Colunista Vanderley de Brito

Historiador com especialização em arqueologia, escritor, genealogista, poeta, roteirista para teatro e cinema, articulista e artista plástico. Autor dos livros “A Serra de Bodopitá”, “A Pedra do Ingá”, “Arqueologia na Borborema”, “Missões na Capitania da

  • A primeira descoberta do dia

    21/10/2020

    Quando a gente abraça um idealismo a vida passa a ter mais sentido. A convicção de estarmos fazendo algo que excede o acúmulo individual dá nova perspectiva à assistência enquanto seres pensantes. Porém, este tipo de dedicação foge à compreensão da maioria das pessoas, o que nos faz pensar, às vezes, se há resultados em dispensar tanta energia, custos e dedicação a um projeto memorialista. Especialmente quando nos deparamos com obstáculos mesquinhos que, por vezes, de um só golpe atroz, desmoronam dias de trabalho árduo e dedicação a uma etapa em andamento. Ontem foi um dia desses. Nossos esforços de semanas caíram por terra diante de negativas e empecilhos inesperados.

    Amanheci cansado e desiludido, mas, mesmo assim, depois de um desjejum mecânico, sentei diante do computador para delinear as alternativas de contorno aos danos do dia anterior e reedificar o otimismo. A primeira tarefa do dia seria redigir um ofício, mas logo descobri que qualquer frase que quisesse usar era propensa a ser vaga, a menos que cada palavra fosse cuidadosamente estudada. A frase mais simples exigia medir palavras e, definitivamente, não me encontrava com espírito para compor um texto apreciável. Pensei em me reprogramar para resolver outra demanda, o rascunho de anotações sobre a mesa elencava pelo menos cinco urgências a serem feitas. Reli uma a uma, mas nenhuma delas me ocorreu por onde começar. Então percebi que não era dia para isso, meu ânimo estava para baixo e minha capacidade de discernir com clareza embicava a mesma direção.

    Olhei para a janela por cima do monitor e vi que o dia estava bonito, como um dia de domingo. O céu azul, com poucas nuvens, e resolvi convidar a velha motocicleta de guerra para um passeio incerto no rumo meridional. É revigorante sentir na pele o calor do sol e o frescor do vento. Saímos então, eu e a moto, e, vencido o labirinto urbano, tomamos a estrada rumo do Cariri. Depois de meia hora de paisagens passantes e áridas, trinta quilômetros de asfalto ficaram para trás. Um vento ribeiro e familiar anunciava a ponte do riacho Bodocongó pouco adiante, ali é a demarca que, no sentido norte-sul, separa o resto do mundo da terra de meus ancestrais. Gosto do sabor incerto destas plagas de antigos judeus desterrados, inalar o cheiro de curral, de terra ferruginosa, com sua flora odorante, e me aprofundar no silêncio deste pedaço de mundo proscrito. Não fui rever ninguém, fui por ir. Parei num lugar insólito, num meio do nada, encostei a moto à sombra de uma algarobeira e desci a pé a encosta da pista. Atravessei uma cerca de arame farpado, como um fugitivo de Auschwitz, e segui andando a esmo pelo prado, a deriva, como um judeu errante.

    Adiante, parei um instante para apreciar um facheiro, que com mãos erguidas para o céu me fazia lembrar um menorá, o chamado candelabro de sete braços, símbolo exclusivo do povo judeu, usado pelo menos desde o tempo do Êxodo. Fiquei absorto, maquinalmente meu corpo se deslocava para frente e para trás, murmurando uma espécie de orquestração iídiche de memórias antigas, como se tivesse em oração comigo mesmo, no meu próprio muro das lamentações. Já dizia um texto talmúdico que cada homem é sua própria sinagoga.

    Continuei andando, as folhas de marmeleiro, de cor verde-cinza, agitavam-se nos mais diversos padrões, virando-se para o sol e faiscando como pedras preciosas. Enquanto vagueava, cabisbaixo, eu ia cavoucando a parte superficial do solo com o pé, quando notei um objeto se projetando da terra. Não parecia um seixo, abaixei para examinar, era um pequeno fragmento de cerâmica, ligeiramente quebrado num lado, uma peça comum naquelas bandas. Pensei em ignorá-la, mas reconsiderei: era minha primeira descoberta do dia.

    Cuspindo nos dedos, limpei o caco até deixá-lo livre de terra, leve e opaco em minha mão. Segurando-o entre o polegar e o indicador perguntei a mim mesmo – Nível? Idade? Proveniência? Sentei-me na ruína de uma velha cocheira de alvenaria, tirei meu caderninho de anotações e preenchi com cuidado meticuloso os dados sobre a peça, sua estratigrafia, vitrificação, cozimento, os elementos que forma a argila, se havia sido alisado a mão, um chumaço de palha ou uma cuia... Seria anterior a era cristã?

    Com traços precisos da caneta desenhei a peça e indiquei a escala 2:1, o que significava que o desenho era duas vezes maior do que o original. Ao por o ponto final levantei o rosto e pensei comigo: - Que segredos perdidos ainda têm por aqui? A resposta foi o silêncio daquele lugar ermo. Percebi, então, que aquele achado deflagrou meu instinto metodológico e eu não estava mais com aquela sensação turva e indistinta que me trouxera ali. Tão feliz quanto um homem pode ser, acomodei o fragmento cerâmico no molde de terra do qual o tirei e retornei pra casa, ansioso para voltar a trabalhar e contornar os obstáculos, apenas pelo simples prazer de fazer novas descobertas que venham contribuir com os ideais memorialistas.

  • A última sacerdotisa das artes clássicas

    22/09/2020

     Hoje, é o aniversário de Elisabeth Marinheiro. Betinha, para os mais íntimos. Quantos anos? Não importa, ela é atemporal. Como uma sacerdotisa consagrada ao culto da bela e boa arte, em 1970 Betinha criou em Campina Grande a Fundação Artístico-Cultural Manoel Bandeira, FACMA, uma epopeia cultural que encantou o mundo com seus sete grupos artísticos de corais falados, teatro, conjuntos instrumentais, balés e corais de canto. Um magno projeto que até hoje ressoa na memória dos que saborearam tais emoções.

    A FACMA foi um dos mais ousados movimentos culturais já implantados em nossa cidade. Gerações de artistas floresceram dali e grandes nomes da política e da cultura nacional reverenciaram este magnífico spectacle.

    Além de idealizadora e benemérita, Betinha foi a primeira presidente da Fundação, que à época tinha por sede uma dependência da Escola Normal. E sua gestão foi, sem dúvidas, a mais efervescente. A FACMA viajou pelo nordeste e sudeste do país e se enveredou no além-mar para fascinar a Europa. Para os jovens que arregimentou ao projeto, foi mestra, mãe e, sobretudo, pai. É uma mulher disciplinadora e muito rígida, quando necessário. Entretanto, democrática, logo assim que terminou seu mandato a frente desta casa sementeira de arte e cultura, passou o bastão para uma nova equipe eleita. De todo modo, se manteve atenta e informada, como uma boa mãe que vigia seus rebentos, e agindo indelicada e energicamente quando percebia qualquer sinal de que a FACMA se desvirtuava de sua erudita liturgia para atender aos apetites de massa. Indispôs-se com muita gente pela causa.

    Escritora e crítica literária, há anos eu já acompanhava as letras de Elisabeth Marinheiro por suas “Tessituras”, no extinto Jornal da Paraíba, mas só vim a ser-lhe apresentado no ano passado. Confesso que sua fama era assustadora, diziam-na briguenta, mal-humorada, esnobe e neurótica. Uma bruxa. Arquétipo que, na minha cabeça, muito imaginativa, eu a concebia como a encarnação da Maga Patalógica. Mas o conjunto de sua obra me atraia, eu precisava conhecê-la, mesmo que fosse para ser enxovalhado.

    Fui-lhe apresentado por Ida Steinmuller. Entretanto, em poucos segundos a imagem dantesca se dissipou, pois vi uma mulher culta, de suprema elegância, que imediatamente se passou na minha mente de Maga Patalógica à Sophia Loren. Embora bem menos austera do que antes, seu rosto reflete autoridade e um peculiaríssimo autodomínio que inspira respeito e admiração. Foi empatia à primeira vista, tanto de minha parte quanto da dela. Conversamos muito, rimos, fumamos como duas caiporas e dividimos a inquietude do limite imposto pelo prazo normal de uma vida humana. Parecia que nos conhecíamos há décadas.

    Para se compreender uma pessoa é preciso se identificar com ela, e foi isso o que aconteceu. Somos idealistas, ela uma ativista cultural e eu um memorialista, que lutamos com todas as nossas forças e ímpeto pelo que acreditamos. Não tentamos angariar simpatias, nem tampouco bajular ninguém para obter vantagens. Somos honestos em nossas convicções e, a de se convir, isso incomoda muita gente.

    Hoje, 22 de setembro, quero parabenizar madame Betinha. Não apenas pela data comemorativa de seu nascimento, mas também pela proeza e ousadia de, por

    cima de tudo e de todos, criar e fazer duradoura em nossa cidade uma entidade cultural de concepção clássica como a FACMA. Uma utopia que se fez verbo.

    De todos os pejorativos que ouvi sobre ela, um deles lhe faz justiça: Betinha é briguenta, mas, como já dizia o rosacruz Nicolas Flamel: “altos voos são reservados às águias, não as aves domésticas”.

  • A flor de um cortejo

    11/09/2020

    Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Pode parecer piegas iniciar um texto recitando esta máxima shakespereana, mas, bem antes do dramaturgo inglês, uma série de textos antigos, como os hieróglifos egípcios de Amon-Rá, a Cabala, os Vedas e até a Bíblia, já propagavam a ideia da existência de um mundo paralelo em consonância com o nosso mundo físico. Entretanto, apesar das inúmeras “coincidências” notáveis que nos ocorre no dia-a-dia, ainda estamos longe de formar uma ideia nítida e precisa sobre as influências cósmicas que nos rodeiam.

    As origens deste intenso movimento memorialista atual do Instituto Histórico de Campina Grande remonta uma manhã nublada, 27 de março de 1971, quando uma mocinha, filha de imigrantes austríacos, na flor dos dezesseis anos, pele alva, cabelos louros, sardas no rosto e intensos olhos azuis, ajudava a mãe na limpeza do túmulo de seu pai, sepulto ali, no cemitério do Monte Santo. Era uma atividade rotineira mensal delas desde 1966, quando Willy Steinmuller falecera, deixando a viúva e oito filhos pequenos.

