Entrevista

    Rodrigo Lombardi: "A vida no deixou que eu me deslumbrasse"

    QUEM esteve na fábrica desativada no bairro da Quarta Parada, na zona leste de São Paulo, onde o elenco já grava a segunda temporada da série Carcereiros, da TV Globo. Ao chegar, Rodrigo Lombardi logo vai ao encontro dos atores Othon Bastos, Tony Tornado e Aílton Graça, com quem contracena. Mesmo com uma rotina intensa, que chega a passar de dez horas de gravações por dia, o ator demonstra bom humor, brinca com Othon, pai de seu personagem na ficção, imita vozes e tem uma fala cheia de vigor. Questionado sobre o que tira seu humor e alto-astral no ambiente profissional, ele é direto: "Não gosto de rodeios, nem de falta de objetividade. Quando não está gostando, prefiro que fale. Neste trabalho, temos um papo franco, direto. Vamos aprimorando o que pode ser melhorado juntos, com conversa".

     Pai de Rafael, de 10 anos, da união com a maquiadora Betty Baumgarten, Rodrigo admite que o convívio familiar fica comprometido diante do volume de gravações e da distância, uma vez que grava em São Paulo e a mulher e o filho moram no Rio de Janeiro. "Minha mulher e meu filho vêm para São Paulo a cada 15 dias, passam um fim de semana, pegam um Rodrigo completamente destruído, só quero dormir e meu filho fica p. da vida, mas ele entende", admite o ator, que nos raros momentos de folga curte programas culturais, como uma recente ida com a mulher ao teatro para assistir à peça O Escândalo Philippe Dussaert, estrelada por Marcos Caruso.

    Com os altos e baixos do meio artístico, ele admite que deixou a atuação por conta da instabilidade e chegou a trabalhar nas áreas de comércio e turismo. "Já cheguei a desistir da profissão, me chamaram de volta, não foi compensador, saí de novo e fui trabalhar com meu pai. Fiz ficha para trabalhar em loja."

    Antes de estrear na Globo, com um papel em Bang Bang (2005), ele teve passagens pela Band, em Meu Pé de Laranja de Lima (1998), pelo SBT, em Marisol (2002), e pela Record, em Metamorphoses (2004). "Quando passei no teste para fazer Bang Bang, estava fazendo a peça A Madrágora, mas logo antes eu estava como contrarregra do grupo. Já fui agente de viagens. Sempre quis viajar, mas viajei muito pouco. Antes, não viajava porque não tinha dinheiro. Hoje, não viajo porque não tenho tempo."

    Para o trabalho em Carcereiros, o ator foi chamado às pressas. O personagem seria feito por Domingos Montagner, que morreu afogado no Rio São Francisco em setembro de 2016. Rodrigo afirma que abraçou o papel sem hesitar. "Em poucos trabalhos na minha carreira eu fui a primeira opção. Isso não me incomoda. Aqui, em Carcereiros, eu não era a primeira opção e isso não me incomodou. Aceitei fazer feliz da vida."

    CARCEREIROS

    "A série foi gravada em ordem cronológica e o Adriano foi nascendo ao longo deste processo de gravação. Se você pegar o primeiro e o 15º episódio, dá para perceber a evolução do personagem. O espectador consegue notar a transformação do humano no habitat do sistema prisional. Ninguém é capaz de suportar esse sistema como se nada estivesse acontecendo, a vida em penitenciária te leva ao limite. Gravar em ordem cronológica fez com que eu conseguisse realizar este trabalho desta forma. Tive a sorte de cair na mão de diretores maravilhosos em quem eu podia confiar. Acho que Carcereiros é meu melhor trabalho até agora. A questão humana é o forte na história. Tive vontade de me colocar no lugar e me questionar se eu faria diferente e se eu poderia fazer diferente do que é mostrado na série. Adriano é um carcereiro que passa por várias histórias. A grande vitória deste projeto é a forma como as histórias são contadas. A gente foge do folhetim. A forma como é contada é muito mais próxima do documentário do que do folhetim. Procuramos enxugar excessos. Aqui, o valor da palavra é a grande moeda de troca e isso resulta em um resultado diferente no trabalho. Tudo é informação. Cada palavra dita tem peso. Tudo que falamos é suficiente. A gente não fala a mais, a gente fala a menos. Torço para que o telespectador embarque neste projeto."

