca foi encontrado.

    Publicado no Jornal Correio da Paraíba edição de 04 de março de 2018.

  • À IDA O QUE É DE IDA

    17/01/2019

    Coincidências não existem. Acredito que fatos relacionados acontecem por desígnio de alguma vibração para nos alertar de algo que devemos tomar consciência ou pôr em prática.

    Numa tarde dessas, num “acaso” da vida, encontrei no centro de Campina Grande a memorialista Maria Ida Steinmüller, ou simplesmente Ida, como é mais conhecida. De ascendência austríaca, Ida é uma mulher admirável, com sua elegância, fineza, cintilantes olhos azuis e porte de rainha. Foi ela quem lançou em 2012 a pedra fundamental do Instituto Histórico de Campina Grande, a casa de memória dedicada a Elpídio de Almeida.

    Sempre com seu contagiante apetite memorialista, ela foi me narrando entusiasmada como o senso de dever lhe impeliu a criar o IHCG para salvar um patrimônio que se via condenado às traças e ao esquecimento, e, de rompante, me convidou a conhecer o acervo, no segundo andar do Chopp do Alemão onde funciona a sede provisória do Instituto, e onde, com o esmero de um ourives, ela trabalha reclusa na organização e catálogo deste tesouro.

    Quando chegamos, pude vislumbrar a importância daquele mealheiro de artes e letras, pois, além da biblioteca, o acervo também agrega mobiliário, utensílios e documentos. Passei a tarde ali analisando papéis enquanto ela, em contraste com seu aspecto burguês, se ocupava em carregar caixas de um canto para outro e catalogar velhas fotografias.

    “Por acaso”, dias depois encontrei num sebo o livro “100 anos de Elpídio de Almeida”, e em casa, quando abri o livro, encontrei um marcador de página que fazia publicidade de outro livro cujo título era “A César o que de César”, tirei o marcador sem dar-lhe importância e comecei minha leitura do livro, que reunia os discursos de um evento realizado em 1993 para homenagear o centenário deste importante médico, gestor público e historiador. No entanto, o livro não fazia menção alguma à Ida. Uma digressão histórica, eu diria, porque durante minha análise nos documentos do Instituto pude comprovar através de notas fiscais, ofícios, cartas e fotografias que foi Ida quem organizou cada detalhe do referido evento. Mas, injustamente, nenhum crédito lhe foi atribuído, seja por seu zelo à memória de homenageado ou à sua determinação e empenho na idealização e execução do Centenário em tema.

    Quando tirei as vistas do livro vi em cima de meu birô aquele marcador de páginas que, “por acaso”, viera no interior do livro e dizia: “A César o que é de César”. Então, mentalmente parafraseei a máxima para: “À Ida o que é de Ida” e, como não acredito em coincidências, percebi que me caberia fazer reparação a este injusto lapso histórico.

  • A Ordem Rosacruz de Campina Grande

    10/01/2019

    Ao pôr-do-sol de todos os sábados um grupo rosacruciano se reúne em Campina Grande para a milenar convocação ritualística da Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), uma organização templária aplicada em estudos que visam o aperfeiçoamento intelectual, psíquico e espiritual da humanidade, possui milhares de organismos afiliados espalhados pelo Planeta e é considerada a mais antiga fraternidade do mundo, criada no Egito em 1503 a.C. e, ao longo dos séculos, se espalhou e agregou eminentes pensadores como Leonardo da Vince, Francis Bacon, René Descartes, Isaac Newton, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, entre outros.

    A ritualística da egrégora Rosacruz de Campina Grande tem por objetivo a soma de energias em meditação para irradiar a paz e o bem para todo o compartimento da Borborema. O foco irradiador Rosacruz campinense foi fundado no dia 11 de abril de 1976, numa reunião no Edifício Lucas presidida por Francisco Raimundo Medeiros (Seu Chico) e teve sua sede provisória no primeiro andar da antiga Farmácia do 40. Foi reconhecida como de utilidade pública pela Lei Municipal nº 519, de 1979, e seu templo definitivo foi edificado em 1992 no bairro do Alto Branco.

    A Ordem Rosacruz foi a primeira fraternidade a considerar as mulheres em plena igualdade com os homens, pois desde seu surgimento o sexo feminino gozou de privilégios iguais, incluindo o de cargos. A propósito, importantes mulheres do cenário cultural campinense, como Graziela Emerenciano, Ida Steinmüller, Irene Ponciano e Lourdes Ramalho são rosacruzes. Esta última soror, inclusive, foi a primeira Mestre Rosacruz de Campina Grande, eleita em 1978.