    Concluída a tarefa, mãe e filha voltavam para casa, mas ao chegarem à margem da alameda principal do campo santo avistaram um grande cortejo fúnebre que tomava todo o largo da via sepulcral. Em sinal de respeito, elas estacionaram no meio-fio para ver o caminhar do funeral e, pelos que carregavam as alças do ataúde, logo perceberam que se tratava do cerimonial de enterro de Elpídio de Almeida, homem ilustre e muito querido em Campina Grande, médico, historiador e ex-prefeito da cidade. Elas assistiam o desfecho de uma morte ocorrida no dia anterior que todos os noticiários locais informaram consternados.

    Com olhos e gestos tímidos, a mocinha ensaiou pesares. Não conhecia o morto, o tinha visto vivo apenas uma vez, de longe, mas sabia que era um grande vulto da cidade. Ela também conhecia a dor de perder um ente querido, por isso sentiu-se solidária com aqueles familiares de olhos sofridos.

    No passar do cortejo, por “acidente”, uma margarida branca, caiu do enxoval fúnebre aos seus pés, ela baixou para apanhar e, inerte com a flor na mão, acompanhou com os olhos o séquito até o seu destino, no final da alameda. Mal imaginava a mocinha que aquela flor desgarrada do cerimonial lhe fora a entrega de um designo, um encargo de quem estava de ida para quem estava de vinda do cemitério.

    A vida tem lá seus mistérios, pois a mocinha que estava de vinda agora é Ida, Ida Steinmüller, uma mulher que há mais de uma década, inconscientemente e apaixonadamente, carrega à flor da pele o compromisso assumido pelo historiador Elpídio de Almeida em 1948, quando criou o Instituto Histórico de Campina Grande para a conservação da memória histórica de nossa cidade.

    Nas idas e vindas do destino, vieram os improváveis. A mocinha tornou-se contraparente de Elpídio, tomou-se de paixão pela causa e herdou seu legado. Naquele dia 27 de março de 1971, Ida poderia estar em qualquer outro lugar da cidade, mas estava no Cemitério do Monte Santo. A flor do enxoval poderia ter caído em qualquer outro ponto da extensa alameda, mas caiu aos seus pés. Coincidência? Creio que não. Ela recebeu uma honrosa missão, que lhe foi sucedida em flor.

  • O incrível Balduíno Lélis

    01/09/2020

    No início do decênio de 1950, Balduíno Lélis, um jovem e perspicaz caixeiro viajante, de espírito inquieto, se inicia no fascinante universo do conhecimento científico. Movido por um halo de romantismo, se deixa encantar pela arqueologia e dá início a um dos momentos históricos mais dinâmicos da pesquisa do passado em território paraibano.

    Era uma arqueologia incipiente, é certo, amadora, pueril, a base de improvisos, colhendo dados, ora precisos, ora falhos, sobre os mais diversos aspectos do passado pré-histórico da Paraíba, mas que atendia aos paradigmas do conhecimento da época e hoje são fontes ricas e importantes para o estudo de nossa arqueologia e paleontologia regional.

    Ao lado de seu mestre, o emérito Leon Clerot, este jovem e indomável pesquisador investiu toda sua energia e capital na busca de um passado distante cujos testemunhos resplandeciam ignotos por onde quer que fossem, e, juntos, construíram a mais áurea época da arqueologia clássica paraibana.

    Encerrado o apogeu do período que convencionamos chamar de “Era Clerot”, com a morte de seu patrono, o jovem Lélis permaneceu escovando fósseis e sondando vestígios dos homens pré-cabralinos, nunca abdicou ou rarefez o mister, e ainda hoje, apesar de já passar dos oitenta anos, é um exímio pesquisador e referência das mais nobres para todas as gerações emergentes de estudiosos da área.

    Eu mesmo, periodicamente, visito em consulta este veterano arqueologista na cidade de Taperoá para (como ele mesmo diria) esmolar conhecimentos. É sempre aprazível ouvir seus sóbrios ensinamentos, proferidos de modo pausado, quase solene, com enigmáticas ressonâncias shakesperianas, sobre arqueologia e, sobretudo, acerca de fatos históricos dessa ciência no âmbito regional. Um perfeito orador, ora soberbo, ora fleumático, seus conhecimentos parecem infinitos e abrangem várias áreas do conhecimento simultaneamente – tão completo quanto possível. Criando panoramas virtuais e transpondo os limites cronológicos, Lélis, com dotes de hipnótico, parabolista e de gênio, mostra faces extraordinárias e imprevisíveis da arqueologia. Embora às vezes exagere na imaginação e é prudente ao ouvinte guardar as devidas ressalvas.

    Seus conhecimentos extrapolam qualquer área científica, é exímio conhecedor de arqueologia, paleontologia, etnografia, museologia, arquitetura, tupinologia, cultura, cinema, artes e até língua portuguesa. Para aqueles intelectuais de seu grupo etário, ele é louco. Outros o consideram folclórico, alegórico e um perfeito animador de platéias. Também há aqueles que o acham um cínico e muitos o consideram fascinante. Contudo, em meio às críticas, num ponto seus algozes e admiradores são unânimes: Balduíno é extraordinariamente sábio.

    Não há como desdenhar. Esse velho pesquisador paraibano, surreal por excelência, é de uma inteligência digna de admiração, pois, mesmo sem cursar qualquer academia formal é, indiscutivelmente, um dos maiores insignes do patrimônio intelectual de nosso Estado.

  • Ontem no Templo da FACMA

    10/08/2020

    Ontem, dia 08 de agosto, na sede da Fundação Artístico-Cultural Manoel Bandeira, a FACMA, ocorreu o evento de eleição e posse da nova diretoria da instituição. O evento foi autorizado pela Curadoria das Fundações, pois a FACMA estava acéfala há algum tempo, e mesmo em tempos de pandemia, era emergencial aclamar um novo presidente. Erik Brito era o indicado.

    Embora muito jovem, com 26 anos, o moço, além de historiador, reúne inúmeros talentos artísticos, como teatrólogo, cineasta, guitarrista, ator, romancista e tem prestado importantes serviços à cultura local através a Casa Paisá e também à pesquisa e conscientização patrimonial, como membro do Instituto Histórico de Camina Grande, e anos à frente da presidência da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

    Que a escolha foi muito adequada não há dúvidas, pois além de ser um agente da cultura muito ativo, Erik é um sangue novo para esta casa cinquentenária. A cultura de hoje tem novas linguagens que nós, da velha-guarda, não conseguimos assimilar. Mas não é sobre esta aclamação em si que quero falar aqui, este tipo de evento é praxe de instituições, é sobre a singularidade irrepetível deste evento em específico.

    Como uma chuva de entrada de inverno, que faz a erva brotar súbita e milagrosamente do solo, o chamado para este evento soou como uma ebulição do espírito para os convocados, que há meses se viam confinados em casa. Uma intimação de Mademoiselle Betinha Marinheiro é irrecusável, mesmo em situações adversas.

    Medidas de cuidados foram tomadas. O evento ocorreu no hall de entrada da FACMA, em espaço aberto e ventilado, e, para evitar a aglomeração de pessoas, os convocados vieram em horários diferentes, os mais cuidadosos só cumpriam o ritual de votar, cumprimentar os presentes, o novo presidente, e logo se iam, mas outros, aqueles que realmente precisavam exorcizar a abstinência de espaços culturais, estes chegaram cedo e só saíram nas últimas ressonâncias do evento.

    Por mais que me esforce para aproximar o leitor da atmosfera festiva do evento, só mesmo sentindo na alma do próprio palco. Parecia que forças magnéticas, pulsante de energia e vitalidade, envolviam aquela Catedral da Cultura. Era como se ali se reunissem os últimos sacerdotes de Atena, ou um grupo de judeus para um Sabá em tempos de inquisição. Aliás, ontem foi sábado.

    Reconhecer gente infectada pelo vírus da cultura é fácil. Como um colarinho clerical identifica um padre, o ser movido pela obsessão de semantizar a arte e o saber, se revela pelo semblante inquieto, principalmente quando se encontra com seus semelhantes.

    O intelectual- idealista, de modo geral, é um ser solitário. Passa a maior parte do tempo em silêncio na falta de interlocutores. Afinal, as pessoas ditas “normais” não alcançam a obstinação por ideais coletivos, principalmente quando esta obstinação vem em linguagem erudita. Falta ler muito para se compreender quem leu muito. Desse modo, quando um intelectualizado se encontra com seus pares, aí as conversas fluem. Não esqueço o brilho nos olhos de Félix Araújo Filho, numa conversa empolgada comigo, Ricardo Bezerra, Erik e os críticos literários José Mário Branco e Elisabeth Marinheiro. Irrequieto como uma criança, ele falava com lirismo e uma eloquência desenfreada.

    Nos bastidores do evento, cada grupo em conversa era assim, os rostos refletiam a felicidade do reencontro. Por um tempo fiquei escorado numa coluna do Templo da FACMA a olhar os grupos em animados diálogos, imunes ao Covid-19 e ao mundanismo urbano, como fossem pessoas completamente incorpóreas.

    Num palavreado confuso, liturgias acadêmicas, ideias fantásticas, gestos extravagantes e sorrisos espremendo os olhos vítreos nos rostos cobertos de máscara. Como não dava para ver as bocas se movendo, parecia que falavam uma linguagem sensorial. Pra mim, aquele instante ficou eterno.

     
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  • Avenida Theodósio de Oliveira Ledo

    13/07/2020

    Muitas vezes me pergunto qual à razão da principal artéria de nossa cidade ser denominada de Av. Floriano Peixoto. Ele foi o segundo presidente da República do Brasil, lá dos tempos da República da Espada, um militar, carioca, que consolidou a República recém-instalada, mas que nunca esteve em Campina Grande e nem executou qualquer obra ou ação administrativa que viesse beneficiar nossa cidade. Sinceramente, até hoje estou sem saber por que, ou porque dessa escolha.

    Sem lógica aparente, me ocorreu que seu nome foi dado à avenida apenas pelo fato dele ter sido Presidente da República, mas é contestável a legitimidade dessa sucessão, pois a Constituição da época já versava em seu artigo 42 que novas eleições deveriam ocorrer quando o presidente renunciasse antes de dois anos de mandato, que foi o que aconteceu na época, Floriano era vice do Marechal Deodoro e assumiu o cargo depois da precoce renúncia do presidente em exercício.

    Não é uma questão de exorcizar, ou dizer que Floriano Peixoto não é digno de ser homenageado, ele teve lá suas virtudes, tanto que a atual cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, recebeu esta denominação em homenagem a Floriano Peixoto. O que quero dizer é que, por não ter nenhuma representatividade em nosso âmbito local, o seu nome caberia sim em alguma rua, mas não precisamente naquela que é a espinha dorsal da cidade. Esta avenida em pauta merecia levar o nome de um personagem heráldico de nossa História local, preferencialmente o Capitão-mor Theodósio de Oliveira Ledo, que foi o fundador de Campina Grande e cujo nome tem uma identidade e força sonora que remete às raízes de nossa historicidade, do ecúmeno ao município.

