"O Estado de São Paulo" masculiniza Elba Ramalho embora a destaque como grande atração do São João Virtual de Campina Grande

08/06/2020

Excesso de zelo com a língua-Pátria, erro puro e simples ou maldade. Uma das três opções pode justificar o que a edição de ontem (02) do jornal ‘O Estado de São Paulo’, um dos gigantes da imprensa brasileira, cometeu com a cantora e atriz paraibana Elba Ramalho, principal destaque de matéria de página inteira sobre os prejudicados festejos juninos deste ano no Nordeste.

O gosto da filha de Conceição do Piancó pelo sexo oposto é por demais conhecido no País e seus namoros e casamentos já deram robusta prova disso. Ela, portanto, não é nenhum Pablo Vittar, a permitir que alguém possa vir a duvidar do seu gênero.

Mas, o jornal da fina elite paulista apesar de exaltar Elba Ramalho como ícone dos festejos juninos, simplesmente a masculinizou. Ela não é ELA, mas ELE conforme a chamada de capa da reportagem.

- “Elba Ramalho é UM DOS PARTICIPANTES da tradicional festa junina de Campina Grande, agora online”, estampa o jornal quase vestindo calças na paraibana.  

Fora esse, digamos assim, “incidente”, a reportagem assinada por Nathalia Molina e Levy Teles é de exaltação à cantora e começa com declarações dela: “Estarei num outro tipo de estrada e, quem sabe, atingindo mais gente ainda”, disse a cantora aludindo ao São João Virtual que em Campina Grande terá uma LIVE com ela e outros forrozeiros no dia 23, já que os festejos d’O Maior São João do Mundo foram adiados para outubro por conta do coronavírus.

Diz a matéria:

“No mês de junho tenho Deus por testemunho, com meu violão em punho, vou fazer meu São João.” Gravados por Elba Ramalho, os versos de Moraes Moreira na canção São João na Estrada ganham outra dimensão em 2020. A cantora, cuja imagem praticamente se mistura à das festas populares do meio do ano, vive um junho diferente. Ela participa no dia 23 de uma live promovida por Campina Grande, para comemorar o São João virtual.

A cidade paraibana, dona de uma das principais festas juninas do País, adiou o evento para outubro, em vez de cancelar, como ocorreu em outros municípios que tradicionalmente realizam festejos em junho. Eles foram suspensos para impedir aglomerações e conter o avanço do coronavírus no País. “É muito difícil sob todos os aspectos. O Nordeste vive e respira São João, mas a pandemia é maior que tudo no momento”, afirmou Elba. “Vou fazer o meu São João do jeito que for possível e vou tentar compartilhar ao máximo. As nossas vidas mudaram, o mundo está mudando e a festa vai ter de mudar.”

Celebrações de São João não estão previstas neste mês de junho, mas pode preparar o bolo de milho e o quentão que a animação está garantida na quarentena. Não apenas quem faz os eventos todo ano tem de se adaptar à realidade atual. O público também vai aprender a dançar em um novo arraial: o virtual.

A festa virtual de Campina Grande – assim como a promovida por Mossoró (RN) – tem a intenção de arrecadar doações para as famílias afetadas pelo cancelamento dos eventos, fundamentais para a economia dos dois municípios. “O nordestino passou por muitas dificuldades, mas é alegre. Sempre faz acontecer, mesmo nas dificuldades. Teremos um mês atípico, mas com muita esperança, em que as famílias irão se reunir, com culinária à base de milho, em volta da mesa para ver as lives dos artistas”, diz Rosália Lucas, secretária de Turismo de Campina Grande. No Parque do Povo, espaço que concentra as atrações, foi registrada a entrada de 1,8 milhão de visitantes em 2019; na cidade, circularam em torno de 2,5 milhões de pessoas.

O Mossoró Cidade Junina, realizado na cidade do Rio Grande do Norte, é o terceiro maior São João do Nordeste, com um público de cerca de 1 milhão de pessoas. “Não podemos adiar a data da festa. Nosso calendário é repleto de outras atividades culturais”, diz Isaura Rosado, secretária municipal de Cultura. As transmissões em junho prometem lembrar os arraiais.

Caruaru, por sua vez, não faz live musical em junho, mas, sim, uma ação solidária. “O São João na nossa cidade movimenta a economia e a vida de muita gente, como artistas locais que esperam o ano inteiro”, afirma Raquel Lyra, prefeita de Caruaru. A festa reúne cerca de 3 milhões de pessoas todo ano e tem entre as tradições o desfile dos bacamarteiros (homenagem aos brasileiros que lutaram na Guerra do Paraguai, no século 19) e as comidas gigantes. O bolo de milho, por exemplo, é preparado há quase 40 anos; em 2019, teve 11,5 metros de comprimento e levou 1,2 mil ovos e 50 quilos de farinha de trigo.

Pelo saojoaocaruarusolidario.com.br, é possível doar alimentos e produtos de higiene para os trabalhadores que neste ano não terão a renda da festa, que promove cerca de 6 mil empregos diretos e 12 mil indiretos. “É um momento de reunião, de celebrar a colheita do milho, de forró. Mas, hoje, o que a gente mais preza é pela vida da população e cancelar neste momento é fundamental para resguardar a saúde de todos e garantir uma festa ainda mais linda no futuro”, diz a prefeita.

