Entrevista

    Fernanda Montenegro: "No voto mais e nem tem em quem votar. Meu ltimo voto foi no Lula"

    “Um dia o mundo vai acabar, e restará apenas o Tocantins”, prenuncia a voz de Fernanda Montenegro em uma das chamadas para “O outro lado do Paraíso”, próxima novela das 9 da Globo. Na história de Walcyr Carrasco, que estreia nesta segunda (23), ela é Mercedes, mulher mística que cura as pessoas, física e espiritualmente, grande amor do passado de Josafá (Lima Duarte).

    Aos 88 anos, a atriz não só está longe de repudiar o advento das redes sociais, como mantém lá sua página no Facebook, onde tem sido alvo da agressividade do mundo virtual. É xingada e desrespeitada por muitos dos que discordam dela, incapazes que são de argumentar, em vez de bater. Ela não se importa. Diz que esse é o preço que se paga pela liberdade de expressão: que cada um possa dizer o que quer, um direito também seu.

    Na sua idade, o voto já não é obrigatório, e nem ela quer mais saber das urnas. “Não tem em quem votar. A última vez em que votei foi no Lula”, conta, durante a festa de lançamento do folhetim, ocorrido nesta sexta, bem na hora do último capítulo de “A Força do Querer”, no belo Parque Lage, no Rio.

    Você tem sido bastante agredida, verbalmente, na página que mantém no Facebook. Tem disposição em responder? Pensa em sair das redes sociais por isso?

    Fernanda Montenegro – Eu acho que quem quiser fala o que quiser, e eu falo o que eu quiser, compreende? Eu não concordo com aquilo, agora eu luto pelo direito daquele direito existir, porque é essa a condição de liberdade de expressão neste país.

    Você conhece, na sua existência, algum momento parecido com o que estamos vivendo?

    FM – Não. Nunca presenciei e não tenho notícia de nada nessa proporção. Com a era da Ciência e Tecnologia, todas as pessoas podem se expressar. É claro que todas podem se expressar na sua particularidade, como podem ser porta-vozes de criminosos, de reacionários, entendeu? Enfim, de cidadão de quinta categoria, que seja, aquilo está ali pra ser usado.

    Além de usar as redes sociais para expressar uma opinião, você dedica um tempo a ver o que estão dizendo ali?

    FM – Eu não tenho tempo. Eu tenho um Facebook, mas eu não fico ali. Eu ainda não cheguei nessa tecnologia. Total falta de tempo. Eu não deixo de ler um livro, uma página, para ficar vendo o que estão dizendo de mim ou do mundo. Eu gosto de pegar o jornal, ler o jornal, que é algo muito arcaico hoje em dia.

    No ano que vem, politicamente, você pretende se colocar, de alguma forma, politicamente, em favor de algum candidato ou partido?

    FM – Eu não voto mais, na minha idade eu já não voto mais e nem tenho em quem votar.

    Nem no ‘menos pior’, digamos assim?

    FM – Não existe menos pior. Pior é pior.

    A última vez que você votou foi em…?

    FM – No Lula, na primeira e na segunda vez que ele entrou. Depois, não votei mais nem votarei mais. Não tem ninguém, a não ser que apareça um milagre.

    Você acredita que essa novela possa trazer algum tipo de reflexão para as pessoas? Você passou por aquele momento de ‘Babilônia’, (quando evangélicos e conservadores incitaram ao boicote da novela, pela relação matrimonial entre as personagens de Fernanda e Nathalia Timberg)?

    Tudo isso é resultado dessa condição de falar o que quer, na hora que quer, pelos meios eletrônicos, entendeu? Eu acho que isso está certo. É legítimo. Agora, também isso está entregue, como eu falei pra você, a uma opinião particular ou a uma manobra ideológica, política. Eu acho que o público sempre aceita o jovem gay. Mas que duas senhorinhas, de oitenta e tantos anos, possam ter um caso, e ainda trocam um ligeiro beijo na boca, isso foi um escândalo maluco, inexplicável, assustador. A gente pensa que o mundo caminha, não. Há o preconceito em não mostrar isso na idade mais velha. Vamos deixar na mocidade. Até os 40 anos é suportável. Depois disso, pelo amor de Deus! Nem beijo na boca, mesmo o casal estando casado há 70 anos, não me faça esse desaforo.