    É fato que este sertanista já tem um nome de rua na cidade, mas, convenhamos, é uma ruazinha acanhada e curva de 150 metros de extensão. Na verdade, é mais uma alameda que liga a Av. Getúlio Vagas à Rua Félix Araújo, e vice versa, do que propriamente uma rua. É de se convir que essa ruela, perdida nos labirintos das antigas Boninas, em nada se equipara ou faz justiça à importância deste personagem para a nossa História.

    Pode até parecer picuinha. Mas temos ponderáveis argumentos em favor de substituir respectivamente os nomes destas ruas, dando o nome de avenida principal da cidade ao seu fundador e o da ruela das Boninas ao Marechal que nada representa efetivamente à nossa História. É uma questão de justiça à memória local, de separar o joio do trigo, os canônicos dos apócrifos. Já dizia Tolstoi: “Se queres ser universal, cante sua aldeia”.

    Vivemos numa cidade amnésica. Nomes de vultos identidários de nossa História e historiografia, como Paulo Soares de Araújo, Francisco Camilo. Chistiano Lauritzen, João Lourenço Porto, Juvino de Souza do Ó, Lino Fernandes, Demóstenes Babosa, João Rique Ferreira, Epaminondas Câmara, Hortensio Ribeiro, Bezerra de Carvalho, Dulce Barbosa, José Lopes de Andrade, Edvaldo do Ó, José Elias Borges, e muitos outros, pouco são rememorados. Quando muito, recebem uma homenagem tacanha que pouco favorece à semantização memorialística.

    Esse é um assunto que devia ser levado em pauta na nossa Câmara dos Vereadores. Minha argumentação à mudança do nome da Av. Floriano Peixoto não

    está somente atrelada ao nome sugerido ser o do fundador de Campina Grande, fato que por si só já seria mais do que suficiente. A atual Av. Floriano Peixoto também está ligada histórico e genealogicamente a este personagem. Seu leito inicial foi o primeiro logradouro da aldeia de Campina Grande. No século XVII, foi erguido ali um cruzeiro sobre base de cantaria por um frei franciscano trazido à aldeia pelo Capitão-mor Theodósio de Oliveira Ledo para elevar a aldeia à categoria de Missão. Depois, quando se deu a elevação à categoria de Freguesia, o lugar virou largo da Igreja Matriz, quando nossa catedral era apenas uma ermida. No século XVIII, elevada à categoria de Vila, sob a administração política de Paulo Soares de Araújo, um trineto de Theodósio, foi erguido ali o pelourinho, depois vieram os primeiros edifícios públicos preenchendo o largo... a cadeia, o Paço Municipal, as moradias dos mais ilustres, e o largo ganhou a categoria de rua, Rua do Progresso. Na década de 40 do século XX, o prefeito Vergniaud Wanderley, que era descendente direto de Theodósio, foi quem ousou e abriu a avenida e, já no finalzinho do vigésimo século, o prefeito Félix Araújo Filho, também descendente direto de Theodósio, se encarregou de estender à Avenida até a Alça Sudoeste, abrindo o caminho para o Sertão, como que refazendo o caminho de seu ancestral, que veio do Sertão para fundar nossa cidade.

    Como um carma genealógico, Theodósio de Oliveira Ledo faz parte do passado e do presente desta via, que, na contramão da História e do bom senso, hoje se chama de Av. Floriano Peixoto.

  • O túmulo do cangaceiro Antônio Silvino

    17/06/2020

    Nascido no Pajeú pernambucano, com apenas 23 anos de idade, em 1898, Antônio Silvino foi o primeiro “rei do cangaço”. Líder de um grupo de bandoleiros, por meia década reinou absoluto nas caatingas, promovendo assaltos a povoações, fazendas, feiras e estradas desertas, com uma frequência e mobilidade tão intensa que o imaginário popular o alçou ao patamar de mito.

    Ao longo de sua trajetória, Antônio Silvino demonstrou atitudes cavalheirescas e gestos de generosidade, adquirindo fama de vingador justiceiro, cortês e comedido. Em suas atividades, poupava adversários valentes, prezava amizades, respeitava damas, donzelas, velhos, crianças, devotava profunda honra às mulheres casadas e distribuía entre os pobres boa parte do dinheiro e mercadorias resultantes de suas pilhagens. Seu modo operante era mandar pedir dinheiro aos mais abastados para a mantença do grupo e fazer a arrecadação na data marcada, geralmente de modo pacífico, pois só agia com violência quando a solicitação lhe era negada ou se tivesse contas a acertar com o alguém.

    Constantemente perseguido pela polícia, suas façanhas ocupavam manchetes nos jornais e eram assuntos na Literatura de Cordel, meios que o tornaram lendário. Segundo comentava-se, o líder cangaceiro tinha o poder de encantamento, sumia do nada, se transformava em árvores e troncos e até as volantes acreditavam nessas estórias. Para uns, ele tinha trato com o demônio, para outros era proteção divina.

    Antônio Silvino nunca ousou invadir a cidade de Campina Grande, que era muito bem protegida por uma força do exército, mas na região do município suas atuações e ousadias eram constantes, até que em novembro de 1914 assaltou a povoação de Pocinhos, fez sua coleta de dinheiro e quando se evadia, passando nos arredores da Fazenda Cabeça de Boi, de Christiano Lauritzen, prefeito de Campina Grande, a quem havia mandado pedir dois contos de réis e lhe fora negado, invadiu a fazenda para vingar a desfeita, mas como a fazenda estava sem gente, mandou matar os animais, inclusive um imponente boi Zebu, de altíssimo valor financeiro, foi atacado a tiros de rifle. Porém, aconteceu um fato inusitado, o animal resistiu aos tiros e por um bom tempo acompanhou a marcha dos bandidos, berrando com o sangue esguichando, e chegando junto a Antônio Silvino, soltou um mugido longo e sofrido, e tombou morto.

    Supersticioso, o cangaceiro viu naquilo um agouro e, coincidência ou não, dias depois, uma grande ação policial cercou o grupo de Antônio Silvino que, atingido gravemente na região torácica, se entregou mediante garantia de vida e, desse modo, a temida fera do sertão foi cumprir pena de cinquenta anos na Casa de Detenção do Recife por seus crimes ao longo de dezesseis anos de cangaço. Todavia, depois de cumprir 23 anos de pena, em 1937 o presidente da República, Getúlio Vargas, lhe concedeu Alvará de Soltura por bom comportamento e, aos 65 anos, Antônio Silvino recomeçou sua vida no Rio de Janeiro, agora uma vida honesta. Quando mais velho, andou pelos sertões revendo velhos amigos e visitando diversos lugares por onde percorreu durante sua vida bandida, até 1944, quando, doente e alquebrado, o velho cangaceiro veio morar na casa de uma prima sua em Campina Grande, onde morreu sereno em 28 de julho de 1944.

    Centenas de pessoas se acotovelaram no cemitério para um último adeus àquele que, apesar de bandido, foi justo e bondoso com muita gente pobre. Em ataúde humilde, seu corpo frio desceu ao túmulo e uma singela cruz de madeira foi plantada sobre a cova. Até hoje os restos mortais desse lendário cangaceiro jazem na terra que nunca assaltou, no cemitério do Monte Santo, onde um simplório monumento fúnebre foi erguido em sua memória.

    Vanderley de Brito é historiador, arqueólogo e Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande.

    Legenda para a imagem: Antônio Silvino (no centro) em 1914, a foto em destaque acima é Antônio Silvino já velho e a foto baixo é o monumento que lhe foi erguido no cemitério do Monte Santo, onde jaz seus restos mortais.

  • Habemus sedes!

    01/06/2020

    Muita gente não compreende a importância da História. Já cansei de ser questionado a respeito: “pra quê eu quero saber das histórias de gente morta?” ou “Eu vou ganhar o quê com isso?”. Sinceramente, a ignorância não me incomoda, mas sinto pena dessa gente cuja vida se limita a “panem et circenses”. Salvo poucas exceções, essa é a mentalidade predominante em nossa cidade.

    Do mesmo modo, a função dos historiadores também é ignorada, como se fosse uma coisa nova. Mas não é. Hoje grande parte de nossa cultura se deve a historiadores, por exemplo, a sobrinha de Heródes, aquela que pediu a cabeça de João Batista, qualquer um que conhece as histórias da Bíblia sabe responder que ela se chamava Salomé, nome que até ficou proverbial. Mas, o fato é que nos originais do Novo Testamento não há o nome de Salomé. Os evangelhos a tratam apenas como “filha de Herodíade”, pois o nome da “filha de Herodíade” foi-nos transmitido por Flávio Josefo, um historiador que viveu naqueles tempos. Ou seja, se não fosse o registro de um historiador este nome estaria perdido para a História.

    Bom, mas voltando ao assunto, me preocupa o desinteresse e a falta de zelo em nossa cidade pelos documentos históricos. É lamentável o descaso dado à escultura em bronze da cabeça do tribuno Raymundo Asfora, afixada em monumento no contorno da Av. Brasília. Ela foi tirada para reparos e até hoje não foi restaurada nem tampouco devolvida ao seu lugar, está jogada num depósito há anos.

    Campina é assim, sempre desleixada com sua memória e patrimônio. Os danos aos bens históricos de nossa cidade acontecem repetidamente, como um refrão. Basta lembrar a Samaritana, escultura do artista Abelardo da Hora que embelezava a Praça da Bandeira, obra que custou caro aos cofres municipais e desapareceu depois de uma reforma na Praça. Destinos também insuspeitados tiveram os bustos de Félix Araújo e de José Américo, que estavam expostos nas praças erguidas para homenageá-los. Nossa cidade é um verdadeiro museu de objetos desaparecidos.

    Os roubos também são constantes, principalmente quando se trata de peças de bronze. Roubaram a cruz de malta que havia no monumento a Theodósio de Oliveira Ledo, da Praça Clementino Procópio, e destino semelhante teve a placa de inauguração desta praça, bem como a do Parque do Povo. O que passa na cabeça de quem remove uma placa inaugural para vender o bronze? Duvido que se consiga mais do que oito reais num quilo deste metal, não compensa nem o risco. Pior, não lembro ter havida diligência policial para tentar solucionar o paradeiro destas peças.

