Cresce consideravelmente, a cada ano, o valor destinado pela Prefeitura Municipal de Campina Grande aos eventos religiosos promovidos na cidade durante o período carnavalesco. Nem mesmo as dificuldades decorrentes da grande crise financeira mundial, dentre eles, a brusca diminuição das verbas federais reservadas aos municípios conseguiu frear a ‘santa’ generosidade do poder público às entidades organizadoras de tais acontecimentos. Só nos últimos dois anos, o valor do erário público para tais iniciativas subiu de R$ 108 mil, em 2008, para aproximadamente R$ 200 mil. Trata-se de algo que requer uma reflexão maior por parte dos contribuintes campinenses.
Nada contra a promoção de eventos desta natureza que, como sabemos, já fazem parte do roteiro turístico da Rainha da Borborema neste período do ano, tornando-a um centro ecumênico aberto à manifestação dos mais diversos credos religiosos. Contudo, não podemos nos esquecer de que patrocinar eventos de cunho religioso, sobretudo, destinando para tal, um montante precioso da tão disputada contribuição dos impostos pagos pelos cidadãos é algo que beira o inaceitável.
Isto porque há de considerarmos a grande demanda de serviços e obras públicas de responsabilidade da gestão pública voltadas ao bem estar da sociedade, muitos das quais de necessidade básica, como é a educação e a saúde para onde a verba destinada é sempre insatisfatória. Sem falar nos inúmeros projetos culturais que andam totalmente esquecidos por parte dos órgãos públicos competentes deixando a cidade cada vez mais carente de eventos e iniciativas desta natureza. Outro aspecto importante a ser considerado é o fato de que, como é do conhecimento de todos, o estado ainda permanece sendo laico e como tal, o mais sensato seria manter-se ao máximo possível isento de envolvimento de iniciativas ideológicas dessa natureza que tem como questão central a fé. Do contrário, além de que quebrar essa máxima da política tal envolvimento ‘laico-sacro’ termina gerando um mal estar entre os profitentes das diferentes ordens religiosas.
Tal efeito já se pode constatar na cidade nos últimos anos e diz respeito à polêmica distribuição da generosa fatia de verba entre os eventos promovidos pelas diversas entidades religiosas, das quais, uma delas fica com mais de 80% de toda o erário, motivo para diversas queixas junto ao patrocinar maior que é a Prefeitura Municipal. As razões por trás dessa política de distribuição, como bem sabemos, são as mesmas que geram a quebra do estado laico, as quais, entretanto, nos reservamos a falar noutro momento, tendo em vista se tratar de pauta para um outro comentário. Para aqueles mais interessados em acompanhar, em detalhes, a distribuição da verba pública entre os diversos eventos religiosos durante o carnaval, podem ter os dados através do endereço eletrônico: http://www.centrac.org.br/arquivos/BoletimCG2009.pdf. Concluímos acreditando e sugerindo que, pelas questões aqui apresentada, o mais salutar e politicamente correto para a cidade seria que cada um dos eventos religiosos se tornasse financeiramente independente desta parceria com o poder público, se tornando auto-patrocinado pelos próprios participantes, como o é a maioria dos eventos culturais realizados na cidade e no país.
Uma das medidas mais sensatas para tal seria a cobrança de inscrições junto aos interessados, além da busca de patrocínio na instância privada onde certamente estão os representantes dos diversos credos e correntes filosóficas participantes dos eventos. Por fim, temos certeza de que tais mudanças agradariam amplamente os contribuintes, sobretudo, aqueles mais carentes e os mais conscientes (já que o tema maior é a consciência) acerca da aplicação justa e adequada dos impostos depositados nos cofres públicos a espera da reversão do bem estar social.
Também não ficariam de fora desse grupo de gratidão pela separação entre o Estado e a Religião, os homens de fé, sobretudo, os cristãos conscientes, em nome de quem deixamos aqui uma máxima do cristo que, ao nosso ver, sintetiza de maneira clara a orientação cristã para a total isenção de subvenções governamentais de qualquer procedência junto a todo e qualquer trabalho e vivência religiosa: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus ." (Mt 22,21). Enfim: uma questão de consciência!.