A Ciência brasileira está em luto. Perdemos o passado, mas também o futuro

11/09/2018

O HuffPost Brasil começaria nesta segunda-feira (03) a Semana Temática de Educação, Ciência e Tecnologia para refletir sobre os desafios do próximo presidente e Parlamento nessas áreas. Infelizmente, teremos de abrir a série com este artigo em luto pela Ciência no Brasil com a destruição do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), devastado por um incêndio de causas desconhecidas neste domingo.

Com o museu em chamas, perde-se a História da arqueologia brasileira. O conhecimento produzido com séculos de pesquisa em paleontologia, zoologia, botânica se esvai. Esqueletos, múmias, fósseis, inclusive o fóssil humano mais antigo das Américas, viram cinzas. Assim como milhões de insetos. Milhares de livros de ciências naturais. E até um meteorito... Um acervo de 20 milhões de peças severamente afetado.

A SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) do Rio de Janeiro diz que o incêndio é símbolo do descaso do governo de Michel Temer com ciência, cultura e patrimônio. Mas admite que essa indiferença vem da gestão petista. "Desde 2014 o governo federal não faz os repasses apropriados para a manutenção do museu", afirma a SBPC do Rio em nota.

Uma tragédia anunciada!

O presidente da SBPC, Ildeu de Castro Moreira, postou no Facebook propostas elaboradas em 2010 pela comunidade científica ressaltando a necessidade de "uma política pública para preservação do patrimônio cultural e científico do País". O texto, que reunia diretrizes para governantes e parlamentares, foi elaborado ao fim da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, em Brasília. "Resta dizer que não foram implementadas", lamenta Moreira.
A curadora e pesquisadora acadêmica Ivana Bentes, ex-secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, classifica o incêndio de "barbárie" e não "acidente". Ela também ressalta o descaso com o Museu Nacional, que resultou na precariedade de suas instalações. "O museu sobrevive com o mínimo de recursos do Estado; o público fazia vaquinha ajudar na manutenção", lembra.

Bentes recorda outros incêndios que atingiram o MAM (Museu de Arte Moderna), há 40 anos no Rio, e a Cinemateca Brasileira e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, mais recentemente. Em 2010, também na capital paulista, um incêndio no Instituto Butantan destruiu maior acervo de cobras do País.

Todos, segundo Bentes e tantos outros pesquisadores, refletem o total desinteresse do poder público em preservar séculos de Ciência e, claro, História e Cultura.

Emocionado, o divulgador científico Hugo Fernandes-Ferreira, professor na UECE (Universidade Estadual do Ceará), argumenta em vídeo no Facebook que o Brasil não perdeu apenas o passado com o incêndio, mas também o futuro.

"Hoje, você não descobre espécies novas andando no campo, não é assim para a Ciência. Essas espécies são descobertas em coleção [para comparar] que esta é diferente daquela. Então, o animal coletado há 200 anos serve para ser descrito hoje", explica Fernandes-Ferreira.

Uma explicação que expressa o luto da Ciência brasileira neste início de semana.

Afinal, nas palavras do professor, "perder o futuro dói muito mais".

Fonte: Huffpost Brasil




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