    Cada placa dessas tem uma história a contar, seus textos são fontes históricas, são guia, fio de Ariadne, para rememorarmos o passado ou dissipar dúvidas. Mas para a ignorância de quem as rouba, são como inscrições cuneiformes. Incompreensíveis.

    Porém, nem tudo é fruto de ignorância, pois não são apenas os desinformados que furtam memórias, tem gente esclarecida, até com formação acadêmica, que pousa de memorialista, mas, na verdade, são acumuladores de relíquias históricas, que afanam, compram ou se apossam de objetos e documentos apenas para cultuar ou gabarem-se de possuírem isso ou aquilo. Pra mim isso não é memorialismo, é uma infusão de vaidade, egoísmo e hipocrisia. Sinceramente, sou mais tolerante aos furtos movidos pela ignorância do que os resultantes desta peçonha.

    Com essas perdas, a presença de Alzheimer está cada vez mais se consolidando na cidade. Mas não adianta ficar chorando o leite derramado, é preciso cuidar do que ainda resta do passado e dos bens que se produzem continuamente no presente. E só existe uma forma de se fazer isso: reunir tudo numa casa voltada para a guarda e zelo. Não estamos falando de nada novo, a Basílica de São Pedro, por exemplo, conservou em guarda a essência da tradição ocidental, que sobreviveu até a queda do poderoso “Imperium Romanum”. Debaixo do altar-mor da Basílica estão guardados os restos mortais do apóstolo Pedro e até hoje existe um alto e esguio obelisco na Praça de São Pedro que o imperador Calígula mandou vir do Egito de navio. Em cadeia viva de geração em geração, a Basílica vem reunindo documentação ininterruptamente por mais de dois mil anos e até os dias atuais, registros milenares extraordinariamente elucidativos, que até hoje podem ser consultados.

    Seguindo esta mesma linha de raciocínio, o lugar mais seguro e adequado para se guardar os registros históricos de nossa cidade é, sem dúvidas, o Instituto Histórico de Campina Grande, uma casa de memória sem vínculos políticos, criada em 1948 e mantida por gerações de idealistas.

    Infelizmente, por muitos anos nosso Instituto sobreviveu sem uma sede própria, pois o descaso com a memória em nossa cidade vem de longe, e a primeira sede que possuiu foi devido à visão intelectualizada do Prefeito Evaldo Cruz, que em 1977 deu o antigo prédio onde funcionou o Telégrafo Nacional, para sediar o Instituto. A permanência do Instituto ali resultou na criação do Museu Histórico de Campina Grande, que ainda hoje funciona no prédio.

    Em 1983, o Instituto foi desalojado do prédio e o Museu se passou à municipalidade. De modo que, só muito recentemente o Instituto pôde vislumbrar a fumaça branca da memorialidade e dizer: “Habemus sedes!”. Desde então, estamos trabalhando diuturnamente para estabelecer a casa da memória de Campina Grande, a fim de perpetuar a atmosfera essencialmente histórica do município, preservada e disponível para os estudos e rememorações da contemporaneidade, mas, sobretudo, das gerações vindouras, que talvez possam compreender melhor a importância da História.

  • Quando bárbaros invadiram o Teatro Municipal

    07/05/2020

    Era um daqueles momentos surreais da vida. Lá estava eu, no palco do Teatro Municipal, trajado de Papa, para encenar uma peça que escrevi. É isso mesmo. Pra quem não sabe, eu também sou ator e dramaturgo. Só não esperava um dia voltar aos palcos.

    Iniciei ainda adolescente minha carreira no universo teátrico, isso por volta de 1985, no Teatro de Bolso Procópio Ferreira, no Rio de Janeiro. Depois, quando cheguei em Campina Grande, em 1988, ingressei numa companhia de teatro infantil chamada “A Turma do Aladim”, onde fizemos apresentações nos teatros, no Forrock, em quase todas as SABs da cidade e até animamos festinhas de aniversários. Com uma dinâmica impressionante, depois partimos para as turnês pelo interior do Estado, com atuações em muitas cidades. Cheguei a ter o privilégio de me apresentar no mais antigo palco da Paraíba, o histórico Teatro Minerva, de Areia, inaugurado em 1859.

    Mas tudo um dia se acaba e tive de interromper minha trajetória mambembe em princípios da década de 90 porque, como todos sabem, teatro não dá dinheiro. Cuidei em casar, esquecer o teatro e tentar levar uma vida “normal”, mais estável.

    Passaram-se os tempos, e eu não contava com o velho adágio popular de que: “filho de peixe, peixinho é”, e muitos anos depois meu filho Erik, com 14 anos na época, resolveu por conta própria ingressar no mundo dos palcos. Fui assistir todas as suas peças e acompanhei sua evolução, tanto no teatro quanto no cinema, bem como a sua carreira de historiador, pois, confirmando outra vez o adágio, ele também se formou em História.

    Até que, certo dia, ele me disse que estava interessado em montar uma peça de conteúdo histórico e me desafiou a escrever um texto para transportá-lo aos palcos. Foi então que escrevi a peça “A invasão dos bárbaros”. Ele me ajudou com os entrementes técnicos, como inserir no texto as marcações, objetos de cena e as deixas para a iluminação e a sonoplastia.

    O enredo trata sobre o instante fugaz em que o huno Átila, que pretendia invadir Roma, conversa em reserva com o Papa Leão I e o pontífice o convence a desistir da invasão. A História não revela o teor desta conversa, mas utilizei ponderáveis argumentos para suscitar uma hipótese, pois, como dizia Flamel: “sempre resta um pouco de luz, mesmo nas mais profundas trevas”, e utilizei do discurso comédia para encenar o suposto episódio.

    De algum modo, a peça transcende o nível episódico, ela brinca com a curvatura do tempo, um jeito anedótico de instigar a reflexão, tão zombeteiro, bem a meu estilo, que, quando encerrei o texto percebi que somente eu poderia representar o Papa. Sem querer, o papel foi feito pra mim, até minha barba branca coadunava com o personagem.

    Os ensaios foram hilários, havia muita coreografia e os atores tinham liberdade para adicionar novos elementos à cena. Para o elenco convidei meu irmão Delírio Brito, experiente ator e um dos melhores comediantes que já conheci, ele fez duplamente os papeis do Imperador romano e do general uno Orestes. Igualmente com dois papeis, Erik Brito fez um soldado da guarda romana e também representou o bárbaro Átila. Minha filha Shirley Brito, estreante em palcos, fez o papel do notário, que era um filho bastardo do Papa. Foi uma boa troca de experiências, um palco com dois veteranos quase cinquentões e dois jovens com menos de vinte anos. Por se tratar de uma peça em família denominamos o projeto de “Companhia de Teatro os Britous”.

    O figurino foi de Rayane Ribeiro, a maquiagem e cenário foi encargo de John Paulino, a locução coube a Sheila Dias Farias, a sonoplastia a Alexandre Pedro e a peça “A invasão dos bárbaros” estreou no Teatro Municipal Severino Cabral com duas apresentações, nos dias 10 e 11 de julho de 2014. Não lotamos o teatro, mas conseguimos mudar hábitos, pois barbarizamos trazendo para a arena teatral campinense um público bem diferenciado, sobretudo de empresários, memorialistas, alunos e professores universitários.

    Pisar nos bastidores do teatro novamente, foi uma experiência indescritível. Sentindo a essência daquela catedral cênica, cujas paredes exalam um velho e simpático cheiro, desses cheiros que parecem prestes a falar, pelo espelho do camarim, emoldurado de luzes, me vi envolto no magno personagem do Papa Leão I, com traje ostentoso, prestes a determinar o rumo da história do mundo ocidental e atrair risos. O teatro é magia, faz verbo da barbárie e da utopia. Em suma, foi desse modo que os bárbaros invadiram o Teatro Municipal de Campina Grande, mas se a História ocorreu exatamente como sugere ou roteiro... jamais se soube.

  • Quem quer a cadeira de João Carga d’Água?

    17/04/2020

    A praxe do patronato para associações de intelectuais é muito antiga. Escolhem-se ilustres nomes para determinar os assentos e a tradicional ritualização de posse de novos membros é rememorativa ao patrono da cadeira e cercada de ritualística; tem o ato de recepção, o aspirante elogia o patrono na cadeira inscrito, depois vem a babação sobre os ocupantes antecessores e, por fim, assiste um discurso elogioso sobre si próprio, pronunciado por um membro da casa (é muído pra mais de uma hora). Isso tudo vem seguido do protocolo da entrega da joia, fardão, diploma e a teatralização se encerra com um coquetel oferecido pelo novel, onde todos, muito bem trajados, se confraternizam, tiram fotos e, claro, comem e bebem fartamente. É uma perfeita noite de gala e o novo membro ainda sai imortal dessa.

    Quando assumi a presidência do Instituto Histórico de Campina Grande, em maio de 2018, logo percebi que as vagas do mesmo não eram numeradas e também não tinham seus respectivos patronos proclamados. Entretanto, descobri que já havia a intensão do IHCG se adequar ao tradicional sistema e até uma lista de notáveis nomes, aprovados em reuniões, estava disponível para formar o quadro de patronos. Só faltava completar com mais uns dez nomes para se adequar ao número estatutário de vagas e botar a coisa em funcionamento.

    Fui analisando cada nome e entre estes figurava o nome de João Carga d’Água, um analfabeto que nunca realizou qualquer produção intelectual para a cidade. Seu nome destoava dos demais historiadores, poetas, cronistas e cientistas, então perguntei a Ida Steinmüller, fundadora do IHCG, o porquê daquele nome estar elencado, e ela me respondeu que foi numa reunião de membros que o nome foi sugerido para se prestigiar um personagem negro e pobre do subgrupo social de nossa história. Diz que o muído foi grande, com o pessoal do estereótipo na defesa desse nome, e ninguém era doido de vetar, senão passaria por excludente e conservador.

    Entendi o cliché. Embora ajam controvérsias, o nome aludido era um perfeito “oprimido” das cartilhas marxistas, e se encaixava como uma luva no perfil do “politicamente correto”, tão em voga hoje em dia.

    Pois bem, comecei a convidar os membros para assumir um patrono, a princípio oferecendo os nomes a alguns sócios que se alinhavam ao patrono por laços de familiaridade ou linha de estudo, por exemplo, a cadeira de Félix Araújo não poderia pertencer a outro que não fosse seu filho, Félix Araújo Filho. Argemiro de Figueiredo ficaria com seu neto Guilherme Almeida, Passinha Agra foi direto para Alarcon Agra do Ó e a cadeira de Anésio Leão foi para sua irmã, Leônia Leão. Outros foram por afinidade direta, como Antônio Bióca, que não teria ocupante mais acertado que Mário Vinícius, e Dom Luiz Gonzaga Fernandes que, convenientemente, foi para o Padre Hachid, nosso representante do clero.