    É relevante destacar que a Ordem Rosacruz, regida sob o símbolo de uma cruz e uma rosa no centro, não é religião, visto que a cruz é um símbolo antiquíssimo constante em inúmeras culturas e sob diversas formas. Na verdade, a Ordem possui membros de diversas religiões e linhas filosóficas, pois evoca o Deus de cada coração para o trabalho conjunto em prol de um mundo melhor e mais pacífico.

    Aos rosacruzes de Campina Grande, que de modo discreto, não mais secreto, há 42 anos mantém acesa a chama de sagração à Luz, Vida e Amor no compartimento da Borborema, desejamos os mais sinceros votos de Paz Profunda.

  • O milho e as festas juninas

    28/08/2018

    Se quisermos nos reportar às origens das festividades juninas devemos recuar nossos pensamentos aos tempos pré-coloniais. O que nós entendemos hoje como manifestações juninas vem dos tempos em que os indígenas comemoravam a colheita do milho, que era um dos principais alimentos desses povos. O solstício de inverno em nosso hemisfério ocorre normalmente no dia 21 de junho e nestes dias os nativos celebravam com uma bebida fermentada tradicional indígena feita a partir do milho, o kaûï, ou cauim. Para a celebração se preparava a bebida em grandes quantidades, que ficavam cozinhando em fogo lento para ser mantida morna. Estas festas duravam entre dois ou três dias, continuamente regada com kaûï, fogueiras, cantos e danças ininterruptas e se davam como agradecimento aos deuses da Natureza pelo suprimento das necessidades. Há inúmeros relatos de cronistas seiscentistas a respeito dessas comemorações indígenas em todo o Brasil.

    É possível que as comemorações da colheita tenham se transformado nas festas juninas no Nordeste com as intervenções dos padres e frades que formaram aldeamentos indígenas sob a administração missionária entre os povos de etnia cariri que viviam ao longo do Rio São Francisco, pois o sistema missioneiro buscou introduzir o cristianismo e um modo de vida europeizado integrando vários dos valores culturais e tradicionais dos próprios índios como referenciais, desde que não entrassem em conflito direto com os conceitos básicos na nova fé. Neste sistema de adaptar tradições indígenas eles aproveitaram o santo cujo dia se aproximava à data da festividade da colheita do milho, São João, de modo a adaptar uma festa pagã ao calendário cristão.

    A região de todo a antigo Cariri de Fora, que se estendia por vasta área e continha cinco grandes centros missionários de nativos cariri; que eram Campina Grande, Fagundes, Pilar, Alagoa Nova e Boqueirão, era administrada por freis franciscanos e capuchinhos e muito provavelmente estes frades foram os responsáveis por adaptar na região as festividades indígenas da colheita em culto aos santos católicos. As músicas, danças e bebedeiras já eram praticadas e, em conjunto com o referencial católico, serviram para o lançamento das fundações das festas juninas como hoje ela é conhecida.

    Embora adaptadas, as festas juninas sempre estiveram atreladas à colheita do milho, a fogueira fazia-se presente, bem como as músicas e as danças. Até muito recentemente ainda se podia apreciar estas festividades em seu modo espontâneo e ligado à liturgia católica, primeiro com a semeadura, em 19 de março, quando se acendia a fogueira de São José, depois a colheita do milho verde, em 21 de junho, quando se acendia a fogueira de São João e por fim a comemoração do milho maduro, em 29 de junho, quando se acendia a fogueira de São Pedro. Hoje, infelizmente, as comemorações juninas perderam muito de seu tradicionalismo, as fogueiras estão proibidas, as novenas deixaram de ocorrer, as festas individuais nas casas e as quadrilhas de rua não existem mais e até as músicas tipicamente juninas deixaram de ser prerrogativa. Vemos hoje aqui em Campina Grande uma festa totalmente descaracterizada, caricata e sem qualquer relação ao catolicismo. Porém, o principal fundamento das festas juninas, mesmo inconscientemente, continua indispensável. O milho.

  • O conto do vigário

    16/08/2018

    Entre fins do século XVIII e início do século XIX um padre de origem indígena chamado Francisco Telles de Meneses, que por muitos anos viveu nos sertões do Nordeste, num sonho voraz de riqueza percorreu diversas regiões entre os atuais estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco e Paraíba, com uma incrível mobilidade para época, em busca de cabedais em tesouro que supostamente os antigos jesuítas e os holandeses teriam enterrado no anseio de protegê-los contra eventuais salteadores e, por motivos ou infortúnios diversos, os teriam esquecido sepultos nos inóspitos rincões nordestinos, cujos roteiros foram codificados em caracteres e figuras ignotas nas rochas.