    DIETA DO SONO

    "Minha preparação praticamente não existiu. Assumi este trabalho em uma condição atípica porque o personagem não seria meu, seria do Domingos. Quando fui chamado para Carcereiros, não tive tempo. Encarei. Para compor o Adriano, quis buscar uma característica, um olhar, algo que fosse recorrente entre os agentes penitenciários. E eu percebia que existia ali um sentimento de cansaço. Para o personagem, não bastava o tom do mau humor. O Adriano é um cara cansado. Cansado da realidade daquele sistema em que está inserido, da falta de expectativa... E para encontrar este tom fiz a dieta do sono. Dormia só três horas por noite e ia gravar. Acredito que isso me ajudou a chegar ao personagem. Chegava mais cansado, falava 'bom dia' três vezes para a mesma pessoa, o raciocínio ficava um pouco mais lento... Foi a forma que eu, Rodrigo, encontrei. Era uma emergência. Não é recomendado, eu sei. Tanto que agora, nas gravações da segunda temporada, não estou fazendo isso."

    CRÍTICA SOCIAL

    “Achei muito bonito os autores terem colocado meu personagem, o carcereiro Adriano, como um ex-professor. Ao mostrar que ser carcereiro, uma profissão que é um inferno, ainda é melhor do que ser professor no nosso país, acho que fazemos pensar. Achei interessante elucidar melhor essa questão neste trabalho. O professor hoje se vê em condições talvez tão insalubres como um carcereiro. Hoje, você vê professores sendo agredidos e professores agredindo, saindo do prumo porque estão em condições de trabalho insalubres. A gente vive sob um teto de vidro estilhaçado. O Brasil só falta ruir. O Rio de Janeiro virou um estado falido, em São Paulo a violência só cresce, assim como no Nordeste, em Porto Alegre... Isso reverbera em mim. Tenho medo de levar meu filho à escola. Na série, mostramos como é o sistema penitenciário no país. Não estamos aqui para responder, estamos aqui para mostrar e o telespectador tira suas conclusões. Acho leviano o autor, o ator, o artista que fala: ‘Viemos trazer respostas’. Ninguém traz respostas. Através dos nossos estudos, pesquisas e vivências, a gente consegue, talvez, melhorar as perguntas, mas não trazer respostas.”

    VAIDADE

    "Existe vaidade na minha profissão. Tenho vaidade, mas a minha vaidade está em querer ser reconhecido como um cara generoso, um cara estudioso, um cara que acrescenta. Quero ser um profissional melhor. Não quero ser empecilho. Quero somar, quero acrescentar, quero fazer o set andar. Não só porque eu quero que seja bom, mas faz parte da minha natureza querer fazer um jogo melhor. Muitas vezes chega uma cena, em qualquer trabalho, e a cena não tem nada de especial, pegamos o roteiro e pensamos: 'Como a gente faz isso aqui? Como a gente faz para deixar isso interessante?'. Às vezes, a gente erra. Às vezes, a gente piora. Mas, às vezes, a gente melhora. A profissão é de tentativa e erro."

    VIRADA PROFISSIONAL

    "Não senti quando aconteceu. Claro que tive uma virada, mas ela foi homeopática. Já distribuí panfleto na rua e nunca parei de olhar para frente porque tinha medo de virar mendigo. Não era brincadeira esse medo. Pensava que se não tivesse dinheiro dali a três meses, eu não teria onde morar. Qualquer trabalho me fazia feliz. A grande virada para mim foi quando pude olhar para trás e ver tudo o que já tinha feito. Não tinha tempo ruim para mim, não tem até hoje. Hoje tenho a possibilidade de poder escolher alguns trabalhos, mas também tenho a infelicidade de querer ser escolhido para alguns e não ser. Normal! Em muitos poucos trabalhos na minha carreira eu fui a primeira opção. Isso não me incomoda. Aqui, em Carcereiros, eu não era a primeira opção e isso não me incomodou. Aceitei fazer feliz da vida."

    SABÁTICO

    "Acabo as gravações de Carcereiros no dia 4 de junho e no dia 5 de junho já estou envolvido com minha nova peça, O Panorama Visto da Ponte, de Arthur Muller. Achei que 2018 seria um ano sabático, mas acabou virando a segunda temporada de Carcereiros, a peça de teatro, o filme O Caso Morel em que vou contracenar com a Maria Casadevall. Ainda existe a possibilidade de outro longa -- por enquanto ainda não posso revelar qual -- para rodar entre dezembro e fevereiro. Sem contar que a gente não sabe se Carcereiros terá uma terceira temporada, se irei para uma nova novela..." 