    Depois disso, os nomes restantes foram sendo apresentados aos demais sócios e a briga maior foi pra ver quem ocuparia a cadeira de Elpidio de Almeida, o patrono-mor do IHCG. Cheguei até a lidar com caras feias porque pelo menos três sócios pleiteavam esta vaga, que teve de ser submetida à análise de afinidade e ficou, enfim, para o também médico Evaldo Dantas da Nóbrega.

    Foi um processo até fácil essa oferta e entrega informal de patronos aos sócios, afinal tínhamos excelentes produtos: Irenêo Joffily, Epaminondas Câmara, Hortensio Ribeiro, Bezerra de Carvalho, Assis Chateaubriand, Amaury Vasconcelos, Raymundo Asfora, Ronaldo Cunha Lima, Christiano Lauritzen, Lynaldo Cavalcanti, Machado Bittencourt, Lopes de Andrade, Lia Mônica Rossi, Vergniaud Wanderley e assim por diante. Todavia, o processo já está quase concluso, os brancos de nomes franceses, cheios de “ypsolones”, foram até disputados na tapa e um nome foi ficando excluído: exatamente o do negro João Carga d’Água, que já deve estar se revirando no túmulo.

    Obviamente, consultei os que defenderam ferrenhamente que o nome do negro figurasse na lista de patronos do IHCG, mas, sendo estes professores doutores universitários federais, nenhum se interessou, optaram por um destes nomes da elite branca e opressora. Teve gente que até se ofendeu com minha sugestão, dizendo que merecia ocupar uma cadeira à sua altura na cátedra. Vou fazer o quê? Dei-lhe razão!

    Enfim, eu só sei que as cadeiras já estão quase chegando ao final e até aqui ninguém se habilitou a ocupar o assento do lançador de rapaduras. Imaginem vocês o meu desespero! Não posso excluí-lo ou substituir por outro nome, foi uma decisão de reunião e, afinal de contas, eu é que seria acusado de ditador, racista e elitista. De todo modo, tenho que achar um ocupante para a cadeira e estou até pensando em lançar o seguinte edital promocional: “Está vaga a cadeira de João Carga d’Água, o fantástico revolucionário que liderou em Campina Grande a revolta dos matutos contra os doutores. O cara é um mito, tem até uma estátua numa praça da cidade, e quem ficar com a cadeira receberá de brinde adicional um frasco de Óleo de Peroba 200ml, para conservar, lustrar e renovar a cadeira, protegendo-a contra ação do tempo e deixando um cheirinho agradável de móvel limpo”.

  • Entre Foucault, Certeau e Chatô

    13/04/2020

    Caraca! Esse confinamento por causa dessa bixiga do coronavírus é um saco. No começo ainda dava pra aguentar, mas já faz um bocado de dias, ate perdi a noção de tempo. Às vezes fico andando de um lado para o outro dentro de casa, me sinto como um animal enjaulado.

    Acho que vou escrever um artigo pra passar tempo, um artigo cabeça, que tal? Talvez uma reflexão sobre as práticas ordinárias ou algo que envolva a relação entre poder e conhecimento, sei lá, um artigo que cite pensadores franceses, algum desses Micheis do universo teórico, como Foucault ou Certeau. Pensando bem, pra quê escrever sobre esses caras chatos? Esse tipo de artigo só serve de munição demagógica pra alimentar a retórica de universitários boçais. Acho vou escrever sobre Chatô, meu conterrâneo, esse sim era um cara legal.

    Assis Chateaubriand, de francês só tinha o nome, era paraíba da gema, nascido em fins do século XIX lá nos confins dos agrestes e saiu daqueles ermos para se tornar um dos homens públicos mais influentes do Brasil, magnata das comunicações, dono do maior conglomerado de mídia da América Latina e chegou até ser membro da Academia Brasileira de Letras. O cara foi longe.

    Vocês sabiam que foi Chatô o responsável pela chegada da televisão ao Brasil? Pois foi, ele inaugurou em 1950 a TV Tupi, a primeira emissora de TV do país. Foi ele também que fundou a primeira emissora de TV do Norte/Nordeste do Brasil. Adivinha aonde! Em Campina Grande. Estou falando da TV Borborema.

    O cara era uma figura. Mandava e desmandava a seu bel-prazer, foi Senador da República, embaixador do Brasil na Inglaterra e foi ele quem criou o Museu de Arte de São Paulo, isso mesmo, o MASP. Era um bola cheia, amigo pessoal de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Villa Lobos, e os inimigos dele eram do naipe do industrial Francisco Matarazzo. Mas, apesar de poderoso e rico, Chatô nunca negou suas origens. Quando foi embaixador em Londres só ia para os eventos de chapéu-de-couro, que nem Daniel Duarte!

    Pra vocês terem uma ideia, Chatô escreveu e publicou mais de onze mil artigos, e não escrevia nada parecido com esse besteirol teórico dos Micheis. Escrevia coisas sólidas, praticáveis, tangíveis, porque ele era um cara que, como ninguém, sabia fazer acontecer.

    O “cabeça de paraíba” falava inglês, francês, alemão, viajou o mundo, pegou as mulheres mais desejadas do país, foi piloto de avião, inclusive foi o segundo piloto de avião do Brasil, só perdia para Santos Dumont (a propósito, os dois não se bicavam) e foi ainda mecenas das artes, colecionador de obras artísticas, promoveu a Semana de Arte Moderna de 1922. Não é brincadeira não, o cara tem hoje uma cidade com o seu nome e foi até enredo de escola de samba.

    Pois é, Chatô não era nada entediante. Cheio de arbítrios e caprichos, com certeza, se estivesse vivo hoje em meio a essa pandemia já teria quebrado a quarentena, se saindo com sua célebre frase: "Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei".

  • Morte e ressurreição de Inácio Doido

    19/02/2020

    Campina Grande é cidade de grandes cronistas. Sem pensar muito, posso destacar alguns nomes de vulto neste gênero, como Cristino Pimentel, Hortensio Ribeiro, Átila Almeida, William Tejo e Chico Maria. Porém, há um cronista-contista que poucos ouviram falar, um ilustre desconhecido que, em minha opinião, foi um dos maiores que a Rainha da Borborema já produziu. Chamava-se Álvaro Leão.

    O descobri casualmente, quando organizava a mudança do acervo do Instituto Histórico de Campina Grande para sua nova sede, que será inaugurada na Rua Maciel Pinheiro. Dentre os livros do gênero “História local”, encontrei um já bastante amarelecido pelo tempo, com as folhas se soltando, sob o título “Aconteceu em Campina!...”, coletânea composta pela reunião de quarenta fatos hilários acontecidos em Campina Grande nas primeiras décadas do século XX. Obra e autor que até então eu desconhecia completamente.

    Trouxe o livro pra casa e venho lendo atentamente cada crônica, que já me renderam boas risadas. Além de ser uma divertida leitura, o livro expressa grande riqueza em retratações da velha Campina, em termos cenários, factuais, sociológicos, econômicos e, sobretudo, semânticos. Mas o leitor deste artigo deve estar pensando o que tem a ver isto com a temática a que o encarte Memorial se propõe. Eu explico: Dentre as crônicas de Álvaro Leão há uma intitulada “Inácio Doido” que, além de curta, se enquadra perfeitamente no tema. Vejam a narrativa:

    “Ninguém era mais posudo que Inácio Doido, isto é, devido às roupas velhas que lhe davam. Era um chiquê danado!... era atacado, numa média de quatro vezes por mês de epilepsia. Tinha mania de grandeza; só pensava em ser ministro de Estado, senador ou presidente da República. Passava os dias pelas ruas e dormia no rancho de Zé Paulino. Era inofensivo, contava histórias e fatos interessantíssimos. Era ele o cinema dos sertanejos almocreves que se aboletavam no rancho.

    Uma noite, Inácio contou histórias, cantou, recitou poesias até altas horas e às quatro da manhã “morreu”. Os sertanejos sentiram muito a repentina morte do infeliz que, poucas horas antes, tanto os divertia. Combinaram então fazer-lhe um enterro condigno; cotizaram-se, compraram caixão e mortalha, e, às 14 horas, lá se foi o cortejo fúnebre para o cemitério. Ia tudo muito bem; mas, ao confrontar o local onde é atualmente a Praça Félix Araújo, o “defunto” estremeceu; os sertanejos, assustados, pararam, e o “defunto” danou-se a gritar e forçar a tampa do caixão.

    Os carregadores, assombrados, soltaram o ataúde no chão e correram para todo lado. Inácio arrombou a tampa do caixão, levantou-se assombrado consigo mesmo e, quando se viu amortalhado, saltava, gritava e se rasgava todo, em plena rua. Com o mesmo horror de quem tira de cima de si uma cobra venenosa, Inácio se rasgava todo jogando fora os pedaços da mortalha. Aos pulos e aos gritos, foi acabar de se despir numa oficina de ferreiro existente próximo, naquele tempo. Foi uma tragicomédia!...

    Sete anos depois, Inácio Doido morreu mesmo, e só lhe deram sepultura depois que começou a entrar em estado de putrefação.”

    Foi um fato real, acontecido em Campina, que Álvaro Leão rememorou com graça e detalhes. O protagonista, certamente, teve uma crise de catalepsia, que é um mente, teve uma crise de catalepsia, que é um surto onde a pessoa fica catatônica, embora haja funcionamento das funções vitais de forma quase imperceptíveis. Ainda hoje a medicina não consegue explicar este distúrbio, mas sugere que pode ser induzida por predisposição a problemas neurológicos graves, como a epilepsia, por exemplo. Os sertanejos, sendo de fora, nem imaginavam que Inácio Doido era epiléptico. Precipitaram-se para enterrar o infeliz e, coitados, quase morreram de medo.

  • Os caça-títulos

    14/01/2020

    Hoje de manhã, no frescor de um sol tímido, da janela eu observava a Serra de Bodopitá, cordilheira que enlaça o horizonte sul de minha Campina Grande. Se formos procurar ver as coisas por diferentes perspectivas, poderíamos encarar poeticamente esta Serra como uma arte talhada pelo cinzel de um escultor divino e colossal, mas, na crueza da realidade, nada mais é do que um paredão de entulhos, espólio de algum movimento geológico pré-cambriano. Como já dizia Chaplin, “a vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”.

    Nesse raciocínio, por correlação temática, ou ambivalência, me veio à lembrança um tipo de gente que na minha época chamávamos “denorex”, que parece, mas não é (podem procurar a respeito no Google), que são os conhecidos caça-títulos (sem eufemismo), uns ridículos muito comuns nos meios intelectuais.