    Sem dúvidas, o vigário era um exemplo peculiar de religioso que, ao invés de se embrenhar na caatinga para converter almas aos ensinamentos cristãos e lhes oferecer a salvação eterna ou levar conforto espiritual aos sertanejos carentes e sofridos, era um típico aventureiro andarilho, que se tornou o mais resoluto caçador de tesouros que a História do Brasil registra.

    Vivendo quase no anonimato, o padre Telles escreveu um opúsculo intitulado “Lamentações Brasílicas”, que ofereceu ao então príncipe regente, D. João. Na obra, o vigário trás mais de cem apontamentos de inscrições rupestres, algumas visitadas pessoalmente e outras referenciadas pela narração de pessoas que as viram. Algumas inscrições foram copiadas pelo padre e os desenhos constam no manuscrito de seu punho.

    Certamente, o religioso não logrou êxito em sua obstinada busca dos sonhados tesouros imaginários. Todavia, seu prolífero recolhimento de dados sobre inscrições rupestres nordestinas é hoje, para nós pesquisadores, um inestimável tesouro.

    Na Paraíba, o padre indica 21 localidades onde existiam inscrições em pedras, inclusive a hoje célebre Pedra do Ingá é assinalada entre os recolhimentos do sacerdote.

    Particularmente, não creio que o padre Telles imaginasse que tais inscrições assinalassem tesouros e que estes supostos cabedais fossem, de fato, seu objeto de busca. O imagino como um pesquisador, movido pela inquietude, que usava o argumento como pretexto para que o povo lhe guiasse aos locais das inscrições, estimulados pela cobiça. Ainda hoje é corrente entre as comunidades rurais esta folclórica versão de que os holandeses e jesuítas teriam deixado enigmas escritos nas pedras assinalando um suposto roteiro de seus tesouros enterrados. Tanto que são freqüentes as notificações de escavações na base de monumentos arqueológicos, por homens do meio rural, a procura dessas supostas botijas, ainda embalados pelo velho conto do vigário.

  • Fósseis da PB: meu primeiro artigo

    16/07/2018

    Há exatos 14 anos eu publicava meu primeiro artigo, até então só escrevia relatórios internos para a ONG onde desenvolvia minhas atividades e pesquisas sobre arqueologia e pré-história paraibana, mas incentivado pelos colegas enviei um artigo para a redação do Diário da Borborema sobre a presença de fósseis na Paraíba e a necessidade de se preservar esse bem, o trabalho foi publicado na edição de 17 de julho de 2004 e depois disso me tornei articulista perene do jornal.

    Ao longo desses 14 anos foram mais de 400 artigos publicados em jornais, revistas científicas e populares, anais, capítulos de coletâneas, boletins informativos, blogs, além de cinco livros e alguns títulos em Literatura de Cordel. Portanto, este artigo piloto me levou para o universo das letras e a partir dele desenvolvi minha escrita e também incentivei muita gente a escrever, de modo que hoje, neste jornal online, estou republicando o trabalho, o mesmo publicado há 14 anos, pelo valor de interesse público da matéria e para que os leitores possam observar que nesses muitos anos, embora tenha melhorado consideravelmente em termos de pontuação e linguagem, mantive o mesmo espírito de escrita.

    OS FÓSSEIS DA PARAÍBA

    O termo fósseis, designa quaisquer restos ou vestígios deixados por seres animais ou vegetais, de qualquer tamanho ou natureza, que tenha vivido no planeta antes de 5.000 anos e que, após a morte, tendo sido soterrados por sedimentos, chegaram a se preservar nos mesmos, durante milhares ou milhões de anos.

    Ainda podemos entender como fósseis, vestígios ou marcas deixadas nas rochas por organismos pré-históricos, mesmo que hajam desaparecido todas as porções que compunham tais organismos. As impressões de marcha ou rastejo de um organismo podem se conservar numa areia úmida ou lama, como é o caso do Vale dos Dinossauros em Souza, que também são considerados fósseis.

    O estudo destes testemunhos é competência da paleontologia, pois os fósseis são significativamente importantes para esclarecer o passado remoto do planeta e suas formas de vida.