    E agora, até os museus são alvo de controvérsias por exposições artísticas.

    FM – Misturam impropriedade com liberdade de expressão, como existe no mundo inteiro uma conceituação em torno de uma impropriedade. Mas isso não pode ser por uma vida inteira. Há um desserviço, na verdade, a serviço de um poder político, estranhamente poderoso, isso está tendo um crescimento assustador. Um mundo absolutamente racionado, que só vale o seu conceito. Um conceito que por acaso traga alguma alternância. No fundo, no fundo, deverá ser morto.

    Há a tese que defende que o mundo encaretou. Você concorda?

    FM – O careta tem todo direito de ser careta. Cada um tem o direito de pensar e ser o que quiser. Mas o fato de distinguir o contrário diante de um fato, de um fenômeno, ou de uma postura humana, isso é amedrontador.

    Mercedes, a sua personagem, é descrita como uma mulher muito à frente de seu tempo. Como é isso?

    É muito à frente de seu tempo porque ela é muito antiga no seu sentimento. Quando eu digo antigo, não é velho. É antigo. São sentimentos primitivos puros. É muito difícil, importante. Eu espero dá conta.

    Você  é mística na vida pessoal?

    FM – Olha, é aquela coisa de Santo Agostinho, ‘se você duvida, já acredita’. Essa frase é tão bonita. Quem não pede algum socorro, em hora de desespero? ‘Meu Deus’, até o Ateu vai dizer na hora do desespero.

    Já acostumou às novas madeixas?

    FM – Essas madeixas são minhas mesmo. Ainda não me acostumei com elas. Foram muitos anos pintando, né? Eu acho confortável. Deixar o cabelo certinho, branco. É repousante! Porque pintar o cabelo toda semana é um horror. Uma hora a tinta não pega na raiz. Hoje estou com ele natural. Viu como tem vantagem a velhice? É natural, como era em criança.

    Walcyr Carrasco falou que é uma grande realização ter você em uma novela dele.

    FM – Primeiro lugar, eu agradeço a ele em confiar uma personagem tão difícil a mim. Não sei se eu estou correspondendo ao que ele imagina que eu possa fazer no papel. É uma personagem bem difícil. Isso aí, entra figurino, o cabelo, o jogo com o colega, enfim.

    Como vê a situação do teatro no Brasil hoje?

    FM – Hoje o teatro acabou. O teatro que eu conheci desde minha infância até 10 anos atrás, isso acabou. Não há mais companhias, autores representativos, etc. Mas a resistência é mais gloriosa do que nos períodos de glória, compreende? O que acontece hoje é um teatro de catacumbas, se é necessário sobreviver com um monólogo, se faz um monólogo. Essa luta dos artistas de hoje em dia de levar sua arte é de uma coisa sadia e resistente. É de se aplaudir de pé.

    Quais são as suas vaidades?

    FM – Em primeiro lugar, cuidar da minha saúde e ter uma alimentação boa. Não me privo do que quero comer, mas já comi mais do que hoje (risos). Já fui a jantares, banquetes. Fazia teatro e saía morta de fome daquelas peças enormes de três atos ou mais. A idade te põe à prova. Fora isso, tomo dois banhos por dia, escovo os dentes e coloco um creminho na pele.”

    A senhora nunca foi adepta de plásticas, né?

    FM – Não. Quanto mais se opera, mais fica-se deslocado do seu tempo. E aí não tem papel. Não se é mais jovem por motivos óbvios, não se está na meia idade, já que se tirou todas as possíveis rugas e papos, e nem é possível encenar a velhice, pois se escondem os anos. Aí não tem papel. O cara não vai para lugar nenhum. Fica indefinido.”

    Fonte: Portal TELEPADI, com André Romano