    Preocupados em ser alguém importante na vida a qualquer custo, os caça-títulos vivem de colecionar pomposos certificados, seja de sócio de agremiações, associações literárias, títulos-cidadão, membro de comissões analíticas, conselhos editoriais ou qualquer coisa que lhe renda extensão curricular. Esses indivíduos conquistam seus títulos através de subornos, choradeiras e adulações.

    Contraproducentes a qualquer instituição, os caça-títulos não acrescentam em nada, depois de titulados desaparecem, adicionam o título ao currículo e transferem sua choradeira e bajulação para outra conquista de título; são insaciáveis.

    Posso até detalhar o arquétipo de um caça-título: É pedante, mimado e boçal. Habitualmente vaidoso e cuidadoso com seu aspecto, sua indumentária, ou melhor, sua fantasia de intelectual e de bom moço, mas sustenta ares de superioridade, de absoluto dono da verdade, adora elogios, mas não admite a menor censura ou contestações, pois fica magoado e transforma-se em vítima.

    Uma das principais características do caça-títulos é querer estar metido em tudo, colecionar tudo pra dizer que tem, ser lambe bolas e subserviente daqueles com poderes de lhe impulsionar os desejos de ascensão, mas para aqueles que não têm o que lhe oferecer é indiferente e até arrogante.

    Beatífico e cheio de rapas-pés, um típico caça-título geralmente é simpático a ideologias socialistas. Pousa de certinho demais, é politicamente correto, como dizem hoje, se sente a encarnação de Mahatma Gandhi, dizendo apoiar o casamento homossexual, movimentos negros e feministas, paradas gays, direitos trabalhistas, mas, na prática, não faz o que apregoa como correto e humanitário, pois, enquanto seu discurso defende os trabalhadores, no seu carro só dá carona para o chefe.

    Geralmente, estes caça-títulos são de intelectualidade chula e total esterilidade artística, precisam se apoiar na opinião de grupos ou facções, e ainda juram de pés juntos serem convicções suas. Não são propriamente iletrados, são habitué de sebos, feiras literárias, bienais de livros, frequentadores de encontros artísticos e até têm interesse por leitura, desde que não precisem arriscar-se em autores que exijam de sua inteligência um maior esforço abstrativo ou fujam ao teor estético-político da hipocrisia em voga.

    Para manterem-se em ativa no universo intelectual, os caça-títulos até escrevem umas xaropadas aqui e ali, textos melosos, cheios de sentimentalismo

    retórico e êxtases para com as belezas naturais (sem nível poético, é claro). Usam os seus escritos para parecerem bons moços e, sobretudo, para bajular alguém de conceito no meio da intelectualidade, muita vezes gente que só tiveram um aperto de mão num evento público, mas sempre enfatizando que esses são seus queridos amigos para realçar nas entrelinhas seus próprios valores e dar a entender que são bem relacionados. Na verdade, o caça-título é um egocêntrico estrategista, que se utiliza da vaidade alheia para promover sua própria vaidade.

    Sem originalidade, suas produções textuais não têm um estilo definido, são falsetes que, dependendo do interesse de momento, se resumem em gastas liturgias acadêmicas ou contos autobiográficos narrando suas últimas proezas. Mas, na mesma proporção em que não produzem nada de sincero interesse coletivo, os caça-títulos praticamente forçam aqueles de seu circulo a lerem e fazerem comentários elogiosos. Uma crítica negativa, por menor que seja, lhe ascenderá a fúria e o vitimismo. Embora um caça-título nunca tenha coragem de romper amizades, especialmente àquelas que lhe possam ser útil para viabilizar ou endossar um novo título em vista.

    Como uma legião, esse tipo asqueroso de indivíduo está disfarçadamente muito presente na sociedade e, como a Serra de Bodopitá, parecem uma arte talhada por um escultor divino, mas, na verdade, não passam de entulhos.

  • PARA SER HONESTO COM A HISTÓRIA...

    08/11/2019

    Nas últimas semanas venho, juntamente com a memorialista Ida Steinmüller, desenvolvendo uma pesquisa sobre o levante do Quebra-Quilos em Campina Grande. Já consultamos uma copiosa bibliografia, algumas até de época, na busca de compreender as minúcias desse movimento para um trabalho que estamos produzindo. A leitura de documentos para produção histórica requer muito bom senso, isenção conceitual e honestidade, para não se deixar levar por dogmas ou se render à hipocrisia do “politicamente correto”, tão em voga ultimamente.

    Historiar com honestidade incomoda àqueles que ostentam ares professorais e vivem de fama, chavões e pedantismos, mas não se ocupam em rever as fontes à luz de novos entendimentos. Àqueles que, ao invés de promover a História, buscam se promover às custas da História. Incomoda também àqueles que usam a História para fabricar eventos, heróis e mártires adequados aos seus interesses e ideários.

    Em 2014, um grupo militante do Movimento Negro de Campina Grande, formado por Jair Barbosa Araújo, Moisés Alves e Evaldo Batista dos Santos, resolveu promover uma homenagem à participação da etnia negra na história de Campina Grande, com objetivo de mandar erguer uma estátua a João Carga d’Água numa praça da cidade. O projeto foi aprovado pela subcomissão de Memória e História do Sesquicentenário de Campina Grande, coordenado por Giovanna de Aquino, e uma escultura foi inaugurada na Praça da FIEP, às margens do Açude Velho, em homenagem ao negro que, supostamente, seria o símbolo da resistência negra e “herói” do Quebra-Quilos. Convém ressaltar que o monumento, de um homem franzino, não condiz com o homenageado, que, segundo quem o conheceu, era um “brutão até na estrutura”.

    Na verdade, o negro João Vieira da Silva foi um comerciante bem sucedido, vendia água do Açude Novo em jumentos carregados de pipas na cidade, um negócio rendoso numa época em que Campina não tinha água encanada, e seus clientes eram pessoas de cabedal, uma vez que os pobres iam buscar eles mesmo sua água no açude público. João é considerado como o líder e mártir do movimento Quebra-Quilos, mas ele participou somente do primeiro protesto em Campina Grande, talvez por casualidade, pois não há registros de ter seguido com o movimento. De vítima da sociedade ele não tinha nada. Segundo relatos de época, o negro possuía um sítio na área do Açude Novo que ocupava toda a dimensão das atuais ruas Frei Caneca e Otacílio de Albuquerque, com casa de farinha e curral onde ordenhava suas vacas leiteiras, usava sapatos, que não era utensílio de pobre, e possuía também escravos. O monumento que historicamente condiz com o João Carga d’Água é o suntuoso túmulo erguido em mármore, na alameda principal do cemitério do Monte Santo, onde repousam seus restos mortais. O túmulo está quase de frente ao do Coronel Alexandrino Cavalcanti de Albuquerque, que foi o homem mais rico e poderoso da Campina Grande novecentista. No túmulo de Carga d’Água consta que o mesmo faleceu em idade bem avançada para a época, aos 70 anos, em 1911. Se fosse um pobre, morreria bem mais cedo e estaria numa vala comum, sem epitáfio ou localização precisa.

  • A morte trágica do fogueteiro Lau Tomé

    02/09/2019

    Nicolau Maurício do Nascimento, Lau para os íntimos, quando moço, sofria uns desmaios repentinos e a sua mãe, muito devota, fez promessa a Padre Cícero em rogo à sua melhora, comprometendo o filho a, enquanto vida tivesse, anualmente ir ao Juazeiro do Norte, no Ceará, pagar a dívida com o santo, pois desde então ele não teve mais desfalecimentos.

    Lau viveu saudável, indo anualmente ao Juazeiro pagar a promessa de sua mãe. Casou, teve uma prole de cinco filhos e viveu consoante à natureza do universo agrário do sítio do Salgado, localizado à margem da PB 148, a uns cinco quilômetros ao norte da cidade de Boqueirão, no Cariri paraibano. Seu pai, Miguel Tomé, era curandeiro, e Lau, herdeiro desse ofício paterno, também rezava mazelas e preparava porções e unguentos, que aplicava para curas de bicheiras e de picadas de cobras. Outra herança alquímica de seu pai foi o ofício de fogueteiro, de modo que Lau também manipulava ingredientes químicos de produção de fogos de estampido e de artifício, para complementar a economia doméstica e alegrar as festas juninas, casamentos, nascimentos, noivados e todo tipo de festejo em que se empregava esse tipo dispositivo explosivo de efeitos sonoros e luminosos. Sua fábrica caseira, que também servia como depósito de fogos, ficava a uns duzentos metros de sua morada, e Lau, portanto, era um peculiaríssimo alquimista dos tempos atuais, espiritualizado, útil e muito bem quisto no torrão onde nasceu e se criou.

    Com a pele queimada pelo sol, a alma enrijecida pela vida rural e o instinto de um cientista, Lau era um tanto cético com relação a crendices religiosas, mas mesmo depois da morte de sua mãe manteve a obrigação romeira de ir todo ano ao Juazeiro. Contudo, no ano de 1984 ele achou por bem aproveitar lucrativamente essa viagem obrigatória, de modo que não foi à viagem no mês de Santana, como habitualmente fazia, deixando para ir em Setembro, porque assim aproveitaria a ocasião de preparo dos fogos para a tradicional festa de São Bento, que ocorre entre 21 e 28 de agosto em Boqueirão, para fazer um adicional de explosivos para levar e comercializar também no Juazeiro.

    “O homem molda as circunstâncias e é por ela moldado”, assim já dizia o alquimista rosacruz Nícolas Flamel, pois a mente é um labirinto e, embora no consciente Lau não temesse o sagrado, no fundo da alma essa sua falta de respeito o afligia. Foi num domingo, dia 18 de agosto (mês de desgosto), por volta das 11 horas. Lau estava no depósito preparando os artifícios quando, quase maquinalmente, foi pegar uma caixa de fogos no alto de uma prateleira e a mesma caiu acidentalmente (ninguém pode predizer o comportamento dos objetos) e, num daqueles momentos surreais da vida, em fração de segundos tudo ali foi pelos ares.

    Esse foi o último experimento alquímico e espetáculo pirotécnico de Lau, pois quase nada restou do depósito, dizem que as paredes se abriram e Lau foi projetado junto com o telhado a cerca de doze metros de distância. O barulho da explosão ressoou em Boqueirão, Barra de Santana e Caturité. Lau ainda foi acudido às pressas para o hospital Pedro I, em Campina Grande, onde ficou no balão de oxigênio, sofrendo as dores agonizantes das queimaduras, sem visão, porém lúcido e consciente de sua negligência, vindo a falecer nas primeiras horas da madrugada da terça-feira, dia 20 de agosto de 1984.