    O Estado da Paraíba é extremamente rico em jazidas fossilíferas, principalmente cretáceas e pleistocênicas, espalhadas por todas as regiões do Estado. Porém, apesar do Decreto Lei n º 4.146 assinada em 4 de março de 1942, pelo então Presidente da República Getúlio Vargas, que considera os depósitos fossilíferos brasileiros propriedade da Nação passíveis de proteção, nosso patrimônio fóssil, desde pelo menos o século XVIII vem sofrendo depreciações e saques.

    O Programa de Conscientização Arqueológica- PROCA, uma ONG da cidade de Campina Grande que, desde a década de 90 vem desenvolvendo um levantamento do patrimônio pré-histórico do Estado em paralelo com um projeto de conscientização sobre a importância e valor deste acervo, já catalogou dezenas de jazidas fossilíferas que, infelizmente, constam relatos de “pesquisadores” que subtraíram diversas peças fósseis sob a alegação de que serão analisadas. Em algumas localidades há informações até da saída de caminhonetes carregadas de fósseis para destino ignorado.

    Naturalmente, o sertanejo em sua humildade, apenas nos dá informações vagas que nada contribuem na identificação dos responsáveis. O que mais lamentamos é o fato de sabermos que a maioria destes saqueadores do patrimônio fóssil paraibano são professores que utilizam o nome das universidades para justificar a retirada das peças que acabam se destinando à coleções particulares dos mesmos.

    O PROCA procura incentivar as prefeituras paraibanas no sentido de criarem museus ou mesmo depósitos públicos para armazenar as eventuais peças fósseis que tenham sido retiradas de seu contexto, numa política de manter o acervo paleontológico em seu município de origem.

    A providência a ser tomada quando acontecer de alguém vindo de fora, querer levar fósseis de uma localidade, mesmo que ajam muitos, é não permitir sua retirada. Pois trata-se de patrimônio da União e, só é permitido a pesquisa e coleta de material fóssil em território brasileiro se for autorizada e fiscalizada pelo Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura. Caso aja persistência, a polícia local deve ser acionada, pois a retirada indevida deste material constitui crime contra a União.

  • O obelisco do Açude Novo, uma homenagem indevida aos Ariú.

    11/06/2018

    Em 1975, na gestão do prefeito Evaldo Cruz (1974-1976), a Prefeitura Municipal de Campina Grande quando estava edificando o monumento obelisco no meio do largo do Açude Novo, que deveria ser o marco zero das coordenadas urbanas da Cidade e também uma homenagem aos índios Ariú, então considerados os primeiros habitantes de Campina Grande, o obelisco em construção para homenagear estes indígenas acabou por gerar uma dúvida em meio aos vereadores de Campina: teria sido mesmo os índios Ariú os primeiros habitantes de Campina?

    A dúvida era pertinente e para tentar elucidar esta questão o líder arenista da Câmara Municipal de Campina, vereador José Luís Júnior, trouxe para palestrar na sessão do dia 03 de setembro do corrente ano o pesquisador Balduíno Lélis (presidente da seção paraibana do Centro Brasileiro de Arqueologia), sobre este assunto.

    Lélis, com um longo e eloquente discurso, acabou por afirmar que os indígenas Cariri já habitavam a região antes dos Ariú serem trazidos do sertão e aldeados em Campina pelo famoso sertanista Theodósio de Oliveira Ledo.

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    Ainda não satisfeitos, os vereadores preferiram consultar outro especialista e para a sessão da Câmara Municipal do dia 16 de setembro o vereador Lindaci de Medeiros convidou o professor José Elias Borges (do Instituto Histórico de campina Grande), profundo conhecedor sobre os indígenas paraibanos, para esclarecer este impasse sobre para quem se deveria dirigir à homenagem: aos Ariú ou aos Cariri?

    Enfático, o professor Borges endossou o diagnóstico de Lélis afirmando que a região de Campina já era aldeamento de índios Cariri, e que os Ariú, vindos do sertão trazidos por Theodósio de Oliveira Ledo em 1697, foram acrescidos à aldeia já existente na campina grande.

    Particularmente, há anos sou amigo do velho Balduíno Lélis e também fui amigo de José Elias Borges, que lamentavelmente faleceu em 2010. Ambos se dedicaram com afinco e responsabilidade ao estudo dos povos indígenas da Paraíba e, de fato, tinham anuência para resolver o impasse, como o fizeram. Meus estudos sobre esta questão, alçados em documentos coevos que estes estudiosos não tiveram oportunidade de manusear na época, não deixam dúvidas de que Campina Grande já era uma aldeia de índios Bultrins, da nação Cariri, muito antes de Teodósio chegar com os Ariú e os assentar nesta aldeia. Portanto, os verdadeiros fundadores de Campina Grande foram de fato os índios Cariri e nãoos Ariú.

