Inferioridade atinge secretaria e queijo de cabra da PB só ganha licença se tiver nome francês: “Boursin” ou “Chèvre” em vez de “Cariri” ou “Borborema”

27/11/2017

A jornalista Miriam Moura, especialista em gastronomia e que assina coluna no portal “Congresso em Foco”, de Brasília, exaltou em artigo recentemente publicado a excelência de um produto paraibano não muito conhecido no Estado mas que tem levado o nome da Paraíba às mais requintadas mesas do mundo: o queijo de cabra.

Intitulado “Os queijos de cabra literários do sertão paraibano”, o artigo de Miriam traz o lado ufanista da coisa e um outro, relativamente triste, que revela de certo modo a vergonha institucional em relação à especial iguaria. 

Diz a jornalista que os produtores de queijos temperados de cabra da Paraíba - usuais na culinária francesa - travam uma batalha com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento de Agropecuária para renovar o registro dos produtos.

O órgão estadual teima em não aceitar os nomes nordestinos afixados nas embalagens (Cariri, Arupiara, Borborema...) e somente quer licenciá-los sob rubrica internacional: “Boursin” ou “Chèvre”.

Confira abaixo o ótimo artigo da especialista: 

OS QUEIJOS DE CABRA LITERÁRIOS DO SERTÃO PARAIBANO

Hoje a coluna vai falar de gastronomia e literatura. É uma história bem brasileira que começa em 1971, quando o poeta e dramaturgo Ariano Suassuna lança o romance “A Pedra do Reino” e ganha o prêmio nacional de ficção do Ministério da Educação. Com o dinheiro, o poeta, em parceria com o primo, compadre e sócio Manuelito compra 200 cabras para iniciar uma produção de queijos. Visionário, Ariano Suassuna já apostava no potencial dos caprinos: “A cabra é o agente modificador político, econômico e literário do sertão do Nordeste”, previu.

Hoje, passadas muitas décadas, a frase faz todo o sentido. A fazenda Carnaúba, no município de Taperoá, no sertão da Paraíba, produz queijos com leite de cabras, temperados com ervas nativas. Os animais são das raças parda sertaneja, moxotó, graúna, serrana azul, repartida, canindé, marota, muciana preta, caoba e biritinga. Espalhados pela caatinga, provam que podem viver e resistir no árido sertão.

O consumo de queijos temperados ainda não é muito comum no Brasil mas é usual na culinária francesa. Os queijos especiais e artesanais chamaram a atenção do chef Onildo Rocha, um talentoso chef paraibano e dono do restaurante Cozinha Roccia, em João Pessoa. Ele ficou encantado com os queijos, que hoje são destaque no cardápio criativo e inovador do chef.

Onildo, que pesquisa as origens da cozinha regional paraibana e usa ingredientes locais, reforça a opinião de Ariano Suassuna, e acredita que os queijos são a grande alternativa para tirar proveito da seca. Os queijos do sertão paraibano são vendidos hoje em delicatessens e lojas especializadas em outros Estados. Em Brasília são comercializados na Bodega Austral, na  SCN 112 Norte. A procura é crescente, pois são muito saborosos.

Na Paraíba, os produtores travam uma batalha com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento de Agropecuária, que tem se recusado a renovar o registro dos produtos, alegando que eles precisam se adequar aos nomes do mercado, a maioria de origem estrangeira, como boursin ou chèvre. Na fazenda Carnaúba, os queijos são temperados com ervas sertanejas e chamados de cariri, arupiara e borborema.

Fonte: Da Redação




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