    FAMÍLIA

    "O tempo com eles é muito pouco. É a parte em que peco. Minha mulher e meu filho vêm para São Paulo a cada 15 dias, passam um fim de semana e pegam um Rodrigo completamente destruído. Só quero dormir e meu filho fica p. da vida, mas ele entende. Estou com base em São Paulo até novembro, mas tenho casa no Rio. Só de ir e voltar para lá, gasta-se muito tempo. Tem o trânsito até o aeroporto, o tempo de espera antes do embarque, o avião que atrasa, o aeroporto que para porque chove... Às vezes, até penso que levaria o mesmo tempo se fosse de ônibus. Em um fim de semana, acabo perdendo um dia em viagem, o outro dia sobra para descansar e no dia seguinte já saio entre 5h, 6h da manhã para retornar. Não dá! Tenho que me proteger porque senão eu caio no set, como já aconteceu. Nas gravações da primeira temporada, aconteceu de ter um apagão. Em novela, aquele ritmo de horas e horas, também já aconteceu. Até agora, eu me recuperei, mas já vi que as coisas mudam depois dos 40.”

    IDADE

    "Faço 42 neste ano e percebo mudanças em todos os sentidos. O joelho dói, você começa a fazer barulhos... Você levanta e fala 'eeeeeeerrrrr'. Meu Deus do céu! Você dobra a perna e faz 'errr'. Você fica onomatopeico. 'Errrr, 'arrrgh', 'irrrc'. A coluna não é mais a mais mesma, o joelho também não, mas a cabeça é melhor, a alma é melhor, o conhecimento é maior, mas o tornozelo, o dedão esquerdo, o joelho, o ombro não... Eles começam a ranger. Tive que mudar as prioridades. Você aprende a confiar mais nas pessoas para poder delegar funções. Aprendi a me entender melhor para que possa aceitar que não estou levando seu filho à escola. Na prática, a prioridade é a do momento, é o set. É lógico que de uma maneira utópica a prioridade é a família, é o meu filho, mas na real, no vamos ver, é o set em primeiro lugar. É a história que tenho que contar, a cena que tenho para fazer."

    FRUSTRAÇÕES

    "Lidar com as minhas inseguranças me deixa humano. Não sou aquele ator que bota o peito pra frente ao chegar no set e diz: 'Vamos!'. Essa pessoa não existe, essa pessoa é de plástico. Às vezes, você não vê a hora em que chegue tal cena e quando vem, dá aquela sensação de 'fuén'. Não sai tudo aquilo que você imaginava. A gente aprende. A profissão de ator está muito mais relacionada a frustrações do que a felicidades. E a gente aprende a ter felicidades após os momentos de frustações. E é assim que tem que ser porque senão teria que tomar Prozac. A frustração é parte integrante do nosso dia a dia. Se você pensar no Neymar que faz vários golaços, você lembra dos gols, mas e a quantidade de chutes que o goleiro defendeu? Nestes, ele se frustrou, mas nem por isso ele deixa de ser feliz jogando. Assim também é com o ator. Nem sempre sai tudo como queremos ou imaginamos. Às vezes, a gente está em cartaz no teatro com uma comédia. O público sempre ri. De repente, eles param de rir naquela piada que sempre arrancou risadas em outras sessões. Poxa, como assim? Aí, você passa um mês com plateias em que o público não ri. A profissão de ator é assim, sempre equilibrando pratinhos. A gente está sempre na corda bamba, no fio da navalha. A nossa profissão é criar conflitos. Sem conflito não tem história."