    Apesar do esforço da Câmara para elucidar o caso e mesmo ante o diagnóstico apresentado por estes importantes estudiosos, o monumento obelisco, construído em concreto armado no centro do largo do Açude Novo, medindo 45 metros de altura, contrariou a História e foi erigido em homenagem aos índios Ariú. Coisa de políticos!

    No projeto inicial, o monumento deveria receber imagens em alto relevo nas suas quatro faces com esculturas de cimento simbolizando os índios Ariú. Mas esta decoração artística acabou não sendo feita, creio que em virtude da dúvida lançada.

  • FREI DAMIÃO, CIDADÃO CAMPINENSE

    04/06/2018

    Frei Damião di Bozzano nasceu em 05 de novembro de 1898 na cidade de Bozzano, na província italiana de Lucca. Em 1914 ele ingressava na ordem dos Capuchinhos e em 1923, com vinte e cinco anos de idade, é ordenado na Igreja de São Lourenço de Brindisi, em Roma. Estudou na Universidade Gregoriana, saindo com doutorado em teologia, filosofia e direito canônico. Neste mesmo ano assumiu o cargo de vice-mestre de noviços no convento de Villa Brindisi, três anos depois foi para o Convento de Massa como diretor e professor e finalmente, em 1931, foi designado para o Brasil, vindo para a Custódia de Pernambuco onde exerceu o magistério por nove anos e foi Diretor do curso de Filosofia e Teologia do Recife.

    A partir de 1940 Frei Damião começou sua peregrinação, chamando a atenção dos humildes e devotos pelos povoados, vilas e distritos dos sertões pernambucanos. Figura carismática, de barba crescida e falando ainda um latim misturado ao português, ele conseguia ser entendido pelos seus bons gestos e pela fé com que conduzia suas pregações, tanto que logo foi reconhecido e aclamado como um santo homem.

    Conduzindo sempre um crucifixo amarrado a um fio vermelho, batina rota e alpargatas velhas, com rachaduras nos pés castigados pelas andanças nos sertões do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, centenas de milagres foram atribuídos ao missionário, mas este sempre negou a condição de santo e quando assim era chamado dizia: “tenho apenas fé e peço aos que me ouvem que tenham fé e rezem para Deus e Nossa Senhora”.

    Não me compete aqui montar uma biografia desde grande missionário do Nordeste, que por onde passava reunia multidões de devotos e fanáticos para ouvir suas pregações ou tentar pegar em alguma parte de seu corpo a espera de um milagre, pois Frei Damião é demais conhecido, meu objetivo aqui é mostrar o vínculo que este missionário tem com nossa cidade. Poucos sabem, mas Frei Damião é filho honorífico de Campina Grande.

    Isso desde a noite de um sábado agitado no Parque da Estação Velha, no dia 13 de agosto de 1976, quando foi organizada uma Sessão Especial da Câmara dos Vereadores para a entrega do título de Cidadão Campinense ao capuchinho.

    Frei Damião chegou em Campina Grande ás 18:30h, sendo recebido por uma multidão no Convento de Santo Antônio onde ficou hospedado até o momento do evento, que se iniciou às 20h. Prestigiado por um público incalculável de gente da cidade e vinda do interior que tomou todo o largo do Parque da Estação Velha. Além do povo em geral, participaram do evento várias autoridades campinenses, tendo na oportunidade usado a palavra o bispo diocesano Dom Manoel Pereira, o prefeito Evaldo Cruz, o vereador Rildo Fernandes (autor do projeto de cidadania), o presidente da Câmara, vereador Genésio Soares, e, por fim, Frei Damião, que humildemente agradeceu a homenagem e conclamou a todos para amar a Deus acima de tudo.

    Frei Damião faleceu há dezoito anos, em 31 de maio de 1997, e está em processo de beatificação e canonização. A cidade de Guarabira, na Paraíba, foi a última cidade onde ele passou em missão e lá foi erguido um monumento e um memorial para o Frei, em João Pessoa tem uma maternidade pública com seu nome e em Campina Grande tem uma rua no bairro do Alto Branco em sua homenagem.


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