Marília Mendonça esteve na festa de Caruaru em 2019. “São festas tradicionais e que sempre estão na minha agenda. Eu tenho um carinho muito especial pelo Norte e Nordeste. Foi lá que a minha carreira começou de verdade e só depois fui para outras regiões do Brasil, eu já disse isso em muitas entrevistas e falo sempre porque sou muito grata ao povo nordestino”, diz a cantora, que não tem prevista uma transmissão com tema de São João, mas faz a Live das Patroas, no dia 14, com a dupla Maiara e Maraisa, nos nossos canais delas no YouTube.

Promovido pela plataforma Sua Música, o São João de Todos será digital, com 30 atrações confirmadas. Trata-se de um canal de divulgação de artistas, especialmente nordestinos, que vêm fazendo lives durante a quarentena. Em junho, as lives serão de quinta a domingo – Mastruz com Leite abre a programação nesta quinta-feira (4). “Decidimos conectar todo o País em uma única grande celebração junina”, diz Marcela d’Arrochella, diretora comercial da Sua Música. Um cenário junino foi montado no Sesc Iparana, em Fortaleza, para as lives, segundo a organização, respeitando as normas de higiene e distanciamento.

Sem festejos oficiais

Na Bahia, o São João foi cancelado em todas as cidades. No fim de abril, o governador Rui Costa decretou o mês sem festa, para tentar conter a contaminação pelo coronavírus. O feriado regional de 24 de junho foi antecipado para 25 de maio, uma segunda-feira, junto com a independência do Estado, folga transferida para 26 de maio, num feriadão para inibir a circulação de pessoas.

A data pode ter sido antecipada, mas a festa não deixou de acontecer, ainda que timidamente. Na casa de Vanessa Schuerz, que mora em Salvador, foi tudo de improviso. “Acordamos na segunda com a coisa de que era São João. Decidimos enfeitar a casa e comprar as comidas”, conta. Um móvel, que estava para ser descartado, virou uma fogueira, montada na frente da porta de casa. Houve o momento para os fogos de artifício, licor e bolo de milho, tradicionais da festa na região Nordeste. “Foi um paleativo”, diz Vanessa.

Em Cruz das Almas, cidade com uma das festas mais tradicionais na Bahia, Marilene Silva todo ano se prepara bem antes de junho para produzir seu “licor diferenciado”, como diz: “Deixo ele em infusão, enterro por seis meses desenterro. Daí faço o licor. Assim rle fica mais consistente e você sente mais o sabor da fruta”. O resultado, mais consistente e com apurado sabor de de tamarindo, jenipapo, maracujá ou limão. Ela vende no São João, ao lado de comidas juninas típicas também preparadas por ela, como canjica, mungunzá e bolo de carimã.

Apesar do prejuízo financeiro, Dona Marilene acredita que a decisão mais sábia é respeitar a quarentena. Por isso, pretende passar o São João em casa, apenas com marido e filhos. “É um momento difícil. Claro que queria ter vendido mais, uns 10 mil litros. A economia é importante, mas a vida é mais ainda”, afirma.

Bumba meu boi no Maranhão

O forró é o ritmo predominante nas lives do calendário junino, mas não só. Ivete Sangalo e Bell Marques têm apresentações previstas, e o Maranhão vai investir em apresentações tradicionais. Tambor de crioula, bumba meu boi e danças regionais, normalmente presentes no festejo de São Luís, estão na programação virtual prevista pelo governo do Estado para junho. O São João é a festa mais popular do Maranhão. Em 2019, foram em torno de 1,3 mil apresentações durante o período das festas e a ocupação hoteleira em São Luís ficou em 70%.

“Cancelar o São João do Maranhão é como cancelar a alegria. Milhares de pessoas aguardam essa época, e é difícil passar por junho sem essa grande celebração popular. Mas a prioridade é com o cuidado e a saúde das pessoas”, afirma Anderson Lindoso, secretário estadual da Cultura. “No entanto, o festejo vai ocorrer de forma virtual. Estamos preparando uma programação que mantenha vivo esse espírito junino. E quem sabe fazer um São João do Maranhão marcado pela interatividade e outras formas de comunicação.”

Já em São Paulo, o Centro de Tradições Nordestinas (CTN), que faz uma celebração arretada todo ano, decidiu adiar sua festa – ainda sem data. Mas o São João de Nóis Tudim deve ter uma versão virtual, prevista para o dia 28. “A proposta é que o público mate a saudade de tudo o que há na nossa festa junina, só que online”, diz Christiane Abreu, presidente do CTN. Já quermesses clássicas da cidade, como as das igrejas do Calvário, no Sumaré, e Consolação, no centro, não devem ser realizadas neste ano.

A Medow Entretenimento, empresa gestora do festejo em Campina Grande, criou o projeto O São João de Campina em Casa, com canal no YouTube e perfil @osaojoaodecampina no Instagram. Serão seis transmissões, nos dias 23, 24 e 27. Elba Ramalho e Luan Santana já confirmaram presença. O público será convidado a fazer doações, destinadas às famílias dos barraqueiros e ambulantes cadastrados na festa junina da cidade, adiada para outubro em 2020.

Fonte: Da Redação




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