    PÉ NO CHÃO

    "A vida não deixou que eu me deslumbrasse. Antes de chegar na Globo, eu era contrarregra. Literalmente antes. Quando passei no teste para fazer Bang Bang, eu estava fazendo A Madrágora com o grupo Tapa, mas logo antes eu estava como contrarregra do grupo. Já fui agente de viagens. Sempre quis viajar, mas viajei muito pouco. Antes, não viajava porque não tinha dinheiro. Hoje, não viajo porque não tenho tempo. Não fico olhando no Instagram, não fico lá postando 'uauuuu'. Isso não me atrai. Não sei ficar em férias. Minha mulher diz que sou insuportável de férias. Ela me chuta para fora de casa quando estou em férias e diz para eu ir fazer alguma coisa (risos). Talvez pelo o que eu vi meus pais passarem e com medo de passar pelo mesmo na questão de dificuldades financeiras... Talvez este meu histórico faça com que eu veja a vida de uma forma mais pé no chão. Não enxergo o glamour. No começo, falavam que eu me irritava quando diziam que eu era um galã. Não me irritava, eu não entendia. Eu me questionava sobre o que fazer diante daquela informação, não sabia. Não me vejo por este ângulo do galã. Eu erro, eu faço a cena errado, eu não entendo, a outra eu acerto, a outra ajudo..."

    PERRENGUES FINANCEIROS

    "Já cheguei a desistir da profissão, fui fazer outras coisas, me chamaram de volta, não foi compensador, saí de novo e fui trabalhar com meu pai. Fiz ficha para trabalhar em loja. Tinha comprado um carro e tive que vender para fazer um curso de edição de vídeo. Nessa época, o grupo de teatro em que eu estudava me chamou para trabalhar por lá. Fui contrarregra, varria o palco, montava o palco, fazia cursos e esse foi um grande aprendizado. Esse foi o período de maior perrengue. Saía de casa sem comer, ia a pé ao teatro para economizar o dinheiro que gastaria com o ônibus para poder comer um hot dog prensado na hora do almoço. Era uma delícia. O dinheiro dos dois ônibus dava para um hot dog e um refrigerante. Isso era o que eu comia no dia. Nesta mesma época, fim dos anos 1990 até 2003, comecei a fazer teatro infantil para escolas. Já tinha feito meus primeiros trabalhos na TV. A televisão não é o olimpo dos atores. Não é porque você fez uma novela que você ficou famoso, rico e nunca mais vai passar perrengue. A cada fim de trabalho é um recomeço, é sempre da estaca zero. Eu fazia quatro sessões de um espetáculo infantil entre segunda e sexta. Depois, fazia um outro infantil aos sábados e domingos. Na sequência, ia para o teatro montar o cenário do Grupo Tapa, saía e ia encenar o meu espetáculo adulto, voltava ao Grupo Tapa para desmontar o teatro. A peça era Órfãos de Jânio. Aí, você pensa: 'Pô, mas você fazia peça'. Sim, ganhava 3 reais por sessão."

    CÓDIGO DE ÉTICA

    "Tenho muito cuidado em relação a isso [de me posicionar]. Acho errado simplesmente dar a minha opinião porque sei que sou um formador de opinião. Em casa, para o meu filho, é outra história. Sigo um código de ética, de conduta, mas tomo cuidado para emitir opiniões."

    ANALFABYTE

    "Minha vida não é interessante a esse ponto de ficar postando passo passo. Minha família raramente está no meu Instagram. Não tenho Twitter, meu Facebook é uma fanpage, sou analfabyte. Meu celular não manda e-mail e não consegui resolver este problema até hoje, já faz três anos isso. Se preciso anexar uma foto no e-mail, já preciso chamar alguém. Sou péssimo. A única coisa que eu sei é jogar vídeo game. Amoooo! Olhei para essa tela aqui [aponta a TV tela plana de 56 polegadas no local da entrevista] e os olhos já brilharam. Jogo aventura, jogo guerra, jogo carro, jogo futebol nos games. Agora tenho a possibilidade de dublar alguns jogos, o que dá muita satisfação também."

    DUBLAGENS

    "Faço muitas e adoro! O mais recente foi o Gargamel [em Os Smurfs e a Vila Perdida]. No início da minha carreira, às vezes, me chamavam para ir ao estúdio, perguntavam se eu tinha uma horinha para fazer um vozeiril, uma fala do tipo: 'Peguem-no, peguem-no'. Também lia placas como: 'Aeroporto Internacional de Los Angeles'. Quando fiquei famoso e me chamaram para dublar, disseram que eu não precisava fazer com a minha voz e, sim, entrar na voz do personagem. Em Zootopia, fiz a raposa. Quando chegei no estúdio disse: 'Não é para mim, gente. É para o Thiago Fragoso. Ele é um dos melhores, fez Ratatouille, mas disseram que gostaram do meu teste. É um dos trabalhos eu mais amo fazer e não me incomodo em ser testado.

    Fonte: Quem (Beatriz Bourroul)