    Foi um grande pesar para toda a região e, em sua memória, rememorando este triste episódio, foi erguida uma capelinha no local do acidente, que ainda hoje está lá, e, como Lau agora não pode mais fazer suas romarias ao Juazeiro, dentro da capelinha, junto à cruz com seu nome, colocaram uma estatueta do Padre Cícero.

  • A identificação de um povo está na história que deve ser preservada

    08/08/2019

    Fundado em 21 de outubro de 1838, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) é a mais antiga e tradicional entidade de fomento da pesquisa e preservação histórico-geográfica, cultural e de ciências sociais do Brasil. Mas um instituto dessa natureza, não surge assim do nada, invariavelmente é fruto de mentes pensantes preocupadas com a preservação e o desenvolvimento, no caso específico do IHGB foi uma proposta do cônego Januário da Cunha Barbosa e do Marechal Raimundo José da Cunha Matos. Portanto, se tratando de entidades não governamentais, os institutos históricos criados ao modelo do IHGB, por se tratarem de iniciativas de grupos individuais e voluntários, refletem que a área política-geográfica para a qual foram criados, seja contemplando um estado ou um município, há indivíduos engajados na causa de preservação de documentos e fomento às pesquisas referentes à historicidade da extensão territorial a que se destina.

    Desse modo, não seria nenhum despropósito afirmar que a existência de um instituto memorialista a serviço de uma fração político-territorial reflete que sua sociedade possui um grau de interesse histórico-cultural, uma vez que emerge da própria comunidade o interesse voluntário preservacionista.

    A cidade de Campina Grande, que desde fins do primeiro meado do século XX se sobressai como um dos centros populacionais mais importantes do Nordeste, tendo um desenvolvimento econômico nesses tempos maior até do que a capital do Estado (João Pessoa), naturalmente, como reflexo desse desenvolvimento, gerou uma ebulição pensante que logo começou a se preocupar com a historicidade local, com destaque para Epaminondas Câmara, que a partir de 1938 começava a estudar e divulgar documentos para a História de Campina Grande, e Hortensio Ribeiro, que também nesse ano dirigia o Centro Campinense de Cultura, onde se congregavam outros intelectuais campinenses como Mauro Luna, João da Cunha Lima, João Mendes, Carlos Agra, Lopes de Andrade e Elísio Nepomuceno. E foi a partir desses movimentos em gestação que, em 1943, Epaminondas Câmara lançava a pedra fundamental para a historicidade campinense, com seu livro pioneiro “Os Alicerces de Campina Grande” e, anos depois (1947), publicava o livro “Datas Campinenses”, onde desenvolvia um esboço cronológico de apontamentos para a História de Campina Grande.

    Com esses primeiros resultados, a corrente memorialista campinense cada vez mais ganhava adeptos, culminando no dia 24 de janeiro de 1948, quando o então prefeito da cidade, Elpídio de Almeida, e outros intelectuais, como os próprios Epaminondas Câmara e Hortensio Ribeiro, fundaram o Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande, que foi a primeira entidade protetora e promotora da memória de um município criado na Paraíba.

    Todavia, uma instituição desse porte não consegue se sustentar somente com a boa vontade de seus associados, requer auxílio governamental para que possa funcionar minimamente como casa de memória. Mas, infelizmente, memorialistas e governantes comungam ideais divergentes, são como água e óleo, não se agrupam. Memorialistas são sempre minorias e ações públicas em favor da Memória não rendem votos.

    Entretanto, apesar dos inúmeros obstáculos, um memorialista é um idealista consciente de seu papel em favor da sociedade e seu patrimônio cultural, de modo que

    não arrefece de seus propósitos. Mesmo sem a cumplicidade da maioria da sociedade, que mal compreende o alcance dos bens histórico-culturais, persiste tenazmente em seus ideais. E é desse modo, com resistência à indiferença, que o Instituto Histórico de Campina Grande vem sobrevivendo há mais de setenta anos. Sem sede própria e a mercê de inúmeras adversidades, o IHCG foi extinto dez anos depois de sua primeira fundação. Foi recriado em 1970 para ser extinto outra vez em 1985, novamente recriado em 1997, sendo igualmente extinto em 2000 e, pela quarta vez, recriado em 2012.

    Mediante tantos desacertos e empecilhos, o natural seria que a iniciativa de se tentar dotar Campina Grande de uma casa de memória fosse abandonada. E foi, por três vezes, mas essa resiliência de se recriar o Instituto tem um motivo de ser: a consciência intelectual de seu povo, que é perene desde que a cidade amadureceu para a cognição histórico-cultural. É impensável uma sociedade de maturo cultural e metropolitano não gerar continuamente seres sensíveis à conservação e fomentação sócio-identidária. A preservação deste propósito está na essência do povo.

    *Historiador, Arqueólogo e Presidente do Instituto Histórico de campina Grande.

  • O túmulo de Irenêo Joffily

    02/07/2019

    Amanheceu nublado o dia 07 de fevereiro de 1902 em Campina Grande, pois, dum vistoso casarão branco, de oitões livres, com três janelas de frente e seis de lado, quase em frente à Igreja Matriz de N. S. da Conceição, saia o ataúde de Irenêo Joffily, conduzido modestamente por matutos, de pés no chão e saco às costas, com destino à sua última morada, no cemitério do Carmo, no Monte Santo. Hortensio Ribeiro, que ainda menino presenciou, ficou impressionado com a simplicidade daquele cortejo fúnebre, por se tratar de um homem de posses e grande importância, mas todos na cidade sabiam a devoção que Joffily dedicara à causa dos matutos.

    Numa trajetória de advogado, promotor público em São João do Cariri, Juiz municipal em Campina Grande, cronista, vereador por Campina Grande, deputado provincial, e ainda foi eleito deputado geral, mas a proclamação da república lhe cassou o cargo antes mesmo de assumir. Foi também jornalista, fundando em 1888 uma folha sabática intitulada Gazeta do Sertão, o primeiro jornal semanário de Campina Grande. Somado a tudo isso, além de militante republicano e abolicionista, com afinco, Joffily se dedicou à pesquisa histórica e geográfica do Estado, tanto de campo como de arquivos, publicando em 1892 o livro “Notas sobre a Parahyba” e, em 1893, “Sinopse das Sesmarias da Capitania da Parahyba”, livros que ultrapassa em muito a simples compreensão intelectual dos fatos. Enfim, nesse dia nublado, Campina Grande e a Paraíba perdiam seu mais insigne idealista e historiador.

    Enfermo de hanseníase, Joffily faleceu com 59 anos de idade. Seus restos mortais ainda hoje jazem no Cemitério do Monte Santo. Unicamente os seus, pois os de sua viúva e de seus sete filhos não foram depositados na tumba. Não se sabe quando, mas a família Joffily partiu de Campina Grande. Há registros de que pelo menos até 1920 sua esposa Rachel ainda residia na cidade, mas em pouco tempo todos deixaram a Rainha da Borborema e o túmulo onde jazem os despojos de Joffily ficou em total abandono.

    Por quase um século sem cuidados, como um leproso na alameda principal do cemitério do Monte Santo, o túmulo de Joffily acumulou uma crosta de matéria preta e gordurosa, produto da decomposição de poeira com detritos vegetais, denunciando sofrer de descuido. Mas, sensibilizado com o estado amnésico em que se encontrava o jazigo daquele que foi um dos maiores vultos da Paraíba, o Instituto Histórico de Campina Grande, numa sessão especial de diretoria, decidiu que, daqui por diante, se responsabilizaria pela sua manutenção e zelo, de modo que, no frescor de um sol tímido, em 07 de fevereiro de 2019, aniversário de 117 anos de sua morte, o IHCG mobilizou uma equipe, com baldes e escovas, para uma lavagem e reparos do túmulo.

    A ação, que foi coroada por um arranjo de flores, demonstra que, embora voltemos todos ao pó, a imortalidade de uma pessoa está ligada à memória de seu talento e contribuição para com a sociedade, e Joffily foi um desses, cuja vida não foi em vão.

    Vanderley de Brito é historiador, arqueólogo e presidente do Instituto Histórico de Campina Grande.

  • Passando de passagem por Passagem

    19/06/2019

    Dentro de um imenso anfiteatro natural, um vale compreendido entre fascinantes serras, a impressão que sentíamos era de insignificância em meio ao magnífico quênio que se forma no Vale do Farinha, corredor natural, entre desfiladeiros, que dá entrada ao Sertão das Espinharas. Ybynharaã, diriam os indígenas tapuias se estivéssemos em meados do século XVII, termo corrompido hoje para espinharas, que em língua nativa queria dizer “começo do Sertão”. De fato, o Sertão da Paraíba se inicia exatamente onde os contrafortes do Planalto da Borborema declinam para se igualar aos terrenos pediplanos dos sertões patoenses, e o acesso mais viável (menos íngreme) se dá pelo Vale do Rio Farinha.

    A cidade de Passagem fica exatamente na desembocadura do Vale, à base da majestosa Serra do Firmiano, cujo umbral forma boqueirão com a serra oposta, a chamada Serra do Abra, e abre caminho aos horizontes sertanejos, por isso, desde tempos coloniais, o nome do lugar é “Passagem”.

    A cidade é pequena, teve seu desenvolvimento atrofiado quando a velha rodovia (atual BR 230), que antes seguia o Vale do Farinha, nos tempos da implantação de sua cobertura asfáltica foi desviada por interesses políticos para descer a Serra de Santa Luzia. Poderíamos dizer que essa arbitrariedade de interesses coronelísticos de certo maneira foi favorável, pois as cidades do Vale do Farinha estagnaram no tempo, de modo a manter sua originalidade histórica e suas formações naturais, que, diga-se de passagem (sem trocadilho), tem uma beleza geomorfológica de tirar o fôlego.

    Todas essas impressões perpassavam por minha mente enquanto, juntamente com meu filho, apreciávamos a paisagística daquele recanto de mundo esquecido. Havia alguns meses que vínhamos nos empenhando em escrever a história do lugar, vasculhando documentos velhos e visitando os recantos mais insólitos do município para recolher dados.

    Na verdade eu entrei nessa história por acaso, desígnio, talvez. Tudo começou em fevereiro de 2017. Meu filho Erik Brito, que também é historiador, foi contatado pelo prefeito da cidade, Magno Martins, para orientar sobre um museu que se pretendia criar na cidade, ele aceitou o convite e me convenceu a ir também a título de acompanhante. No entanto, enquanto trabalhávamos na montagem do museu, fomos nos aprofundando na história local com o mero objetivo de buscar identificar o museu com o processo de desenvolvimento do lugar. Mas, no curso de nossa pesquisa, percebemos que a dita “História oficial” do município estava eivada de falhas e inverdades que precisavam ser revistas. Quando expomos ao prefeito essa situação fomos surpreendidos com a desafiadora proposta de reescrevermos a História de Passagem.

