Entrevista

    Ao receber ISTOÉ na quarta-feira 27, o vice-presidente Hamilton Mourão discorreu sobre o estresse emocional vivido por Jair Bolsonaro desde a facada, mas diz que, aos poucos, ele estará “mais senhor de si”.

    Dizia-se que o senhor era polêmico, muitas vezes desastrado nas suas declarações. Mas agora está sendo visto como alguém ponderado…

    É um trabalho grande. A gente vai apreendendo, evoluindo.

    Qual o papel do vice, no seu entender?

    O vice-presidente é um cara que constitucionalmente existe para substituir o presidente. E isso é uma garantia de estabilidade. Se não houvesse o vice, o substituto seria o presidente da Câmara. O que poderia ser arriscado, se ele for um adversário político.

    Mas o senhor não fica somente esperando esses momentos de substituir o presidente, certo?

    Me comporto como alguém capaz de assessorar o presidente. Montei uma equipe própria eficiente para me auxiliar nisso. E venho trabalhando aqui para receber pessoas diversas e debater com elas os assuntos do país.

    Quem o senhor já recebeu, por exemplo?

    O presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas). Representantes de sindicatos como o dos Metalúrgicos. Conselheiros de Fundos de Pensão. Políticos de vários partidos. Discuto com eles. Recebo as demandas. Quando acho relevante, encaminho para o presidente. É um papel secundário. E alinhado com ele.

    O presidente compreende essa função de mediador? Porque naqueles áudios vazados do ex-ministro Gustavo Bebianno ele parecia criticá-lo justamente por receber determinadas pessoas na agenda…

    A facada fez com que o presidente ficasse estressado emocionalmente. É preciso avaliar isso. Foram sete meses nos quais ele não teve controle absoluto do seu estado físico. Uma tensão grande de alguém que correu, em alguns momentos, risco de morte. Creio que agora e aos poucos o presidente estará mais tranquilo, mais senhor de si. Como se diz no meio militar, agora o presidente está a cavaleiro da situação.

    Houve, então, uma tensão desnecessária no episódio da demissão de Gustavo Bebianno?

    O presidente estava hospitalizado. Numa situação de fragilidade. Então, não era o momento do Bebianno ficar enchendo o saco. Deveria ter esperado. Dar tempo ao tempo. Mas eu julgo que a relação entre os dois já vinha se desgastando. Lembre que não foi o presidente que o anunciou como ministro. Demorou para sair o anúncio. Havia algo ali. Não dá para se analisar sob uma ótica só.

    Como o senhor avalia a interferência dos filhos do presidente?

    A gente vê uma família unida, que enfrentou junta muitas coisas. Esse drama do atentado. São três rapazes bem sucedidos. Tanto que todos estão aí vivendo suas trajetórias políticas. Aos poucos, eles seguirão cada um as suas funções, como deputado, vereador, senador. O pai escuta filhos. Bolsonaro vai escutá-los. É normal. Com o tempo, tudo vai se encaixando.

    A sua posição de saída democrática para a crise na Venezuela está sendo um consenso no governo?

    O princípio da não intervenção foi um pressuposto básico desde sempre, conversado com o presidente Jair Bolsonaro. A posição acertada se baseava nos seguintes pontos: o governo de Nicolás Maduro é ilegítimo; o governo legítimo é o de Juan Guaidó; não poderíamos jamais apoiar trazer para nosso continente um conflito que não nos pertence.