    O prefeito Magno, embora seja um homem simples, é dessas pessoas que tem um interesse incomum por tudo que relaciona à cultura e à memória, e nos deu todo o apoio necessário para a pesquisa. Por questões metodológicas, eu fiquei encarregado de escrever a história colonial e imperial do município (tenho uma simpatia natural em retroceder no tempo e penetrar no longínquo do passado), e os tempos ditos contemporâneos ficaram a cargo de Erik. Mas logo percebemos a imensa dificuldade de amealhar documentos sobre o município, que é relativamente novo, e também o

    prazo que nos foi concedido era curto para montarmos uma história plausível nos moldes técnicos de se historicizar uma região cujos primórdios de colonização remontavam o século XVII. O desafio parecia mais desafiador do que imaginávamos, e era exatamente nesse dilema em que nos encontrávamos, enquanto envolvidos (literalmente) pela paisagística dos sertões das Espinharas.

    Além de dezenas de entrevistas, já tínhamos fuçado os arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Patos, da Fundação Ernani Sátiro, da paróquia da Guia, da Fundação Casa de José Américo, o arquivo do Espaço Cultural José Lins do Rego, toda minha biblioteca, algumas de amigos, mas a história tinha travado e os dados que havíamos arregimentado não ultrapassavam trinta laudas.

    - Preocupante, disse eu a meu filho. E ele, despreocupadamente, respondeu brincando: - A menos que a gente invente mais umas trinta laudas.

    Naquela brincadeira despretensiosa, que visava apenas dar humor à nossa aflição, surgiu a ideia de escrever uma história-romance: - Isso. Vamos inventar, mas com honestidade! E daí saiu o livro “Passagem das Espinharas”, um misto de história e ficção, onde procuramos mesclar os fatos com uma intrigante trama carmática, evocando genealogia, misticismo, etnografia e sutilezas de diversas áreas científicas para escrever uma obra de História Cultural que viesse a despertar o interesse dos leitores em buscar elucidar tudo aquilo que a exiguidade documental e temporal não nos permitiu alcançar.

    Quando trouxemos as primeiras páginas do novo projeto, o prefeito Magno se encantou, era exatamente aquilo que ele queria. Um livro instigante onde a história pudesse ser degustada, e até ele contribuiu com sugestões, poderíamos dizer que Magno é um coautor da obra, pois noites e noites afora debatemos com ele, em sua varanda, a construtiva da obra.

    Confesso que esse é um dos trabalhos que mais gostei de compor, o mais interessante é que enquanto eu tramava a história colonial, simultaneamente Erik montava à contemporânea, e toda vez tínhamos que negociar o ficcional porque a minha parte devia se interligar à dele, de modo que por vezes ele metia o bedelho na minha seara e outras vezes eu era quem intervinha na sua fatia. Ríamos muito, conversávamos por horas, criávamos situações hilárias, personagens interessantes, enfim, o produto saiu numa harmonia fantástica. Vale a pena ler.

  • Tem coisas que só o vento sabe a resposta

    27/05/2019

    O céu estava azul e só algumas nuvens preguiçosas se moviam com o vento. Levantei os olhos e o céu já estava encoberto, o tempo havia mudado e passei a sentir os ares de uma chuva longe que se aproximava. Voltei à minha leitura, eu lia um livro intitulado “Só o vento sabe a resposta”, romance romântico de Joannes Mario Simmel, ambientado em Cannes. Com a cabeça baixa, inteiramente absorto no enredo fictício, de repente fui chamado à realidade por um barulho que soava como uma saudação hebraica; shalon, shalon, shalon... Era um quadro na parede, que impelido pelo vento, tamborilava por causa da janela aberta. Batendo-se freneticamente, igual ondas implacáveis contra um litoral rochoso, o quadro parecia que estava em convulsão epiléptica e, para evitar danos, urgentemente deitei o livro no birô e corri para fechar a janela. Num só esforço deslizei o vitrô que em segundos dissolveu o uivo ventoso em bramido e depois em assovio até culminar no silêncio, quando a janela se fechou por inteira. De tanto se bater o quadro estava disforme, ajustei-o e me afastei para conferir seu enquadramento, um instante em que fiquei também a contemplar o quadro, que é uma reconstituição histórica que eu mesmo pintei no ano passado para retratar pictórica e hipoteticamente a fundação de Campina Grande.

    É impressionante a nossa capacidade de transformar as coisas, de tornar viável uma retórica abstrata em possibilidade cênica, dar-lhe concretude. Como num passe de mágica, o que antes eram tubos de tinta e uma simples placa de Eucatex, agora é uma retratação do momento em que o sertanista Teodósio de Oliveira Ledo chegou à aldeia da campina grande trazendo para exílio naquele ecúmeno dos índios Cavalcante os selváticos Ariús que, forçados pela rendição, entre imolados e feridos, se salvaram na terrível Guerra dos Bárbaros, insurreição onde se deram os mais hediondos genocídios de que se tem notícia na história dos sertões paraibanos.

    Com os recheios paisagísticos que rodeiam a cena, como a linha serrana de Bodopitá e o primitivo Açude Velho, retratado como uma lagoa exaurida rodeada de matos, sob minha perspectiva e a liberdade que, segundo Sartre, estamos condenados, nesse quadro pude criar um mundo a imagem e semelhança de fatos documentais. Na verdade, o quadro ganha estatuto de veracidade ao elaborar artisticamente a retratação coesa de um episódio ocorrido em 1697, que consta descrito em carta de época, mas que nenhuma testemunha à época o coagulou em imagem.

    Tal perspectiva histórica, obviamente imaginativa, me ocorreu ao tempo em que ia compondo o cenário. Como a agulha magnética se agita e treme quando desviada da direção que lhe é própria, o pincel muitas vezes animicamente parecia ter direção própria. Ao final da obra, que durou duas semanas ao pé do cavalete, eu não sei responder o que nessa composição foi feito conscientemente.

    Arte é transe. Muito do que eu julgava estar fazendo para equilibrar as cores e sombras no painel, revelou-se em sutilezas impensáveis, como, por exemplo, a rústica ternura em que a aldeia se configurou, dá até para sentir o cheiro da palha e da terra pisada, o clima brando do lugar e de seus habitantes, em contraste com o vigor guerreiro dos Ariús, mesmo estando esses com a moral baixa dos derrotados. O modo de Teodósio é de cordialidade, porque veio pedir pernoite aos Cavalcante e solicitar

    exílio para os capitulados de sua guerra, em todo caso, nitidamente o seu semblante não esconde a brutalidade perversa de seu espírito de conquistador.

    Enquanto eu olhava o quadro na parede - agora inerte e em prumo - com suas cores, asperezas e doçuras, pensava comigo sobre as razões que a própria razão desconhece. De onde e por qual via vieram os muitos e irreconhecíveis detalhes dessa obra que eu mesmo materializei? Não sei, foi o vento quem me trouxe a esta reflexão, pensei enquanto retomava a minha leitura. Será que o vento sabe a resposta?

  • Sussurros filosóficos e divagações genealógicas

    13/05/2019

    Genealogia é trabalho moroso, precisa ler muito papel amarelecido, cheirando a ácaros, em grafia arcaica que só quem domina os rudimentos da paleografia consegue decifrar. Cansa a vista. Mas nem tudo nesses estudos é lassidão, pois as pesquisas de campo são mais relaxantes, filosóficas..., eu diria; libertadoras.

    Normalmente faço essas incursões de motocicleta. Meu destino é a região do município de Boqueirão, no Cariri, e logo que venço o perímetro urbano da cidade de Queimadas sigo sem capacete nos ares rurais, com o vento no rosto. Inteiramente ilegal, mas não imprudente.

    A caatinga, tão delicadamente colorida em tons pastéis, tem seus encantos e suas mensagens subliminares. À direita, a cordilheira de Bodopitá parece me acompanhar, graciosa e ondulada como a silhueta de uma donzela, em seu dorso posso ver rochas afloradas em pontos inúmeros, parece uma linguagem em sinais, um código em braile. Já no lado esquerdo da estrada, ao longe, o sol ilumina o oblongo da Serra de Caturité, com todas suas lendas e mistérios. Tudo é perfeito, porque Deus não poderia criar coisa alguma que fosse menos perfeita do que Ele próprio. Li isso em algum lugar, creio que foi Spencer Lewis quem disse.

    O cenário me impregna de serenidade, sinto-me em paz, e sigo a sessenta por hora murmurando um cantarolar sem palavras, só melodia improvisada, enquanto observo o avançar da estrada. Esses caminhos do Cariri tem algo de colonial. Sons sibilantes de chocalhos são audíveis, vejo gado pastando e ouço floreados musicais do vento, que chorosamente sopra uma saudosa canção judaica, pois sigo em terras de velhos refugiados, antigos marranos obrigados a deixar tudo para trás.

    Estou indo visitar um velho parente, um ancião nascido na década de 1920 que ainda goza de suas faculdades mentais. A sanidade é um bem valioso, penso comigo. Ele mora numa casa centenária que pertenceu a seus avós, edificação de pau-a-pique com amarrações de embira e recoberta de barro batido, que segundo dizem é a mais antiga casa da região. O velho primo nasceu, viveu e vai morrer ali, naquele mundo barroco. Viu gerações dos mais antigos, certamente tem muito a dizer.

    Estaciono a moto no terreiro da casa e vejo que estou sendo visto, pois habitualmente ele vive sentado num tamborete vendo o dia passar do alpendre. Antes de me apresentar, ainda junto à moto, roteirizo questões na cabeça e com a vista baixa vejo cacos de faiança no chão enquanto passo em revista meus arquivos.

    Aquele adorável velho, curvo pela idade, de aspecto sifilítico e olhar suspirante me recebeu com alegria e, livre para moldar e remoldar fatos, por horas o ouvi relembrando historias no tempo verbal do passado, fatos de defuntos conhecidos, casos de doenças e de mortes. Enquanto o ouvia, procurando dar expressão gráfica a estas conversas, eu olhava velhas fotografias expostas em vulgares porta-retratos por sobre uma mesinha forrada com uma toalha de flores rendadas. Vejo nesse birô, estilo art nouveau, rimei em meu pensamento.

    Ao som tênue da voz do velhinho, divago por entre imagens inanimadas. Um dia também serei um retrato em algum lugar, pensei comigo.


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